1. O Dia Em Que Um Hóspede Indesejado Chegou | Totalmente Incorreto




CENA 01. APART DE ROBERT. SALA. INT. DIA.

ROBERT (35), pensativo, sentado à mesa, frente ao computador.

Na tela do computador, vemos um arquivo Word em branco.

ROBERT        —   (P/si) Por que tem que ser tão difícil? Sou autor de livros premiados e um best-seller, mas não consigo escrever uma simples introdução!

Celular de Robert começa a TOCAR tema Star Wars de suspense (Darth Vader).

ROBERT        —   (ao cel.) Pois não? Quem ousa interromper a escrita do próximo best-seller do Robert?

LISA               —   (OFF) Sou eu, Rob. A mamãe.

ROBERT        —   (ao cel.) O que a senhora quer?

LISA               —   (OFF) Nossa! Nem pra perguntar como eu estou, nem pra perguntar seu estou viva ou morta.

ROBERT        —   (ao cel.) A senhora não vai começar com isso de “saber se eu tô morta”, não né? É óbvio que a senhora está ótima. Tá até me ligando e interrompendo a minha escrita.

LISA               —   (OFF) Vejo que nesses sete meses que nós não nos vemos, você não mudou nada.

ROBERT        —   (ao cel.) Seja direta, mamãe. Tenho muito o que fazer em vez de perder tempo com essa conversa irrelevante.

LISA               —   (OFF) Olha como fala! Muito bem, sabe o seu primo, Edward?

ROBERT        —   (ao cel.) Sim. O responsável por minha infância ser um inferno.

LISA               —   (OFF) Supere isso, Rob. Essas coisas aconteceram há mais de vinte anos.

ROBERT        —   (ao cel.) Sim, vinte anos que ainda me perseguem até hoje. Eu tenho marcas da infância que são inesquecíveis.

LISA               —   (OFF) Enfim, eu só queria pedir a sua gentileza de receber seu primo.

ROBERT        —   (ao cel.) Como assim? Receber ele aqui na minha casa?

LISA               —   (OFF) Isso mesmo.

ROBERT        —   (ao cel.) De jeito nenhum! Eu me recuso ver a cara daquele sujeito novamente!

LISA               —   (OFF) Ele precisa de um lugar para ficar, Rob.

ROBERT        —   (ao cel.) E daí? Os abrigos pra sem teto servem pra isso mesmo! Por que a senhora não o recebe na sua casa?

LISA               —   (OFF) Você sabe muito bem que eu moro em São Paulo, seu primo mora aí no Rio de Janeiro. Nada mais justo do que ele procurar um parente mais próximo.

ROBERT        —   (ao cel.) Mas mãe/

LISA               —   (OFF, Corta) Nada de: mas mãe! Você vai receber o Edward muito bem, ou não receberá esse ano o presente que eu prometi!

ROBERT        —   (ao cel., infantil) Mas mãe! Agora a senhora não pode voltar atrás! Eu sempre quis um óculos de realidade virtual e a senhora me prometeu!

LISA               —   (OFF) Então receba o seu primo. Caso contrário, diga adeus ao seu óculos de realidade sei lá o que tual!

Ela desliga.

ROBERT        —   (ao cel.) Alô? Mamãe? Desligou! (P/si) Era só o que me faltava! Depois de todos esses anos ter que olhar pra cara do (desdém) Edward!

CORTA PARA:

CENA 02. PRÉDIO. PORTARIA. INT. DIA.

SR. RIBEIRO (60) ouvindo em seu rádio antigo, uma narração de futebol.

Uma caixa de papelão ali pelo chão.

NARRADOR   —   (OFF) Caíque toma a posse da bola e entra na área, chuta para o gol e a bola bate na traaave!

SR. RIBEIRO  —   (indignado) Não!!! Como pode ser tão burro?

Ouve-se a torcida VAIANDO o erro da jogada.

NARRADOR   —   (OFF) E a torcida insatisfeita, começa a vaiar o jogador Caíque. A partida termina em empate. Um para o Internacional e um para o Fluminense.

Robert desce a escada e estranha Sr. Ribeiro falando sozinho.

