4. Pais Responsáveis | A Vontade do Mal



CENA 01. CASA DE SAMUEL. QUARTO DE SAMUEL. DIA. INT.

 

Samuel desperta, senta-se na cama e observa por um instante a janela. Olha para o relógio em seu pulso, marca 08:32 AM. Se deita novamente, espreguiça-se. Olha para o teto por alguns instantes, pensativo.

 

CENA 02. LOJA DE BRINQUEDOS. GERÊNCIA. DIA. INT.

 

Samuel está sentado de frente para o gerente da loja, Douglas (29 anos, moreno, alto). Sua expressão é de cansaço.

 

DOUGLAS

Você tem certeza disso? Você é um dos melhores vendedores que temos. Só recebemos elogios dos clientes vindo de você.

 

SAMUEL

Eu sei, eu gosto de trabalhar aqui, de verdade. Só que... (baixa a cabeça) ...eu preciso ficar um tempo sozinho.

 

DOUGLAS (preocupado)

Tá acontecendo alguma coisa? Se tiver precisando de algo, só me dizer que.../

 

SAMUEL (o interrompe)

Eu só preciso de um tempo. (ergue a cabeça) Algumas coisas estranhas vêm acontecendo ultimamente comigo, e acho que um tempo deve resolver.

 

DOUGLAS

E que tal umas férias? (mexe em seu computador) Posso antecipar as suas...

 

SAMUEL (sério)

Um mês de férias não irá resolver o que eu estou sentindo.

 

DOUGLAS

Poxa... você deve estar passando por algo bem pesado.

 

SAMUEL (sério)

Estou!

 

DOUGLAS

Ok. Já que você quer assim... Bem, saiba que sempre que quiser, sua vaga estará garantida. Está bem? Vou preparar sua demissão aqui.

 

Douglas foca no computador, Samuel continua sério.

 

CENA 03. ÔNIBUS. DIA. INT.

 

Samuel está sentado no fundo do ônibus. Olha pela janela, pensativo. Segue uma rota diferente para sua casa.

 

CENA 04. CASA DE MEIRE. SALA. DIA. INT.

 

Samuel está sentado na sala de sua tia, aparentemente um pouco ansioso. Meire (49 anos, branca, baixa) entra na sala, com uma bandeja de chá nas mãos. Ela coloca a bandeja sobre a mesinha de centro. Pega uma xícara e entrega para o sobrinho. Senta-se, pega outra xícara e o observa.

 

MEIRE

Fiquei surpreso quando sua mãe me ligou.

 

SAMUEL (agradece o chá)

Obrigado, tia.

 

MEIRE

Então... a que devo sua visita?

 

Toma um gole de chá, atenta ao sobrinho. Samuel mal toca no chá, coloca a xícara na bandeja. Esfrega suas pernas, em sinal de ansiedade.

 

SAMUEL

Acho que estou ficando louco, tia!

 

MEIRE

E você chegou a essa conclusão como?

 

Ela também coloca sua xícara na bandeja. Samuel se levanta, começa a andar pela sala. Meire fica atenta a cada ato do sobrinho.

 

SAMUEL

Nos últimos dias, coisas estranhas têm acontecido comigo.

 

MEIRE

Que tipo de coisas?

 

SAMUEL

Tenho visto e ouvido coisas. Frases escritas. Elas parecem estar ali, só que não estão. Eu sei que isso não é uma consulta, que você tem com seus pacientes. (senta-se novamente) Mas eu preciso de ajuda, tia. Eu tenho medo de estar ficando igual ao meu pai. Eu não quero ser internado em um manicômio psiquiátrico, considerado como louco.

 

MEIRE

Calma... (segura as mãos dele, o percebe muito nervoso) ...ficar nesse estado não irá resolver. Preciso que você se acalme, respire fundo e me conte tudo que está acontecendo.

 

Segundos depois, Samuel está deitado no sofá, olhando para o teto, em silêncio. Meire está sentada na poltrona ao lado, observa atentamente o sobrinho, também em silêncio.

 

MEIRE

Quando você estiver pronto, querido!

 

Samuel continua vidrado no teto, ainda transpira nervosismo.

 

CENA 05. LOJA DE BRINQUEDOS. DIA. INT.

 

Túlio (28 anos) é realocado para o lugar de Samuel. Breno está lhe dando as instruções do novo cargo.

