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dezembro 22, 2021

Encontre | Filme

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ENCONTRE

Escrito por Luciana Fernandes

 

Em janeiro de 2020, eu, Íris, comprei máscaras descartáveis em uma drogaria. Isso foi antes da notícia do dia 29, quando o Brasil sabia da confirmação de caso do vírus maldito. Eu comprei por achar que precisaria por um tempo, depois que fui informada de casos do vírus em outras partes do mundo. É bom se prevenir nesses casos, né?

Eu já era reclusa no meu apartamento, localizado no bairro manauara Chapada. Eu muito pouco saía de casa, mesmo para fazer compras para necessidades. Eu já era adepta de comprar coisas por delivery, inclusive coisas de supermercados. Minha rotina em janeiro de 2020 basicamente era escrever mais poesias do que as que eu tinha escrito, compilar poesias em livros e enviar ou guardar essas obras para prêmios e editoras nacionais de médio porte.

Sei, sei o que você pode estar pensando. Que poetas podem muito bem sair de casa, que o mundo não parecia estar em seu fim no mês de janeiro e que eu estava exagerando. O negócio é que meu pai faleceu em 2019 e, desde então, passei a morar sozinha. Além de escrever, claro, arrumava as coisas da minha residência e limpava cada centímetro quatro vezes por semana. Embora estivesse desempregada, o dinheiro que meu pai, um homem conhecido pelas suas riquezas, ajudava nos custos do aluguel e das despesas. Eu não tinha mais ninguém mesmo para contar totalmente, com exceção de uma pessoa.

–  Thalita – disse eu, no dia em que foi confirmado o vírus no Brasil – Você acha que eu tenho alguma chance com o prêmio Jabuti?

– Você é boa – Thalita, romancista e minha amiga de Ensino Médio, comentou – Mas sei não, esses prêmios mais de peso me parecem... sei lá... Mas tenta, vai que você consegue.

Desde o Ensino Médio em uma escola pública, Thalita era receosa quanto ao mercado do livro. Talvez isso seja por ter ela tido originais seus recusados por uma grande editora, a editora Fantasia, e ela ter decidido investir por enquanto em editoras pequenas. Na minha opinião, as histórias dela prendem. Pelo menos, a mim, uma mulher solteira de 22 anos.

Mas eu não captava o que ela entendia do mercado como a realidade para o meu caso.

– Se eu sou boa no que faço – eu falei com ela por chamada no WhatsApp enquanto rabiscava um poema de amor no papel – Por que eu não conseguiria?

– Íris, miga – contou ela enquanto eu escutava sons de uma menina chorando por atenção em seu lado da conexão – Tem muita gente que também se esforça nesses concursos e prêmios de poesia. É competir com gente que pega muito pesado também. Não se sabe o resultado, vai por mim. Não já ache que venceu a parada.

– Competir tipo com quem? – eu a questionei, querendo saber da minha concorrência.

– Paulo César, por exemplo – Thalita me respondeu– Aquele cara que você conheceu na faculdade...

– Ah, meu ex – sem pensar duas vezes, falei e mordi uma unha.

Eu tinha alguns ex-namorados na época da faculdade. No Ensino Médio, as pessoas me tratavam como uma “nerd com cara de galerosa” e isso fez com que amizades se distanciassem de mim por me achar difícil de acompanhar. Menos a minha amiga leal, Thalita. Na faculdade de Letras que comecei com 17 anos, conheci várias pessoas que tinham o mesmo sonho que eu: transcender como poetas e escritores.

Paulo César foi uma pessoa que conheci nessa época. Era poeta também e no começo achava dificuldade de se encontrar na poesia. Mas, com o meu empurrãozinho e de suas leituras de poetas como Fernando Pessoa, ele voou. Quando ele voou, meu amigo, eu parecia um pisca alerta de tanta paixão, pois pensei “Pô, achei a minha alma gêmea!”. Passamos a namorar, mas um dia eu percebi que ele passou a me achar... não muito significante.

Não sabia se tinham sido as fofocas. Para alguns rapazes petulantes da minha turma de 2016, eu não era para casar. Nunca entendi a mente desses homens. Talvez fosse a minha admiração por uma garota da nossa turma, Jéssica, que era uma poetisa prodígio. Muita gente entendeu na época entendeu como sendo “lesbicagem”. Outros estranhavam eu querer distância de panelinhas de garotas populares do curso. Mas eles mal sabiam que elas não eram bem flores que se cheirem.

Bem, deu para entender o que aconteceu. Eu e Paulo César terminamos logo depois dos burburinhos.

– Achei que você não ia querer que eu mencionasse essa parte da história – na conversa por telefone, Thalita disse brincando – Ele não foi legal, dando um chute na sua bunda praticamente.

