1. Desejo por Justiça | A Vontade do Mal

 

CENA 01. ÔNIBUS. NOITE. INT.

 

Legenda: São Paulo, 2015.

 

Várias pessoas em pé, apoiadas nas barras de apoio do veículo. O ambiente está lotado. CAM percorre o local, indo em direção a Samuel (24 anos, branco, alto) que está apoiado na barra à sua frente, com o celular em uma das mãos. É possível notar uma expressão séria em seu rosto. CAM se aproxima do aparelho e destaca alguns títulos de sites de notícias. Conforme Samuel lê cada trecho, CAM dá destaque a tela do celular.

 

SAMUEL (v.o.)

(notícia 01) Jovem é estuprada e assassinada no interior do ES. O responsável pelo o crime continua foragido.

 

(notícia 02) Entregador negro é morto a socos por um grupo de homens brancos, em um condomínio nobre na cidade.

 

(notícia 03) Senhora de 76 anos é torturada pela própria filha, câmeras de segurança registram a violência.

 

Samuel bloqueia a tela do celular e uma fúria percorre o seu corpo. Se sente inconformado com tanta violência acontecendo por aí e pouca justiça sendo feita. Aperta com força a barra superior onde está apoiado. Olha para o lado e vê um homem (aparentemente 29 anos, alto) esfregando sua virilha no ombro de Laura (22 anos, parda, cabelos pretos e longos). Ao ver o sorriso malicioso do rapaz, que insiste em repetir a cena fingindo se esfregar conforme o balanço do veículo, Samuel se encoraja em ir até ele e socar a cara do rapaz. Antes que fizesse qualquer movimento, a moça que estava sendo assediada, toma uma atitude. Laura se levanta, bate sua bolsa com força na cara do assediador.

 

LAURA (tom alto)

Escuta aqui seu pervertido. Se você não parar de esfregar essa coisinha aí, ele vai levar um belo de um chute, que duvido ficar em pé novamente.

 

Todos a aplaudem e lançam vaias contra o homem, que se afasta constrangido indo para o fundo do veículo. Samuel solta um leve sorriso, se tranquiliza ao ver que algumas coisas podem ser resolvidas.

 

CENA 02. PONTO DE ÔNIBUS. NOITE. EXT.

 

Samuel desce do ônibus encarando o rapaz pervertido de minutos atrás. O homem se afasta de cabeça baixa do veículo. Laura passa por Samuel e vê-la saindo de cabeça erguida, o faz acreditar que ainda existam pessoas com coragem e atitude no mundo. Samuel segue seu caminho para casa.

 

CENA 03. RUA. NOITE. EXT.

 

Alguns passos adiante do ponto de ônibus, Samuel passa por um grupo de garotas fazendo programa do outro lado da rua. Um carro escuro vem em alta velocidade e para em frente ao grupo. A porta traseira é aberta e dois homens jogam uma garota para fora do veículo.

 

DANIEL (cinismo)

Obrigado pelo o programa, vadia.

 

Daniel zomba dela, junto com outro cara ao lado. Ele fecha a porta e o carro sai em alta velocidade. O grupo de garotas se aproxima da moça que foi jogada na calçada. Se surpreendem com o estado que ela está. Olho roxo, manchas no corpo e parte da roupa rasgada.

 

MILU (preocupada)

Meu Deus, o que foi que aconteceu?

 

LINDA

O que aqueles babacas fizeram com você, flor?

 

SINDY (chora)

Eles me violentaram!

 

Sindy tenta se recompor e fica de pé. Uma garota a ajuda. Ao ver aquela cena, Samuel atravessa a rua para entender o que está acontecendo.

 

MILU

Mas eu vi quando você entrou no carro. Parecia um programa comum, eu vi o rapaz que chamou você.

 

SINDY (fragilizada)

Também pensei que seria um programa comum. Só que os outros dois estavam abaixados no banco de trás. Assim que entrei no carro, o cara da frente trancou as portas e acelerou.

 

MILU

Bem que eu estranhei a velocidade que ele saiu em seguida.

 

SINDY (fragilizada)

Quando eu vi os outros dois atrás, eu na hora disse que não faço programa em grupo. Pedi que parassem o carro, que eu queria descer. Só que isso não aconteceu...