 

TÚLIO

Sam sempre me pareceu um pouco maluco. Igual o pai.

 

BRENO

O cara só precisa de um tempo. Quando menos esperar, ele estará de volta no lugar dele. E você voltará para o seu.

 

TÚLIO (sorri)

Até isso acontecer, aproveitarei bem o cargo dele.

 

Segue Breno até o balcão de atendimento.

 

BRENO

Bem, é aqui onde você irá ficar. Os clientes irão entrar por aquela porta. E você, gentilmente, começará a atendê-los.

 

TÚLIO

Tranquilo.

 

BRENO

A nossa política é atender a todos, sem distinção de classe, gênero, raça, essas coisas. Todos são bem-vindos na loja.

 

TÚLIO

Tudo certo. Preconceito zero comigo.

 

BRENO

Ok. Qualquer coisa, só perguntar para os demais vendedores ou me procurar lá em cima.

 

TÚLIO

Certinho, chefe.

 

BRENO

Não gosto que me chamem assim. Bem, é hora de trabalhar.

 

Breno se afasta indo em direção ao seu setor. Túlio fica próximo ao caixa, observa alguns clientes. Ele se atenta a um homem negro com sua filha, observando algumas bonecas. Por algum motivo, sua atenção fica neles. O homem e a garotinha caminham pela loja, Túlio vai atrás dele, como se estivessem os vigiando.

 

CENA 06. CASA DE MEIRE. SALA. DIA. INT.

 

Samuel continua deitado no sofá, em silêncio. Seus dedos das mãos não param de se mexer. Observa atentamente o teto, como se pensassem bem no que dizer.

 

SAMUEL

Isso começou há alguns dias. Um certo dia no meio do meu expediente, eu ouvi um sussurro de uma voz estranha em meu ouvido. Eu imediatamente me assustei. Olhei para os lados só que não havia ninguém. Fiquei imaginando se era alguma coisa da minha cabeça. Algum delírio ou algo do tipo. Comecei a sentir que estava sendo observado aonde quer que eu fosse. (Meire anota algo em seu bloco) Logo depois as frases começaram a aparecer. No banheiro do meu trabalho, na minha casa… (fica em silêncio, olha atentamente o teto)

 

MEIRE

Você acredita que quem escreveu essas frases, seja o mesmo que sussurrou em seu ouvido?

 

SAMUEL

E quem mais poderia ser, tia?! Nem sei se isso é real ou se estou apenas imaginando coisas.

 

MEIRE

O que te angustia então, é saber se quem está fazendo isso com você é real ou não?

 

SAMUEL

É por isso que estou aqui. (senta-se) Eu estou ficando louco, tia?

 

MEIRE

O que me parece, é que você está tentando carregar um peso enorme sozinho. Acumular sentimentos diferentes dentro de si, pode acabar atraindo coisas que não queremos. Coisas que não conhecemos.

 

SAMUEL

Como assim? Não estou entendendo o que está me dizendo, tia?!

 

MEIRE

Eu quero dizer que... exponha o que você sente. Não guarde só para si suas emoções. Chegará um dia, que elas irão procurar uma forma de sair.

 

SAMUEL (confuso)

Então... essas coisas que estão acontecendo comigo, são minhas emoções buscando uma forma de sair?

 

MEIRE

Eu gostaria de conversar mais com você. (fecha o bloco de anotações) Poderia vir aqui amanhã novamente?

 

SAMUEL

Sim, posso sim. Afinal, pedi demissão do meu trabalho. Tenho tempo livre de sobra.

 

MEIRE

Por que fez isso?

 

SAMUEL

Tive medo de chegar um momento em que eu possa surtar, e chegue a machucar alguém na loja.

 

MEIRE

E você já chegou sentir algo    que te levaria a um surto?

 

SAMUEL

Não, mas prefiro evitar qualquer coisa.

 

MEIRE

Entendo. Isso não irá acontecer está bem.

 

Meire sorri, isso o deixa aliviado.

 

CENA 07. COLÉGIO DOM PEDRO. PÁTIO. DIA. EXT.

 

Crianças estão saindo do colégio. Alguns pais estão na entrada, à espera de seus filhos. Duas professoras estão no portão do colégio, observam algumas crianças indo embora.

