3. Um Hóspede Sai de Cena | A Tempestade



NO EPISÓDIO ANTERIOR


Cena 2. Interna – hotel resplendor – saguão – tarde.

Gilberto: nunca ouvi falar dela. Moramos tão longe! Pouca coisa sabemos que se passa na zona sul.

Cristóvão: é possível que não a conhecessem pelo nome de maria leão. Porque este não era seu nome verdadeiro. Tinha ficha policial e suas impressões digitais estavam arquivadas, de modo que pudemos identificá-la sem dificuldade. Seu verdadeiro nome era Mariana Estanislau. Seu marido era um fazendeiro, Jonas Estanislau, que morava numa fazenda em campos dos Goytacazes, alguns quilômetros daqui.

Gilberto: numa fazenda em campos dos Goytacazes? Houve uma época em que soubemos de um caso terrível que aconteceu numa fazenda por lá. Será que foi nessa?

Cristóvão: exatamente. Foi um caso famoso.

Cassandra aparece, já tendo ouvido o início da história.

Cassandra: de uma criança...

Todos olham para ela.

Cristóvão: isso mesmo. Uma menina. Que foi levada a um tribunal de menores por necessitarem de cuidado e proteção. Deram-lhe um novo lar na casa do casal Estanislau subsequentemente  a criança morreu como resultado de negligência criminosa e constantes maus-tratos. O caso causou certa comoção, na época.

Milena: foi horrível.

Cristóvão: tanto o homem quanto a mulher foram para a cadeia. Ele morreu na prisão. Ela cumpriu a sentença e foi libertada. Ontem, como já disse, foi encontrada assassinada.

Milena: e quem foi? Já sabem?

Cristóvão: já chego lá. Um caderninho de notas foi encontrado perto da cena do crime. Nele havia dois endereços. Um era 24, rua Culver. E outro (pausa, e revela) era hotel resplendor.

Gilberto: o quê?

Cristóvão: isso mesmo, senhor Gilberto. Foi por isso que o delegado encarregado do caso, ao receber essa informação, julgou fundamental minha vinda aqui para descobrir se os senhores sabiam de qualquer ligação entre este hotel, ou qualquer hóspede, e o caso da fazenda em campos.

Suspense. Tensão. Todos se entreolham desconfiados. Um forte trovão assustam eles. As janelas batem com força. Um clima de horror.

Fade-out

 

No episódio de hoje: “Um hóspede sai de cena”

 

Cena 1. Interna – hotel resplendor – saguão – tarde.

Na continuidade...

Gilberto: não há nada, absolutamente nada. Deve ser uma coincidência.

Cristóvão: o delegado não acredita que seja coincidência, meu senhor. Ele teria vindo pessoalmente se tivesse sido possível. Com este tempo, e já que ele me mandou com ordens para obter informações completas a respeito de todos neste hotel e fazer-lhe um relatório por telefone, bem como para tomar quaisquer medidas que julgar necessárias quanto à segurança de todos neste hotel.

Gilberto: segurança? Em que perigo ele acha que estamos? Meu deus, ele não está achando que alguém poderá ser morto aqui.

Cristóvão: não desejo assustar os senhores, mas, falando francamente, sim. É disso que ele tem medo.

Gilberto: mas por quê?

Cristóvão: é o que eu vim descobrir.

Gilberto: mas isso tudo é uma loucura!

Cristóvão: sim, senhor. E por se tratar de uma loucura é que é perigoso.

Beatriz: que bobagem!

Cassandra: confesso que a mim tudo parece um tanto imaginoso.

Cristiano: eu acho sensacional!

Milena: há alguma coisa que o senhor não nos disse, detetive? Acha que foi um de nós quem matou essa tal de Mariana estanislau?

Cristóvão: não. Mas acho que esse maníaco homicida vai aparecer por aqui para matar outra pessoa.

Milena: aparecer aqui? Porque?

Cristóvão: isso é o que eu tenho de descobrir dos senhores. Segundo o delegado, tem de haver alguma ligação. (para Gilberto.) O senhor afirma que pessoalmente jamais teve qualquer ligação com o caso da fazenda de campos?