 

Sindy fecha os olhos por um momento. Como se as lembranças do ocorrido estivessem sendo revividas em sua cabeça. Abraça forte a garota ao lado. Samuel chega perto do grupo, vê o atual estado de Sindy.

 

SINDY (chora)

Eles pararam no meio do nada e os três me violentaram ali dentro do carro mesmo.

 

MILU

Mas que filhos da puta. Ah, mas se eles voltam aqui...

 

SAMUEL (preocupado)

Você precisa ir até à polícia. Você tem que abrir uma ocorrência e contar o que aconteceu. Tem que dizer quem são esses caras!

 

CASSANDRA

E vai adiantar o que garoto? Você acha que isso é a primeira vez que acontece com garotas como nós?

 

SAMUEL

A polícia vai conseguir encontrar esses caras. Só fazer um exame em você, que...

 

LINDA (interrompe)

Não vai adiantar em nada. Assim que souberem o que ela faz, que ela é garota de programa, todas as acusações vão se voltar contra ela.

 

CASSANDRA

“Ela fez por merecer.” Isso que vão dizer assim que perceber o tipo de garota que ela é.

 

MILU

Ninguém se preocupa com a gente, rapaz. Se isso tivesse acontecido com qualquer outra mulher que não fizesse programa, talvez fossem se importar.

 

SAMUEL (sério)

Mesmo assim, nenhuma mulher merece isso.

 

Lindy o observa, enxuga as lágrimas e engole o choro.

 

LINDY

Eu só quero tomar um banho, cuidar desses machucados e esquecer esses filhos da puta.

 

MILU

Ah, mas nós não vamos esquecer mesmo. Depois você vai falar como são esses caras e vamos espalhar para as outras meninas. Assim que eles pisarem aqui novamente, vamos cuidar muito bem das bolas deles.

 

Todas riem, Samuel também.

 

LINDA

Vamos te ajudar, querida.

 

Sindy é acompanhada por outras três garotas. As demais voltam para seus pontos. Samuel a observa. Ao imaginar que coisas desse tipo acontecem a todo instante por aí, uma fúria incontrolável começa a percorrer seu corpo novamente. Fecha o punho direito com força.

 

CENA 04. CASA DE SAMUEL. SALA. NOITE. INT.

 

Samuel veio o caminho inteiro lembrando o estado que a garota ficou, após ter sido abusada por aqueles homens. Do assédio que a moça do ônibus passou e de outras notícias ruins que acompanhou durante o dia. Tudo isso vem se acumulando dentro dele, o tornando uma bomba relógio, prestes a explodir.

 

Regina (42 anos, parda, cabelos preto) está sentada no sofá, lendo sua bíblia. A fecha assim que ver o filho, dando atenção a ele.

 

REGINA (carinhosa)

Finalmente chegou, querido!

 

Percebe o filho rígido.

 

REGINA

Tudo bem?

 

SAMUEL (irritado)

Estou de saco cheio, mamãe!

 

Joga a mochila com força sobre o sofá. Anda de um lado para o outro.

 

SAMUEL (irritado)

Onde é que está a justiça desse mundo? Tantas pessoas inocentes sendo agredidas e mortas por aí. Sendo abusadas. Sendo julgadas pelo seu jeito de ser e ninguém faz nada. Ninguém mexe um dedo para ajudar. Apenas ficam lá, dizendo que as coisas são assim. Que tudo vai ficar bem. Que não podem mudar nada. As coisas são assim. Quando na verdade, eles são um bando de hipócritas que não estão nem aí para o bem estar do próximo.

 

Regina se aproxima do filho, o percebe alterado e se preocupa.

 

REGINA (preocupada)

O que aconteceu, filho? Fizeram alguma coisa com você?

 

SAMUEL

Comigo não fizeram nada, mamãe. (anda pela sala, aumenta o tom da voz) Mas estou farto de ver várias injustiças sendo feitas pelas as pessoas lá fora, enquanto estou aqui de mãos atadas, sem poder fazer nada.

 

REGINA

E o que você pode fazer, querido? (se aproxima) Quer se tornar um herói e salvar todos agora?