 

MARTA

Ver essas crianças voltando para suas casas, onde deveria ser um lugar seguro para elas, só me faz lembrar da Julinha.

 

GABRIELA

Quantas Julinhas devem existir entre elas, sofrendo em silêncio dentro de seus próprios lares?

 

MARTA

Quero nem imaginar!

 

Duas garotinhas, Paulinha (10 anos) e Lia (10 anos) saem do colégio nesse momento. As duas param próximo a uma árvore.

 

LIA

Assim que chegar em casa, te envio o vídeo que falei.

 

PAULINHA

Está bem. Preciso pedir o celular do meu irmão. Meu pai com certeza não vai me emprestar o dele.

 

LIA

Então assim que você tiver o telefone, você me manda mensagem.

 

A mãe de Paulinha está do outro lado da rua, a chama.

 

MÁRCIA (grita)

Paula! Vem logo, menina.

 

PAULINHA

Minha mãe chegou. Tchau.

 

Paulinha abraça Lia brevemente, Márcia não gostou de ver sua filha abraçando outra garota.

 

LIA

Tchau.

 

Paulinha acena, olha para os dois lados e atravessa a rua. Segundos depois, a mãe de Lia aparece para buscá-la.

 

MÁRCIA (séria)

Quem é aquela garota?

 

PAULINHA

É a Lia. É a minha melhor amiga.

 

MÁRCIA

Sua melhor amiga?!

 

PAULINHA

É. (diz inocentemente) Eu gosto dela, mamãe! (sorri)

 

Márcia segura forte o braço da garota, começa a puxá-la para casa.

 

PAULINHA (estranha)

Aí, mamãe. Por que estamos indo com pressa?

 

CENA 08. CASA DE PAULINHA. SALA. DIA. INT.

 

Márcia chega em casa, ainda segurando o braço da filha com força. A solta próxima ao sofá.

 

MÁRCIA (rude)

Vá já para o seu quarto!

 

Paulinha senta-se no sofá, acaricia o braço. Percebe o tom sério de sua mãe, começa a ficar com medo.

 

PAULINHA (medo)

O que foi que eu fiz, mamãe?

 

MÁRCIA (grita)

Vai já para o seu quarto!

 

Paulinha corre em direção ao quarto, assustada. Márcia fica parada na sala, como se esperasse alguém.

 

CENA 09. CASA DE SAMUEL. QUARTO. TARDE. INT.

 

Samuel sai do banho enrolado de toalha e vai até o seu quarto. Contar o que está acontecendo para sua tia, o deixou um pouco mais leve. Caminha até seu guarda-roupa, observa o que sobrou do espelho. Pela janela ele está sendo observado pela entidade que invocou dias atrás.

 

CENA 10. CASA DE PAULINHA. SALA. TARDE. INT.

 

Márcia está sentada no sofá, não para de olhar para o relógio no braço. É nítido que está esperando alguém. José chega em casa. Márcia se levanta rapidamente, caminha até o marido.

 

MÁRCIA (séria)

Que bom que você chegou.

 

JOSÉ (irritado)

Ah, não. Mal cheguei e você já vem me trazer problemas, mulher.

 

MÁRCIA

É a sua filha!

 

Os dois se entreolham por instantes, ambos ficam sérios.

 

CENA 11. CASA DE PAULINHA. QUARTO DE PAULINHA. TARDE. INT.

 

José abre a porta do quarto da garota, com um cinto nas mãos. Ao ver o pai segurando o cinto, Paulinha se levanta da cama com medo. Vai até seu guarda-roupa.

 

PAULINHA (com medo)

Pra quê este cinto, pai? Eu não fiz nada. (sente vontade de chorar)

 

JOSÉ

Quer dizer que você gosta de meninas agora é?

 

PAULINHA (com medo)

Eu não fiz nada, pai. Não fiz nada!

 

Começa a chorar ao ver seu pai se aproximando com o cinto em mãos.

 

PAULINHA (chora)

Guarda esse cinto, pai. Por favor, papai, guarda esse cinto. Não me bate, por favor. Não me bate!

 

Coloca suas mãos no meio, com o objetivo de tentar evitar qualquer golpe.

 

PAULINHA (chora)

Por favor, pai... não me bate. Por favor, não me bate. Eu não fiz nada. Eu não fiz nada.

 

JOSÉ (rude)

Baixa essas mãos, Paula.