SR. RIBEIRO  —   (p/si, indignado) É fominha! Por isso não marcou o gol da vitória! Custava passar a bola pro atacante? Mas não! A fome não deixa!

Robert se aproxima do balcão.

ROBERT        —   Sabia que falar sozinho não é nada saudável? Ainda mais quando se está em idade avançada.

SR. RIBEIRO  —   Não vem não, espicha! Eu tô puto com o jogador, que não fez o passe que deveria ter feito! Por causa dele, só empatamos!

ROBERT        —   (p/si) Por essas e outras que é porteiro em vez de um professor, escritor, advogado...

SR. RIBEIRO  —   O que você disse, espicha?

ROBERT        —   Nada! Eu quero saber se a minha encomenda chegou?

SR. RIBEIRO  —   Chegou. Tá aí pelo chão.

ROBERT        —   Como pode deixar a minha encomenda no chão?

SR. RIBEIRO  —   Espicha! Sem ladainha que hoje eu não estou legal. Meu time empatou, você percebe a gravidade disso?

ROBERT        —   Eu acho que você não percebe a gravidade da minha encomenda estar no chão! Saiba que dentro dessa caixa tem uma relíquia!

SR. RIBEIRO  —   Ah é? Legal!

Sr. Ribeiro entra no banheiro, deixando-o ali sozinho.

ROBERT        —   (p/si) Mas é de uma petulância!

Robert, germofóbico, tira dois lenços do bolso e se agacha para pegar a caixa, e a levanta com muito sacrifício por causa de seu peso.

ROBERT        —   (p/si) Quando finalmente conseguir chegar ao apartamento, vou ligar pra emergência com a hérnia que esse peso vai me dar.

CORTA PARA:

CENA 03. APART DE ROBERT. SALA. INT. DIA.

Robert todo suado entra com a caixa e a coloca sobre a mesa.

ROBERT        —   (p/si) Finalmente! Nossa, parece que eu corri uma maratona. Fiquem calminhas glândulas sudoríparas.

Ele pega um estilete e abre a caixa. Leva a mão até a boca de espanto, surpresa.

ROBERT        —   (p/si) Não acredito que depois de tanto tempo ansiando por esse momento, você finalmente chegou.

Ele tira de dentro da caixa uma relíquia máquina de escrever Olivetti.

ROBERT        —   (p/si) Coisa linda!

Ele coloca a caixa no chão e tira todos os germes da máquina com pano e álcool. Ele prepara a máquina, coloca o papel e digita uma letra, fecha os olhos de prazer pelo feito e treme-se de arrepios.

ROBERT        —   Assim! Assim! Assim!

Ele continua a digitar na máquina.

CORTA PARA:

CENA 04. PRÉDIO. PORTARIA. INT. DIA.

Seu Ribeiro sai do banheiro. EDWARD (30) entra com duas malas de rodinhas.

EDWARD       —   Bom dia, senhor.

SR. RIBEIRO  —   Bom dia.

EDWARD       —   Eu estou procurando o Robert, morador do quarto andar, eu acho.

SR. RIBEIRO  —   Robert? Tem certeza?

EDWARD       —   Sim. Eu sou Edward, primo dele.

SR. RIBEIRO  —   Eu me chamo Ribeiro. Me admira muito alguém procurar ele. O morador mais odiado do prédio pelo seu jeito de se sentir superior aos outros.

EDWARD       —   Com certeza é desse Robert mesmo que eu tô falando.

SR. RIBEIRO  —   Apartamento 404.

SUSAN (26) entra, voltando do trabalho, vestida de garçonete.

SUSAN           —   Bom dia, Sr. Ribeiro.

SR. RIBEIRO  —   Bom dia, Susan.

EDWARD       —   (Boquiaberto com a beleza de Susan) Bom dia.

Ela sobe a escada.

EDWARD       —   Quem é ela?

SR. RIBEIRO  —   Sua vizinha, moradora do 403.

EDWARD       —   Talvez eu possa gostar morar nesse prédio.

Ele pega suas malas e, com dificuldade, começa a subir a escada.

EDWARD       —   Seu Ribeiro, esse prédio não tem elevador não?

SR. RIBEIRO  —   Tem. Mas nunca funcionou.