Gilberto: jamais.

Cristóvão: (para milena) e o mesmo é válido para a senhora?

Milena: claro. Nenhuma ligação.

Cristóvão: e quanto aos criados?

Beatriz demonstra desaprovação.

Milena: nós não temos criados. E por falar nisso, detetive, o senhor se importa que eu vá para a cozinha? Estarei lá se precisar de mim.

Cristóvão: não há problema.

 Milena sai.

Cristóvão: e agora poderiam todos dar-me seus nomes, por favor?

Beatriz: isto é inteiramente ridículo. Estamos apenas hospedados nessa espécie de hotel. Só chegamos ontem. Não temos nada a ver com este lugar.

Cristóvão: no entanto, planejaram sua vinda para cá com antecedência. Já haviam feito suas reservas.

Beatriz: bem, é claro. Todos menos o senhor que chegou por último...?

Plácido: plácido Gutierrez. Meu carro atolou num lamaçal. Aqui próximo.

Cristóvão: compreendo. O que estou tentando dizer é que qualquer pessoa que estivesse seguindo um dos senhores poderia saber muito bem que estavam planejando vir para cá. E agora só há uma coisa que eu quero saber, e quero saber logo. Qual dos senhores tem algum tipo de ligação com aquele caso da fazenda campos? (silêncio mortal.) não estão sendo muito sensatos, sabem? Um dos senhores está em perigo, perigo muito real. Tenho de saber quem é. (novo silêncio.) muito bem, perguntarei de um em um. (para plácido) o senhor, em primeiro lugar, já que parece ter chegado aqui mais ou menos por acaso.

Plácido: meu caro inspetor, eu não sei de nada, de nada do que o senhor falou. Sou estrangeiro. Não sei nada a respeito de acontecimentos locais de muitos anos atrás.

Cristóvão: (para beatriz) e a senhora?

Beatriz: realmente considero uma impertinência... Por que haveria eu de ter alguma coisa a ver com — acontecimentos tão perturbadores?

Cristóvão: (para Cassandra) e a senhorita?

Cassandra: Cassandra vieira. Jamais ouvi falar nesta fazenda e não sei nada a respeito dela.

Cristóvão: (para marcos) o senhor?

Marcos: li a respeito do caso, quando aconteceu. Estava trabalhando em São Paulo, na época.

Cristóvão: (para Cristiano) e o senhor?

Cristiano: Cristiano soares. Eu era menino naquele tempo. Não me lembro nem sequer de ouvir falar.

Cristóvão: e é tudo o que têm a dizer, todos aqui? (Silêncio de todos, se olham.) bem, se um dos senhores for assassinado, só terão de culpar a si mesmos. Bem, senhor Gilberto, agora posso dar uma olhada no hotel?

Gilberto: sim. Claro.

Gilberto e Cristóvão saem.

Cristiano: ele é muito atraente, não é? Eu admiro muito a polícia. Tão severa, calejada. A história toda é muito excitante.

Beatriz: realmente!

Cristiano: imaginem só como ele deve estar se divertindo com a coisa toda!

Beatriz: não acredito em uma só palavra do que ele falou.

Cristiano: (para beatriz, em tom de brincadeira) e se eu pegar em seu pescoço e apertar com todas as forças?

Beatriz: pare com essa brincadeira rapaz. O momento não é pra isso.

Marcos perde a paciência avança em Cristiano, pega pelo colarinho, com raiva.

Marcos: cala essa boca, seu muleque. Se fizer outra gracinha desse tipo, eu mato você.  Desgraçado!

Cristiano não reage, sai para o lado, rindo irônico.

Cristiano: é isso que torna tudo tão deliciosamente macabro. (ri.) se vissem suas caras! (sai.)

Beatriz: um rapaz  mal-educado e neurótico.

Milena aparece, vindo da cozinha.

Milena: onde está meu marido?

Cassandra: (irônica) servindo de guia para o nosso policial, que está fazendo uma excursão turística pelo hotel.

Beatriz: o tal rapaz neurótico acaba de se comportar de forma excepcionalmente anormal.