 

Paulinha continua com os braços erguidos, como forma de proteção.

 

JOSÉ (furioso, tom alto)

Baixa essas mãos agora, garota!

 

Bate o cinto forte no guarda-roupa, isso deixa a garota em pânico. Paulinha baixa os braços, entra em desespero por saber que vai apanhar sem ter um motivo.

 

PAULINHA (desesperada)

Por favor, pai. Por favor, não me bate. Não me bate. (ver sua mãe na porta) Mamãe, me ajuda. Por favor, me ajuda… porque o papai quer me bater?

 

MÁRCIA

Você precisa ser consertada. Isso é para você aprender.

 

Em um golpe rápido, José bate o cinto na cintura da garota. Ela vai para o chão, aos prantos. Encosta-se na parede, massageia a região que foi agredida.

 

JOSÉ (grita)

Tira os braços da frente, Paula.

 

Se enfurece, bate o cinto nos braços da garota, que a faz gritar de dor.

 

JOSÉ (grita)

Tira os braços da frente, Paula!

 

Dar dois golpes em sequência na garota. Paulinha deita-se no chão, em desespero. Protege o braço machucado, aos prantos.

 

PAULINHA (em desespero)

Para, pai. Por favor, não me bate. (grita) Mãe, socorro. Por favor, pede pra ele parar. Me ajuda, mãe!

 

JOSÉ (rude)

Repete que você gosta de menina de novo?

 

Mais dois golpes de cinto, dessa vez nas costas dela.

 

JOSÉ (grita)

Anda, repete!

 

A garota se contorce de dor no chão. Súplica para que o pai parasse.

 

PAULINHA (implora)

Para, pai! Por favor, para. Eu não fiz nada. Para, por favor.

 

JOSÉ (tom alto)

Anda, repete que você gosta de menina!

 

Três golpes em sequência nas costas dela.

 

JOSÉ (grita)

Anda, Paula. Quero ver você dizer que gosta de menina de novo. Eu não vou ter uma filha lésbica, tá me ouvido?

 

A agredi duas vezes novamente. Machucada e com o rosto vermelho de tanto chorar, a garota grita em desespero.

 

PAULINHA (grita)

Eu não fiz nada, pai. Por favor... eu não fiz nada.

 

Márcia observa tudo, com uma expressão séria no rosto.

 

JOSÉ

Você vai gostar de menina, de novo? (a bate) Vai? Você vai, Paula?

 

A garota continua no chão, em sofrimento. José continua a agredindo de cinto.

 

CENA 12. CASA DE SAMUEL. QUARTO DE SAMUEL. DIA. INT.

 

Samuel está deitado na sua cama, pensativo. Observa o teto, fecha os olhos por um tempo. Ouve um sussurro em seu ouvido.

 

VOZ (demoníaca)

Pais agressores também são pecadores!

 

Samuel senta-se na cama assustado. Olha para os lados e não vê ninguém. Seu coração acelera.

 

CENA 13. CASA DE PAULINHA. QUARTO DE PAULINHA. DIA. INT.

 

Embora a filha gritasse para parar as agressões, José continua firme com o cinto erguido em direção a garota. Volta a agredi-la mais duas vezes.

 

JOSÉ (grita)

Anda, Paula? Estou esperando sua resposta.

 

Márcia se aproxima do marido, segura o braço dele.

 

MÁRCIA

Tá bom. Melhor não deixar marcas nela, se não vão desconfiar no colégio.

 

Paulinha senta-se no chão, vê seus braços e pernas com manchas. Seu rosto está vermelho de tanto chorar. Recua para o canto, fica entre o espaço do guarda-roupa e a parede.

 

JOSÉ

Quero que ela me responda.

 

Levanta o cinto para agredir-lá, mesmo naquele pequeno espaço. Paulinha ergue os braços como forma de proteção novamente.

 

PAULINHA (chora)

Por favor, pai... para, por favor. Mãe... (observa sua mãe) Não deixa o papai me bater, por favor. Me ajuda.

 

MÁRCIA

Chega, José. Ela já aprendeu.

 

Segura forte o braço do marido, o afasta da garota.

 

JOSÉ

Espero que tenha aprendido mesmo. Caso contrário... (exibe o cinto na frente da garota) ... ela sabe o que vai acontecer.

 

José sai do quarto. Paulinha olha para sua mãe e pede ajuda.