 

SAMUEL (furioso)

Eu só quero que as pessoas paguem pelo o que elas fizeram!

 

Samuel dá três chutes no sofá, enfurecido. Sua mãe se assusta com a reação inesperada do filho, se afasta dele.

 

REGINA (preocupada)

Eu nunca vi você assim, filho. Você está me assustando.

 

Samuel olha para as suas mãos e as vê tremendo. Olha para Regina na sequência e a vê assustada. Tenta ficar calmo.

 

SAMUEL (tom baixo)

Eu estou sem fome.

 

Ele pega sua mochila do sofá, vai direto para o quarto.

 

REGINA (preocupada)

Boa noite, filho!

 

Regina caminha até o sofá, pasma com o que acabou de acontecer. Segura o pequeno crucifixo de ouro em seu pescoço, começa a orar.

 

CENA 05. CASA DE SAMUEL. QUARTO DE SAMUEL. NOITE. INT.

 

Samuel entra em seu quarto, explodindo de raiva. Joga sua mochila com força sobre a cama. Caminha até sua mesa de estudo e joga tudo que está nela no chão. Chuta uma cadeira, grita de raiva.

 

SAMUEL (grita)

Droga! Droga! Que raiva de ver essas coisas e não poder fazer nada.

 

Caminha até o espelho do guarda-roupa, observa seu reflexo. É nítido a raiva crescendo em seu olhar.

 

SAMUEL (raiva)

Como eu queria… (p) Como eu queria que alguém fizesse justiça com as próprias mãos.

 

Fecha o punho direito.

 

SAMUEL (raiva)

Que alguém acabasse com a maldade desse mundo.

 

Um vento estranho surge lá fora. Folhas da árvore da frente batem na janela de Samuel. CAM destaca Samuel focado em seu reflexo e sua raiva crescendo dentro dele.

 

SAMUEL (raiva)

Eu só queria que alguém tivesse coragem pra fazer justiça...

 

Aperta cada vez mais o punho direito.

 

SAMUEL (cont.)

...nem que seja com as próprias mãos.

 

Uma estranha energia começa a circular pelo quarto. A lâmpada do teto pisca algumas vezes. Samuel está tão focado em seu reflexo, que nem percebe.

 

SAMUEL (raiva)

Por que as pessoas não entendem? Por que elas não sentem a dor do outro?

 

Seu rosto começa a avermelhar de raiva. A temperatura do quarto começa a cair, fica nítido pelo ar branco liberado pela respiração ofegante de Samuel. Uma lágrima escorre do rosto dele. Lágrimas de raiva escorrem em seu rosto. Sua emoção começa a se tornar um sentimento bem mais forte: ódio.

 

SAMUEL (com ódio)

Elas estão tão fechadas na redoma perfeita que criaram, olhando para o próprio umbigo, que esquecem do bem-estar do próximo. Esquecem que a outra pessoa tem sentimento. Tem vontades. Tem uma vida.

 

Conforme sua fúria cresce, o clima dentro do quarto fica cada vez mais pesado. Samuel aperta com mais força sua mão. As luzes do quarto não param de piscar. Um vento estranho percorre o lado externo da casa. Samuel se aproxima de seu reflexo, encara o fundo dos seus olhos.

 

SAMUEL (com ódio)

Chega. Chega de sofrimento. Chega de julgamentos. Chega de abusos. Chega de violência. O único desejo que eu quero é justiça!

 

O vento lá fora aumenta cada vez mais, assim como o clima pesado dentro do quarto.

 

SAMUEL (grita)

Justiça!

 

Soca o espelho com toda a sua força. No mesmo instante, a lâmpada do quarto se quebra e vários estilhaços de vidro da lâmpada e do espelho caem no chão. Samuel retorna ao seu normal. Olha para a mão, repara seus dedos machucados do soco que deu. Ao abri-la, repara a palma de sua mão ferida com a marca de suas unhas. O clima no lado externo da casa fica calmo. Tudo fica em silêncio por um breve momento.

 

Samuel sai do quarto para cuidar do ferimento em sua mão. Assim que deixa o cômodo, uma fina sombra em forma humana aparece em frente ao que sobrou do espelho. Seu corpo e seu rosto não têm nenhum detalhe. Sem cabelo, olhos, boca, orelhas... tudo é só escuridão. Apenas uma fina sombra escura que observa seu reflexo no espelho. A entidade fica parada, sem fazer nenhum movimento.