EDWARD       —   Ótimo! Tenho que se matar até o quarto andar.

Ele volta a subir a escada, com dificuldade pelas malas cheias.

SR. RIBEIRO  —   (debocha) Mariquinha!

CORTA PARA:

CENA 05. PRÉDIO. HALL DO QUARTO ANDAR. INT. DIA.

Susan com a dificuldade para abrir a porta. Edward sobe com a língua pra fora de cansaço.

SUSAN           —   Droga! Vai, abre!

Edward se aproxima.

EDWARD       —   Com licença. Precisa de ajuda aí?

SUSAN           —   Essa chave não tá funcionando. A porta não quer abrir.

EDWARD       —   Bom, pode ser um problema na fechadura. Permita-me?

SUSAN           —   Claro.

Ele se aproxima da porta e tira a chave da porta e a olha... Vemos a logo de uma famosa marca de automóveis. Ele coloca a chave certa e abre a porta.

EDWARD       —   Prontinho.

SUSAN           —   Nossa, como você conseguiu?

EDWARD       —   Foi fácil. Você tava colocando a chave do carro na fechadura da porta.

SUSAN           —   (Sem graça) Nossa, mas que burra! Muito obrigado!

EDWARD       —   De nada.

Ela entra e fecha a porta.

EDWARD       —   (p/si) Claro! Não tem como ser bonita e inteligente. Ou é uma coisa ou outra. (confuso) Pera aí. Tem como sim, mas essa aqui não é. E agora, vejamos o louco de pedra que o Robert se tornou.

Ele se aproxima e lê na porta um papel que diz o seguinte:

EDWARD       —   (Lê) Só bata nesta porta no caso da morte de minha mãe e dos alienígenas terem dominado a terra. Caso contrário, não me incomode com suas coisas irrelevantes. O gênio escritor aqui precisa escrever o próximo best-seller. (P/si) Bem a cara dele mesmo!

Ele BATE na porta.

CORTA PARA:

CENA 06. APART DE ROBERT. SALA. INT. DIA.

Robert sentado digita mais uma letra na máquina e fica maravilhado.

ROBERT        —   (p/si) Como esse barulho do contato com o papel é maravilhoso.

Edward BATE na porta mais uma vez.

ROBERT        —   (p/si) Ai, quem será agora?! As pessoas nunca batem na minha porta!

Ele abre a porta e Edward logo entra com as malas, arrematando.

EDWARD       —   Com licença, essas malas estão pesadas demais.

Robert fica a encarar ele seriamente por uns segundos.

EDWARD       —   Que foi?

ROBERT        —   Esse não é o modo de se entrar na casa de uma pessoa que você não a vê há mais de dez anos.

EDWARD       —   Pois é. E vejo que nesse meio tempo você não mudou nada.

ROBERT        —   Mudar pra quê? Aliás, eu não entendo porque as pessoas acham que eu preciso mudar.

EDWARD       —   Tem razão. Se você é feliz assim, continue do jeito que está. Ah, e a propósito... Muito obrigado pela estadia.

ROBERT        —   A sua presença nesta casa é totalmente indesejada, mas minha mãe praticamente me obrigou a te receber.

EDWARD       —   Obrigado pela sinceridade.

ROBERT        —   É uma de minhas marca. Mas o que fez com que você saísse de casa? Você não morava em um apartamento enorme em Ipanema, pelo que eu ouvi falar?

EDWARD       —   Você disse tudo, primo. Morava. Do verbo não moro mais, ou seja, o passado.

ROBERT        —   Tá, para de reafirmar o óbvio que eu detesto esse tipo de gente.

EDWARD       —   Estou me divorciando e minha esposa me expulsou de casa.

ROBERT        —   Nossa, que complicado! É por esse motivo que eu não namoro.

EDWARD       —   (Sarcasmo) É. É exatamente por isso que um cara que nem você não tem uma namorada.

Fecha em Robert, que percebe um certo sarcasmo.

CORTA PARA:

CENA 07. PRÉDIO DE ROBERT. FRENTE. EXT. NOITE.

Ouvimos a voz de Robert vindo da próxima cena.

ROBERT        —   (OFF) Oh... Vejo que você já está se instalando!