 

PAULINHA (chora)

Mamãe... tá doendo.

 

Exibe os braços e pernas machucados.

 

MÁRCIA (séria)

Fica aí um tempo, para refletir o que você fez.

 

Sai do quarto na sequência. Paulinha abraça suas pernas, chora de cabeça baixa, sem entender por que recebeu aquela surra do pai. Afinal, ela é apenas uma criança. Não soube medir o que disse e nem da interpretação que suas palavras poderiam resultar.

 

CENA 14. CASA DE PAULINHA. COZINHA. TARDE. INT.

 

Márcia e José entram na cozinha juntos. Ele joga o cinto na mesa.

 

MÁRCIA

Você deixou o braço da garota cheio de marcas. Como ela vai para o colégio daquele jeito amanhã?

 

JOSÉ (senta-se)

É bom, que ela vai olhar para as marcas e lembrar da lição que eu dei nela.

 

A entidade maligna surge na entrada da cozinha. Márcia se assusta ao ver aquilo.

 

MÁRCIA (assustada)

José... o que é aquilo?!

 

José se levanta, vira-se e não sente medo da entidade a sua frente.

 

JOSÉ

O que é isso?!

 

A entidade exibe um sorriso assustador em seu rosto sombrio. Agora que tem uma boca, ela consegue falar.

 

DEMÔNIO (tom demoníaco)

Vamos brincar um pouquinho?!

 

Seus olhos vermelhos brilham e todos desaparecem dali.

 

CENA 15. MATAGAL. DIA. EXT.

 

José e Márcia estão amarrados no tronco de uma árvore. Ambos estão sem a parte de cima da roupa, com suas costas expostas para o demônio logo atrás deles. A entidade demoníaca os observa com um sorriso maligno no rosto.

 

JOSÉ (desperta)

O que? Que lugar é esse? (percebe-se acorrentado) O que significa isso?

 

Olha para o lado, vê sua esposa na mesma situação.

 

JOSÉ

Ei, mulher. Acorda! Márcia!

 

MÁRCIA (desperta)

José?

 

Percebe-se acorrentada, tenta se soltar. Lembra da criatura que viu na cozinha.

 

MÁRCIA (apavorada)

O que é isso, José? Onde estamos?

 

JOSÉ

E você acha que eu sei?

 

DEMÔNIO (tom demoníaco)

Que bom que acordaram. Quero os dois bem despertos para a nossa brincadeira. (um chicote surge em sua mão) Vocês precisam ser educados corretamente. Assim como fizeram com sua filha?

 

José tenta olhar para trás e identificar de onde vem aquela voz.

 

JOSÉ (grita)

Quem está aí? Porque não me solta daqui e vem me enfrentar de frente. Tá com medo, covarde?

 

DEMÔNIO (tom demoníaco)

Covarde? Eu? Creio que esse termo não se encaixe comigo. (caminha até ele)

 

A entidade fica ao lado de José. Embora seu rosto sombrio esteja ao lado dele, José não sente medo.

 

JOSÉ

Que porra é isso?

 

DEMÔNIO (tom demoníaco)

Você não vai querer saber quem eu sou. Na verdade... (olha para Márcia) ...vocês vão implorar para não terem me conhecido.

 

Caminha alguns passos à frente, dá uma chicotada nas costas de Márcia, que grita alto de dor. A entidade sorri, e dá mais duas chicotadas em sequência nas costas dela. José vê os gritos da esposa, começa a ficar assustado.

 

JOSÉ (grita)

O que você tá fazendo, seu louco?

 

Observa a esposa chorando ao lado. Nesse momento, o demônio dá uma chicotada em José. Ele se contorce de dor, mas não grita.

 

DEMÔNIO (tom demoníaco)

Quer ser o machão aqui, não é? Saiba que do lugar que eu vim, adorava brincar com pessoas assim como você?

 

Dar duas chicotadas em sequência nas costas de José. Ele continua firme, sem gritar.

 

JOSÉ

Seu idiota. Eu sou homem. Diferente da minha fraca esposa, você vai precisar bater bem mais forte, para tentar me fazer chorar.

 

DEMÔNIO (sorri, voz demoníaca)

Ótimo! Isso vai deixar a nossa brincadeira bem mais duradoura.