 

Minutos depois, Samuel retorna para o quarto. Caminha até o abajur de sua mesa de estudo e o acende. A sombra havia desaparecido. Rapidamente ele olha para o lado, como se alguém estivesse ali. Ver o quarto vazio. Olha para os pedaços de vidros no chão.

 

SAMUEL (tom baixo)

Droga!

 

Caminha até os cacos de vidro, se agacha. Por algum motivo, parece exausto. Recolhe os cacos grandes em sua mão. Se levanta e sai do quarto na sequência.

 

CENA 06. ÔNIBUS. DIA. INT.

 

Comparado com o dia anterior, Samuel acordou bem mais leve. Como se um grande peso fosse tirado de dentro dele. Com a mão enfaixada, Samuel está no veículo rumo ao trabalho. Se lembra da sensação estranha que sentiu na noite passada. Sente um vazio dentro de si. Um calafrio estranho percorre seu corpo.

 

CENA 07. ESCRITÓRIO DE CONTABILIDADE. RECEPÇÃO. DIA. INT.

 

Laura completa hoje a sua primeira semana no estágio que conseguiu pela universidade. Desde que iniciou no escritório, ela tem notado alguns olhares e conversas estranhas vinda de seu chefe. Por acreditar que esteja interpretando mal a situação, tem ignorado. Richard (29 anos, pardo, alto) abre a porta de sua sala, a chama.

 

RICHARD

Laura, poderia vir aqui, por favor.

 

Deixa a porta aberta. Laura minimiza algumas janelas em seu computador. Pega sua agenda e caminha apressada até a sala.

 

CENA 08. ESCRITÓRIO DE CONTABILIDADE. SALA DE RICHARD. DIA. INT.

 

Laura entra na sala, deixa a porta aberta. Senta-se de frente para Richard.

 

LAULA (disposta)

O que o senhor deseja?

 

RICHARD

Quero parabenizá-la.

 

Percebe a porta aberta, se levanta e caminha até lá.

 

RICHARD

O seu desempenho nessa primeira semana é admirável.

 

Fecha a porta. Laura não olha para trás e decide ignorar que ele fechou a porta. Richard caminha de volta lentamente até a cadeira de Laura. Abre o zíper de sua calça.

 

RICHARD

Confesso, que de todas as estagiárias que já passaram por aqui você tem sido a melhor.

 

LAURA

Obrigada! Eu venho tentando dar o meu melhor.

 

Conforme se aproxima, vem fazendo alguns movimentos em seu órgão genital.

 

RICHARD

E eu percebo isso. Eu vejo os relatórios que você me envia, a forma que atende os nossos clientes.

 

Laura sente a voz dele se aproximando. Ainda assim, não olha para trás.

 

LAURA

Eu que agradeço a oportunidade que o senhor me deu.

 

Richard está a poucos centímetros dela, ainda fazendo movimentos em seu órgão sexual.

 

RICHARD

Você tem um futuro brilhante aqui dentro. É uma garota bonita, inteligente...

 

Toca o ombro dela com a mão esquerda, acaricia. No outro ombro, ele coloca seu pênis ereto.

 

RICHARD (sorri)

Posso te indicar para outros escritórios bem maiores que este.

 

Ao sentir algo estranho em seu ombro direito, Laura vira o rosto e se assusta ao ver o que é. Rapidamente se levanta e se afasta de Richard.

 

LAURA (chocada)

O que significa isso?

 

RICHARD (sorri)

Como você completou uma semana aqui comigo, achei que você estava pronta para um teste diferente.

 

LAURA (irritada)

Tá, maluco?

 

Caminha apressada até a porta. Richard coloca seu pênis dentro da calça, a segue e a impede de sair.

 

RICHARD

Costumo receber vários currículos de candidatas loucas querendo um estágio aqui. Poucas conseguem. Você foi uma delas. Só que para ter uma permanência duradoura, dependerá de você...

 

Tenta fazer carinho no ombro dela novamente, Laura récua.