Marcos: mentecapto. Hoje em dia parecem mais imbecis.

Beatriz: eu não tenho paciência com gente que diz que sofre dos nervos. Eu nunca tive nervos na vida.

Marcos: talvez tenha sido sorte sua, senhora Beatriz.

Beatriz: o que quer dizer com isso?

Marcos caminha pelo saguão, depois olha pra beatriz desconfiado.

Marcos: a senhora era a juíza da vara de família, naquele tempo. Se não me engano, foi a responsável pela ida daquela criança para a tal fazenda.

Beatriz: (sem jeito) é... Realmente, senhor Marcos. Eu dificilmente poderia ser responsabilizada. Tínhamos os relatórios dos assistentes sociais. Aqueles fazendeiros pareciam ótimas pessoas e muito interessadas em ficar com a criança. Tudo parecia muito satisfatório. Casa, comida, roupa lavada e uma vida saudável ao ar livre.

Marcos: e junto vinha os pontapés, murros. Um casal que depois se mostrou inteiramente sórdidos.

Beatriz: e como é que eu podia imaginar isso? Eles eram conhecidos de boa aparência. Nunca se ouviram falar mal deles.

Milena: (entrando) então eu tinha razão. Foi a senhora...

Plácido: (rindo às gargalhadas.) desculpem, mas na verdade, acho tudo isso um grande divertimento para mim. (sai.)

Beatriz: jamais gostei deste homem!

Cassandra: de onde ele veio?

Milena: não sei. Talvez de algum país da américa do sul. (olha pela janela) está quase escuro e ainda são quatro horas. Vou acender as luzes.

Milena abre o quadro de energia e acende as luzes da varanda e da recepção.

Beatriz: (se levantando) onde será que deixei meu pendrive? (sai.)

Milena volta e fica ali pensativa, ao lado da lareira.

Milena: dizem que as coisas que acontecem com a gente quando criança são mais importantes do que todo o resto.

Cassandra: quem é que diz isso?

Milena: os psicólogos.

Cassandra: um bando de mentirosos. Não suporto nem psicólogos nem psiquiatras.

Milena: eu, na verdade, nunca tive muito contato com nenhum deles.

Cassandra: sorte sua. É tudo balela. A vida é o que se faz dela. É só continuar em frente, e não olhar para trás.

Milena: nem sempre se pode deixar de olhar para trás.

Cassandra: que bobagem. É uma questão de força de vontade.

Milena: talvez.

Cassandra: eu sei que é.

Milena: acho que tem razão.

Cassandra: é dar as costas a elas.

Milena: será mesmo esse o caminho certo? Não sei. Talvez esteja errado. Talvez o melhor seja enfrentar as coisas.

Cassandra: depende do que é que você está falando.

Milena: às vezes, eu mal sei do que é que estou falando.

Cassandra: sabe, nada, do passado, me afeta. A não ser da forma que eu quiser.

Gilberto e Cristóvão aparece. Cassandra ignora o detetive e sai.

Cristóvão: bem, lá em cima está tudo em ordem.

Cristóvão olha pra recepção, vai até lá. Ver uma porta.

Cristóvão: o que é aqui? Sala de visitas?

Ele vai até lá, olha com curiosidade. Ver beatriz.  Ela não gosta.

Beatriz: será que eu não posso ter um pouco de paz? Que coisa!

Cristóvão: desculpe, minha senhora. Mas tenho de reconhecer o lugar. (para Gilberto) bem, investigação terminada. Nada de suspeito. Agora acho que vou fazer meu relatório ao delegado. ( para o Milena.) posso usar o telefone?

Milena: não está funcionando, senhor. Está mudo.

Cristóvão: desde quando?

Milena: o senhor Marcos tentou telefonar, pouco depois do senhor chegar.

Cristóvão: mas antes estava em ordem. O delegado conseguiu falar com vocês.

Milena: conseguiu. Mas acho que, depois disso, o forte vento derrubou os fios.

Cristóvão: podem ter sido cortados.

Gilberto: cortados? Mas quem poderia cortá-los?