CORTA PARA:

CENA 08. APART DE ROBERT. QUARTO EDWARD. INT. NOITE.

Edward desfazendo suas malas e colocando no guarda roupa. Robert com o tablet em mãos.

EDWARD       —   Sim. Como eu vi o guarda roupa aqui vazio, eu achei que não teria problemas.

ROBERT        —   E não tem. Mas logo após ler esse contrato, estará ciente das regras desta casa.

EDWARD       —   Espera aí. Como assim regras?

ROBERT        —   Veja você mesmo.

Ele pega o tablet das mãos de Robert e lê.

EDWARD       —   É sério que vamos ter um contrato?

ROBERT        —   Sim. Eu preciso viver em um ambiente com regras.

EDWARD       —   Mas você vivia aqui sozinho!

ROBERT        —   E o que isso tem a ver? Eu preciso criar regras para eu mesmo quebrá-las e eu mesmo me punir!

EDWARD       —   Você é louco!

ROBERT        —   Enganados estão os que acham isso. Minha mãe mandou me examinar e eu sou perfeitamente normal!

EDWARD       —   (debochado) Isso é o que te disseram!

CORTA PARA:

CENA 09. APART DE ROBERT. SALA. INT. NOITE.

Robert colocando sua comida no prato. Edward, com o prato de comida e um copo de refrigerante, se senta numa poltrona.

ROBERT        —   Não!

EDWARD       —   O que foi dessa vez?

ROBERT        —   Você está sentado na minha poltrona!

Ele se senta no sofá e Robert em sua poltrona.

EDWARD       —   Essa casa tem mesmo que ter regras pra tudo?

ROBERT        —   Sim. Eu vivo em um ambiente extremamente organizado e com limites.

EDWARD       —   (Brinca) Daqui a pouco só me falta ter regra pra usar o banheiro.

ROBERT        —   E tem!

Edward cospe o refrigerante.

ROBERT        —   Você vai limpar isso!

EDWARD       —   Eu limpo depois. Sério que tem regra pra usar o banheiro?

ROBERT        —   Sim. Nossa! Vejo que você não leu o nosso contrato da forma correta. Que falta interpretação de sua parte, Edward! Deve ser por isso que você fracassou como escritor e virou professor universitário!

EDWARD       —   Como é a escala do banheiro então?

ROBERT        —   É simples! Nos horários que estiverem no contrato, você tem que estar fora de lá!

EDWARD       —   Mas eu não posso controlar as necessidades fisiológicas do meu corpo!

ROBERT        —   Ah, você pode sim! Como, por exemplo, não tomando água além do necessário, não comendo alimentos com alto teor de fibra... No contrato tem uma clausula específica sobre os dias em que eu como fibras... O banheiro é meu por mais tempo. Você não sabe a batalha que acontece dentro daquele banheiro!

EDWARD       —   Não sei e nem quero saber! Nós estamos jantando!

CORTA PARA:

CENA 10. PRÉDIO. HALL DO QUARTO ANDAR. INT. NOITE.

Edward, desanimado, sai do apartamento e fica encostado na porta. Susan sobe a escada vestida com roupas de malhar.

SUSAN           —   Oi.

EDWARD       —   (desanimado) Oi.

SUSAN           —   Deixa eu adivinhar. Em algumas horas, o Robert acabou com a sua alma.

EDWARD       —   Pois é.

SUSAN           —   Ele é o morador mais detestável desse prédio.

EDWARD       —   Não culpo os moradores... Você não sabe o ambiente extremamente controlado que é ali dentro.

SUSAN           —   Posso bem imaginar. Boa noite e boa sorte!

EDWARD       —   Obrigado!

Susan entra e fecha a porta.

EDWARD       —   (p/si) Onde eu vim me meter?

SUSAN           —   (OFF) No hospício!

Edward sorrir.

CORTA PARA:

FIM DO PRIMEIRO EPISÓDIO



Totalmente Incorreto

Temporada 1 | Episódio 1

 

Criado e Escrito por:

Ramon Silva

 

Elenco:

Robert

Edward

Susan

Richard

Jason

Lisa

Seu Ribeiro

Reitor

 

Rajax © 2021



Nenhum comentário:

Postar um comentário

close

menu cel