 

Mais duas chicotadas nas costas de José, dessa vez com bem mais força. As costas de José começam a sangrar. Márcia observa o marido aguentando aquilo tudo sem derramar nenhuma lágrima. O demônio faz sequências de chicotadas, de duas em duas. José tenta aguentar tudo, sem choro, sem grito.

 

CENA 16. CASA DE PAULINHA. SALA. TARDE. INT.

 

Vinícius, irmão mais velho de Paulinha, chega em casa. Caminha até o sofá, senta-se exausto do colégio. Olha ao redor e estranha o silêncio em casa. Se levanta e vai em direção aos quartos.

 

CENA 17. CASA DE PAULINHA. QUARTO DE PAULINHA. TARDE. INT.

 

Ao entrar no corredor, decide passar antes no quarto de sua irmã. Bate na porta do quarto, entra na sequência.

 

VINÍCIUS

Paulinha?

 

Ver o quarto vazio. Ao dar alguns passos, vê os pés de sua irmã entre o guarda-roupa e a parede.

 

VINÍCIUS

Paula?

 

Ver a irmã chorando e os braços da garota com manchas roxas.

 

VINÍCIUS (assustado)

O que aconteceu? (se ajoelha) O papai fez isso?

 

Ela acena que sim com a cabeça. Uma fúria cresce em Vinícius.

 

VINÍCIUS (sério)

Por que ele fez isso?

 

Paulinha faz sinal de que não sabe. Vinícius vê manchas nas pernas dela também, isso só aumenta sua fúria.

 

CENA 18. MATAGAL. TARDE. EXT.

 

José está sendo chicoteado há um bom tempo. Embora suas costas estejam a carne viva, ele ainda não derramou nenhuma lágrima. A entidade demoníaca para de bater, começa a gargalhar.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Admirável, confesso.

 

Márcia observa o marido, chora ao ver o estado que ele se encontra. Embora tente manter o machão que ele finge, seu corpo não aguenta mais.

 

JOSÉ (exausto)

Deixa de ser fresca, mulher.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Foquei tanto no marido, que acabei esquecendo da mulher. (caminha até Márcia)

 

MÁRCIA (desesperada)

Não, por favor. Não me bate. Por favor, por favor... deixa eu ir pra casa. Tenho filhos para cuidar. Meus filhos precisam de mim. Por favor, não me bate...

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Não venha bancar de boa mãe comigo. Eu vejo o seu interior, mulher. (os olhos vermelhos dele brilham) E ele é podre, tanto quanto o seu marido. (a chicoteia, Márcia grita)

 

MÁRCIA (chora)

Por favor, por favor, por favor... para!

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Sua filha pediu que parasse também? Você a ouviu? Você impediu seu marido?

 

MÁRCIA (desesperada)

Por favor...

 

Recebe sequência de chicotadas, José apenas a observa, sério. Márcia grita e chora em desespero, suplicando para que a entidade pare com as chicotadas.

 

CENA 19. CASA DE PAULINHA. QUARTO DE PAULINHA. TARDE. INT.

 

Paulinha começa a chorar, Vinícius fica de pé.

 

VINÍCIUS

Não chora, irmã. Chega. De hoje em diante, o papai não vai levantar nenhum dedo contra a gente novamente.

 

Abre a porta do guarda-roupa da menina e começa a tirar algumas peças de roupa para fora.

 

VINÍCIUS

Vamos embora daqui. Não vamos morar mais nessa casa. (Paulinha observa o irmão)

 

CENA 20. MATAGAL. TARDE. EXT.

 

Assim como deixou a costa de José carne viva, a de Márcia se encontra no mesmo estado. Ela, por outro lado, não aguentou a tortura e acabou desmaiando.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Essa aí é fraca. Não me diverti muito.

 

José observa a esposa desacordada, o demônio dedica sua atenção a ele.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Agora você... Você me divertiu. Quero ver até onde você vai segurar essa marra toda.

 

JOSÉ (furioso)

Vai para o inferno, seu desgraçado.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Eu já vim lá, amigo.

 

Outro chicote aparece em sua mão, se aproxima de José.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Bem, vamos ver se você aguenta se eu aumentar um pouco o ritmo?

 

Começa a chicoteá-lo intensamente. José fecha os olhos sentindo a dor dos chicotes, mas continua sem derramar nenhuma lágrima. O demônio se diverte.