 

LAURA (séria)

Não toca em mim. Nunca mais faça isso. Se você me tocar novamente, não respondo por mim.

 

RICHARD

Qual é, menina?! Eu sei que você está precisando desse estágio, para cumprir algo lá da sua faculdade. Você não vai querer perder ele logo agora, vai?

 

Se aproxima mais uma vez dela, a pressiona contra a parede. Irritada, Laura o empurra e bate na cara dele.

 

LAURA (irritada)

Quem você pensa que eu sou?

 

Richard massageia o local agredido, mantém um sorriso cínico no rosto.

 

RICHARD (sorri)

Nossa, essa doeu. Devo confessar que isso só me deixou mais excitado, sabia?!

 

LAURA (enojada)

Babaca.

 

Laura caminha em direção a porta. Richard segura o braço dela e a puxa em direção ao seu corpo.

 

RICHARD

Que é isso. Vem cá, vem. Vai dizer que você não gostou de sentir ele em seu ombro?

 

A prende em seus braços, segura o pescoço dela, pressionando-o. Tenta beijá-la à força.

 

LAURA (resiste)

Mas o que você pensa que está fazendo?! Me solta, você tá me sufocando.

 

Richard continua apertando forte o pescoço de Laura.

 

RICHARD (sério)

Você quer ou não continuar trabalhando aqui?

 

LAURA (tom alto)

Se a minha permanência para ficar aqui leva em conta isso, ao invés das minhas qualidades profissionais, acredito que estou na empresa errada.

 

Chuta a virilha de Richard com força. Ele a solta, vai para trás, com as mãos entre as pernas, sentindo os efeitos do chute.

 

LAURA (tom alto)

E nunca mais toque em mim seu nojento.

 

Laura sai da sala apressada.  Richard caminha até sua mesa, ainda com as mãos em sua virilha.

 

RICHARD (grita)

Sua maldita, isso doeu.

 

LAURA (responde da recepção, v.o.)

É pra doer mesmo. E se você se aproximar de mim novamente, vou dar outro tão forte, que farão dessas tuas bolas, omeletes. Seu idiota, nojento!

 

RICHARD (grita)

Sabe o que vai acontecer se você sair desse jeito, não é?

 

Laura aparece na porta, com um grande sorriso no rosto.

 

LAURA

Não se preocupe, eu me demito.

 

Vai embora exibindo o dedo do meio para Richard e com um grande sorriso no rosto. Richard continua sentado, sentindo os efeitos do chute que recebeu. Logo atrás dele, surge a entidade que apareceu no quarto de Samuel na noite passada. A face escura da fina sombra está direcionada para Richard. O observa, sem fazer nenhum movimento.

 

CENA 09. LOJA DE BRINQUEDOS. DIA. INT.

 

Samuel está organizando alguns brinquedos em uma prateleira. Sente um vento frio passar por ele. Ele se arrepia, olha para os lados, sente como se alguém estivesse ali, o observando. Com o corredor vazio, volta a organizar os brinquedos. Uma voz estranha sussurra em seu ouvido.

 

VOZ (demoníaca, tom baixo)

Os pecadores serão castigados!

 

Samuel rapidamente se assusta. Deixa um brinquedo cair no chão. Olha para os dois lados e novamente não vê ninguém.

 

CENA 10. ESCRITÓRIO DE CONTABILIDADE. RECEPÇÃO. DIA. INT.

 

Após o ocorrido em sua sala, Laura pegou suas coisas e foi embora. Sozinho, Richard está na recepção à procura de um arquivo no computador que antes era de Laura.

 

RICHARD

Droga, onde aquela vaca colocou esse arquivo? Tenho que enviar para o cliente ainda hoje.

 

Encontra uma pasta com fotos de Laura.

 

RICHARD

Olha só o que eu encontrei. (sorri)

 

Ao todo são umas 30 fotos. Uma chama a atenção dele. Laura está usando uma blusa decotada, que embora não mostre tanto assim, na mente de Richard, aquilo significa muita coisa.

 

RICHARD

Com uma blusa dessa e vem se passar de boa moça. Aquela ali não me engana.

 

Leva sua mão até a virilha, a acaricia.

 

RICHARD

Pior que aquela maldita me deixou cheio de vontade.