Cristóvão: senhor Gilberto... O que sabe o senhor  a respeito dessas pessoas que estão hospedadas aqui, neste seu hotel?

Gilberto: na verdade não sabemos nada a respeito delas.

Cristóvão: sei.

Gilberto: a senhora Beatriz nos enviou um email de um hotel em Boston, o senhor Marcos Dutra, de um endereço... Onde era, querida?

Milena: de belo horizonte.

Gilberto: Cristiano Soares nos telefonou de Petrópolis, e a tal Cassandra vieira de um hotel residencial em Brasília. E senhor plácido Gutierrez, como já lhe dissemos, surgiu de repente.

Cristóvão: naturalmente investigarei tudo isso.

Milena: mas mesmo que esse  maníaco  esteja querendo  matar um de nós, estamos inteiramente seguros. Devido a chuva. Ninguém poderá chegar até aqui neste temporal.

Cristóvão: (em tom enigmático) a não ser que ele já esteja aqui.

Gilberto: (assustado) aqui?

Cristóvão: e por que não, senhor Gilberto? Toda essa gente chegou no fim da manhã. Algumas horas depois do assassinato na enseada de botafogo. Houve mais do que tempo para chegar aqui.

Gilberto: com exceção do senhor plácido Gutierrez, todos já tinham feito reservas, antes.

Cristóvão: esses crimes foram planejados.

Gilberto: crimes? Por que tem tanta certeza de que haverá um outro aqui?

Cristóvão: porque haverá. Espero impedi-lo. Mas será tentado, sim.

Gilberto: eu não acredito. É fantasioso demais.

Cristóvão: não há nada de fantasioso. São fatos.

Milena: o senhor tem uma descrição do aspecto desse  homem, aqui no rio?

Cristóvão: altura mediana, peso indeterminado, usava um casaco  escuro. Falava sussurrando. (pausa. Olha para o tripé na recepção) há três casacos escuros pendurados no tripé neste momento.

Milena: eu continuo sem acreditar, detetive.

Cristóvão: (indo até o telefone) esse fio de telefone foi cortado... (examinando o fio do telefone.)

Milena: bem, preciso terminar de preparar o jantar. (sai.)

Cristóvão: há alguma extensão?  

Gilberto: sim. Há uma em nosso quarto.

Cristóvão: quer fazer o favor de experimentá-la, por favor?

Gilberto sai pela escada. Cristóvão fica olhando até onde o fio vai dar. Caminha até a janela. Depois pula para fora e desaparece por um momento.  Beatriz aparece com um livro na mão. Vai até a lareira, atiça mais o fogo, liga o rádio. Está tocando a música: meu mundo caiu, de Maysa. Senta na poltrona, e começa a ler o livro. De repente a luzes se apagam. Ela se assusta.

Beatriz: quem apagou a luz? Que brincadeira de mal gosto é essa, hein?

Aumenta o volume do rádio. Ouvimos ruídos de alguém que se asfixia e que luta em sua defesa.

Milena aparece.

Milena: que escuridão é essa? Será que foi a chuva? Meu deus. Só faltava essa!

Ela acende as luzes. Vai até o rádio e desliga. Ao olhar pro lado ver Beatriz caída ao chão, morta.

Milena: (grita de pavor) aaahhhh!! Socorro! Acudam aqui!

Todos aparecem, assustados com o grito. E veem Beatriz morta ao chão.

Clima de tensão, suspense. Todos se entreolham, cúmplices e desconfiados.

Gilberto vai consolar Milena. Cristóvão aparece.

Cristóvão: aconteceu o que eu previa. Um hóspede sai de cena.

Close no corpo de Beatriz fundindo com os olhos arregalados dos demais hóspedes.

Efeito: um corvo solta um granido, sobrevoa sob a tela, congelando a imagem.

 

Fim do terceiro episódio.

 




 


A Tempestade

Temporada 1 | Episódio 3

 

Criado e Escrito por:

Nathan Freitas

 

Elenco:

Gilberto Reis

Milena Reis

Cristiano Soares

Beatriz Campos

Marcos Dutra

Cassandra vieira

Plácido Gutierrez

Cristóvão Alencar

 

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