 

DEMÔNIO (animado, voz demoníaco)

Isso. Isso. Isso. Quero ver até onde você consegue ir. Me divirta, humano. Me divirta! (risada demoníaca)

 

Começa a focar em outras partes do corpo, como braços e pernas. Após alguns minutos de chicoteadas, José parece bem abatido. Braços, pernas e costas estraçalhados, em carne viva.

 

DEMÔNIO (gargalha, voz demoníaca)

Maravilhoso. Nem no inferno encontrei almas assim como você. Se estivéssemos lá, eu poderia usar meus brinquedinhos pessoais. Iria adorar ver até onde você consegue segurar essa marra toda.

 

JOSÉ (abatido)

Vai para a puta que te pariu, infeliz.

 

Márcia desperta, bem mais abatida que José.

 

MÁRCIA (fraca)

Por... por... por favor... para.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Eu cansei de você.

 

Com um gesto de mão, gira o pescoço de Márcia, matando-a. José fica chocado ao ver sua esposa morta daquele jeito. Assim como das outras vezes, o corpo do demônio começa a sofrer transformações. Dessa vez, o corpo da entidade ganha uma camada de pele. Ele observa seu corpo, sorri. Está completamente nu. Seu corpo se assemelha ao corpo de Samuel. Seus olhos ainda continuam vermelhos.

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Minha transição está quase completa.

 

Se aproxima de José, que arregala os olhos ao ver como a entidade ficou.

 

JOSÉ (assustado)

O que você é?

 

DEMÔNIO (voz demoníaca)

Chega de brincar, infelizmente. Se pudesse, ficaria aqui por horas. Mas tenho trabalho a fazer. Esse planeta está cheio de pessoas que precisam ser castigadas. Então... obrigado por me divertir.

 

Faz o mesmo gesto com as mãos e quebra o pescoço de José. Com a sua morte, o corpo do demônio sofre modificações. A entidade se sente cada vez mais forte. Seu corpo é idêntico ao de Samuel, inclusive seus olhos e sua voz.

 

DEMÔNIO (voz humana)

Falta pouco! Falta pouco! (gargalhada maligna)

 

CENA 21. CASA DE PAULINHA. QUARTO DE PAULINHA. NOITE. INT.

 

Vinícius entra no quarto de sua irmã, com sua mala pronta.

 

VINÍCIUS

Vamos, Paula.

 

PAULINHA (com medo)

Eu não sei se quero ir. Se o papai nos pegar, ele vai bater em nós. (acaricia o braço machucado) Eu não quero apanhar de novo.

 

Vinícius caminha até a irmã, senta ao lado dela.

 

VINÍCIUS

Escuta... ninguém mais vai bater na gente nessa casa, entendeu? Eu te garanto isso. (pega a mão dela)

 

PAULINHA

E pra onde vamos, Vini?

 

VINÍCIUS

Eu já avisei a vovó. Vamos pra casa dela.

 

Sorri e isso a conforta. Os dois se levantam e saem do quarto.

 

CENA 22. CASA DE PAULINHA. SALA. TARDE. INT.

 

Assim que entram na sala, veem os corpos mortos de seus pais no chão. Paulinha grita assustada, Vinícius vê a cena em estado de choque.

 

CENA 23. CASA DE SAMUEL. QUARTO DE SAMUEL. NOITE. INT.

 

Samuel está sentado na cama lendo uma mensagem que recebeu de sua tia.

 

MEIRE (por mensagem)

“Confirmado a sua visita de amanhã, Sam?”

 

Samuel pensa por alguns segundos.

 

SAMUEL (digita)

“Confirmado”.

 

Envia a mensagem para sua tia. Bloqueia a tela do celular, o coloca ao lado e assim que se levanta, vê algo estranho à sua frente.

 

DEMÔNIO (sorri)

Olá, Samuel! (acena)

 

Samuel encara assustado aquele ser à sua frente, idêntico a ele. Fica boquiaberto com o que vê.

 

FIM DO EPISÓDIO.




A Vontade do Mal

Temporada 1 | Episódio 4

 

Criado e Escrito por:

Anderson Silva

 

Elenco:

Samuel (Giovanni de Lorenzi)

Benjamin (Eduardo Moscovis)

Elis (Sandra Corveloni)

Regina (Gilda Nomacce)

Meire (Isabele Garcia)

 

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