 

Olha para o relógio em seu pulso. Se levanta, caminha até a porta de entrada do escritório e a tranca. Volta para a mesa, abre o zíper de sua calça e a baixa até seus pés. Senta-se na cadeira, coloca a mão dentro de sua cueca. Pula as fotos de Laura, uma a uma, enquanto acaricia sua genitália.

 

RICHARD

Quer saber de uma coisa. Vou resolver isso na mão mesmo.

 

Puxa sua cueca para baixo e começa a se masturbar observando as fotos da garota. A entidade sombria aparece atrás dele. Fica parada, como se o observasse. Lentamente, a entidade se aproxima da cadeira onde ele está. Ergue seus braços finos e escuros, os levando em direção aos ombros de Richard.

 

RICHARD (ofegante)

Que vaca peituda.

 

Fecha os olhos, encosta-se na cadeira. Acelera o movimento das mãos.

 

RICHARD (geme)

Ah, se minha mão tocasse nesses peitos. Devia ter aproveitado a oportunidade e ter pegado neles, isso sim.

 

A poucos centímetros dele, a entidade leva seus braços finos e escuros até os ombros de Richard. Não o toca ainda. Seu rosto sem face alguma, se atenta para a tela do computador. Em seguida, para a virilha de Richard.

 

RICHARD (geme)

Está vindo, está vindo.

 

Aumenta a intensidade dos movimentos. Nesse momento, a sombra acaricia os ombros dele. Como Richard está tão entretido na sensação de prazer que está a caminho, imagina que está sendo acariciado por Laura.

 

RICHARD

Que toque maravilhoso é esse, querida. (sorri)

 

A sombra por alguns instantes acaricia os ombros dele. Richard ainda mantém os olhos fechados.

 

RICHARD (ofegante)

Isso, que mãos macias você tem.

 

Richard abre os olhos e se assusta com a face escura e vazia acima dele. A sombra imediatamente leva suas mãos até o pescoço de Richard e começa a sufocá-lo. De imediato ele para de se masturbar. Seus olhos se arregalaram com aquele ser apertando seu pescoço.

 

RICHARD (sem fôlego)

Por favor... (p) O que é você?

 

A entidade foca a sua atenção ao rosto de pavor de Richard, que começa a se contorcer na cadeira, sendo sufocado. Por mais que se esforce para sair das mãos daquele ser à sua frente, as tentativas eram em vão. A entidade cada vez mais fazia pressão sobre o pescoço dele. O rosto de Richard começa a ficar roxo. E por mais que Richard tentasse tirar aquelas mãos finas e escuras de seu pescoço, a sombra não se movia nenhum centímetro. A entidade apresenta ter uma força desumana.

 

RICHARD (sem fôlego)

Por favor... Por favor… Porque está fazendo isso?

 

Perdendo as forças em seus braços, desiste de empurrá-la. Seus olhos começam a se fechar, sua vida começa a ir embora. A sua última imagem é aquele rosto escuro à sua frente.

 

RICHARD (tom baixo)

O que eu fiz.../

 

Fecha os olhos, morto. No rosto escuro da sombra, formas oculares começam a ser desenhadas, revelando seus olhos vermelhos brilhantes. A sombra se afasta, observa a foto da garota exibida no computador. CAM registra sua face e seus olhos vermelhos. A entidade desaparece da sala, na sequência.

 

CENA 11. ÔNIBUS. NOITE. INT.

 

Samuel volta para casa, sem esquecer daquela sensação que teve mais cedo no trabalho. Como tentativa para mudar seus pensamentos, decide acompanhar as notícias do dia. Ler algumas reportagens.

 

SAMUEL (v. o.)

[notícia 01] Prefeito é acusado de desviar verba da saúde, para financiar festinhas particulares para a família.

 

[notícia 02] Pastor executa a própria esposa, na frente das filhas. Ele foi preso, mas diz que estava possuído por um demônio e que amava a esposa.

 

[notícia 03] Homem é encontrado morto em seu escritório. A polícia investiga a motivação do crime.”

 

Ao ler a última notícia, Samuel sente um calafrio percorrer seu corpo. Bloqueia a tela do celular, o guarda no bolso da calça. Presta atenção em algumas pessoas, talvez a procura de outro pervertido. Atenta sua atenção para um senhor de aparentemente 64 anos, fazendo carinho na cabeça de uma garota de aparentemente 10 anos. Apesar do senhor estar com um sorriso no rosto, a garotinha parece constrangida. A mão do senhor, que antes acariciava a cabeça da menina, desce até as pernas dela. O senhor faz alguns carinhos estranhos na perna esquerda da garota.

 

Percebendo que está em um lugar público, rapidamente ele tira a mão da perna da garota. Samuel percebe o jeito assustado que a garotinha ficou ao receber aquele toque. Ele se aproxima até o senhor e começa a observá-lo de perto.

 

Hernesto percebe o jeito estranho que Samuel o observa. Desde então, não tentou nenhum outro contato com a garota. Desconfiado do que esteja acontecendo, Samuel decide conversar com a garotinha que está de cabeça baixa.

 

SAMUEL (a garotinha)

Olá, menininha! Que carinha triste é essa?

 

HERNESTO (responde por ela)

Estamos indo para a casa da mamãe, não é querida?

 

Toca na perna da garota, que récua dele ao sentir o toque. Samuel acha aquilo estranho.

 

SAMUEL (sério)

E o senhor é o que da menina?

 

HERNESTO

Eu sou o avô dela.

 

SAMUEL

Avô?! (a garota) Ele é seu avô, garotinha?

 

Júlia não ergue a cabeça, parece nervosa.

 

SAMUEL

Garotinha…?

 

HERNESTO

Responde o moço, querida. Mostra que você é educada.

 

JÚLIA (tom baixo)

Sim.

 

SAMUEL (encara Hernesto)

Ela parece assustada.

 

HERNESTO

Ela é assim mesmo. Após passar o dia lá em casa, brincando com o vovô, a vovó... deve estar cansada.

 

SAMUEL (sério)

Sei.

 

Algo dizia a Samuel que alguma coisa estava errada. O ônibus chega ao ponto. Todos se levantam e começam a sair. Hernesto pega na mão de Júlia e meio que a puxa para fora do veículo. Samuel apenas os observa, desconfiado daquela situação.

 

CENA 12. RUA. NOITE. EXT.

 

Esquecendo um pouco o que acabou de ver minutos atrás, Samuel caminha distraído rumo a sua casa. Passa pela a rua, que na noite anterior, presenciou o caso de abuso acontecido pela garota de programa. Ao chegar ao ponto de prostituição, repara uma aglomeração de pessoas ao redor de um carro preto. Ele reconhece o veículo, pois foi o mesmo onde a garota foi jogada para fora na noite anterior.

 

Atravessa a rua rapidamente, vai em direção a aglomeração de pessoas.

 

SAMUEL (preocupado)

O que aconteceu aqui?

 

MILU (séria)

Esse carro parou aqui minutos atrás. A porta se abriu e encontramos esse corpo estripado no banco da frente.

 

SAMUEL

O que?

 

Caminha até o banco da frente, ver o corpo de Daniel completamente nu, com vários cortes espalhados pelo o corpo e com parte do intestino para fora.

 

SAMUEL (aterrorizado)

Quem é esse cara?

 

Sindy caminha até ele, com uma expressão séria no rosto.

 

SINDY (séria)

Ele é um dos caras que me violentaram ontem à noite.

 

SAMUEL (surpreso)

Foi um deles?

 

SINDY (séria)

Sim.

 

Aponta para o capô do veículo.

 

SINDY (séria)

Leia a frase!

 

Samuel caminha até lá e vê uma frase escrita aparentemente por sangue. Ler em voz alta.

 

SAMUEL (assustado)

Os pecadores serão castigados!

 

Olha para a garota que foi abusada e entende o porquê dela estar naquele estado.

 

FIM DO EPISÓDIO.




A Vontade do Mal

Temporada 1 | Episódio 1

 

Criado e Escrito por:

Anderson Silva

 

Elenco:

Samuel (Giovanni de Lorenzi)

Benjamin (Eduardo Moscovis)

Elis (Sandra Corveloni)

Regina (Gilda Nomacce)

Meire (Isabele Garcia)

 

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