Suspirei e tirei a unha da minha boca. Realmente, ele não tinha sido legal no fim comigo. Mas eu reconhecia que o começo de nosso relacionamento foi interessante e agradável. 

– Eu já esqueci disso, Thalita – avisei sincera, pois nada na minha vida até então tinha me abalado tanto quanto a morte de meu pai – Fora que, se ele não estava feliz comigo, o que eu podia fazer? – dei-me de ombros.

Passou-se um minuto de silêncio. Achei que Thalita sentiu que não era mais um assunto a se tocar. Eu não me importava mais com o tema. Se ela prosseguisse ou não, não tinha diferença para mim.

– Mudando de assunto – depois que sua filha sossegou, Thalita ficou bastante séria – Você soube que o novo coronavírus está passando a atingir aqui no Brasil?

Fiz um “huuuum” com a boca.

– Não deve demorar pra vir pra Manaus – respondi, não gostando de dar a dedução, já que eu me preocupava com o povo amazonense – Tem gente que viaja muito daqui pro Sudeste e vice-versa. É janeiro, né? Tá chegando o Carnaval.

Sobre a praga chegar para Manaus, foi dito e feito. Alguns dizem que o vírus veio da China, outros dizem que o vírus já existia em outros lugares. Mas uma coisa é certa: ninguém esperava o que aconteceu. Ninguém, nem o ministro da Saúde da época poderia prever. Se soubéssemos mais como precaver todos...

Eu não previ o que viria a acontecer com Thalita. Isso foi outra tragédia para mim.

Thalita, ao contrário de mim, formou uma família, uma vulnerável. Ela vivia em uma espécie de ocupação, próxima de um igarapé no bairro onde costumava ser nossa escola. Os minutos para me telefonar eram regrados. Ainda bem que Thalita tinha um marido super carinhoso e que não a agredia, embora, anos depois, eu soubesse que ele a traía com uma mulher mais nova estrangeira e isso tenha doído em mim.

Thalita fazia merendas para vender às famílias no entorno da ocupação, mesmo com o caos em março. “Sempre dou jeito de entregar”, um dia ela me contou via SMS. Não sei como foi que Thalita se contaminou, isso a família dela não me explicou direito. Mas o que eu sei que em uma manhã de domingo de fevereiro, Thalita voltou para casa achando que tinha gripado. Inclusive, a minha amiga me telefonou contando isso. “Eu não acho que seja corona”, apontou ela na ligação. Só que, em uma tarde de abril, a mulher estava desesperada em SMS dizendo “minha filha está com muita febre!”. Eu não tinha carro. No entanto, eu, nervosa, tinha como pedir um uber para Thalita. E esse foi o nosso último contato. Eu tentei ligar para Thalita depois do acontecimento, mas ela nunca atendia.

A filha de Thalita morreu esperando por um leito de UTI em hospital público. Os pais não puderam estar com ela na hora do enterro. O homem ficou muito depressivo e disse “O que fazemos agora?”. Thalita passou a se alimentar cada vez mal. Acho que isso influenciou no seu sistema imunológico, pois a “tosse seca” passou a vir com força. A moça ficou na enfermaria por cinco dias. No sexto dia, segundo parentes, parecia não ter forças para lutar depois da morte da filha. Fechou os olhos. Sorriu. Se foi.

Fiquei sabendo da morte de minha amiga através de mensagens de familiares em seu perfil do Facebook. “Mais uma vítima dessa doença”, sua mãe escreveu. “Minhas amadas se tornaram uma estrela no céu”, disse o esposo de Thalita e pai do filho dela. Resolvi não dizer nada nas minhas redes sociais, apenas chorei silenciosa no meu quarto. Perder minha única amizade naquele mundo da época era um tormento.

Em junho, eu não estava com humor para pensar em festas juninas, por mais que me agradasse comer um espetinho naqueles dias. Em junho, soube da corrida das vacinas e talvez a criação da vacina mais rápida da história (não me atentei bem para ver qual seria). Eu soube da corrida das vacinas através de algumas senhoras que eu ouvi no supermercado mais próximo do meu prédio. Embora eu seja de uma opinião “nem sim, nem não” para as vacinas, eu me perguntei na hora o que aconteceria se estivéssemos vacinados antes. Talvez Thalita e sua filha ainda estivessem entre nós.

Em julho, tentei buscar inspiração para poemas novos. Meus poemas estavam ficando repetitivos com a tristeza que me consumia. E eu não podia recorrer a uma publicação física, tinha que recorrer para o site Amazon. Eu também precisava vivificar meu espírito com algo. Então, decidi olhar pela fresta da janela da sala do meu apartamento. Através dela, pude ver conhecidos do prédio saindo cuidadosos para os trabalhos. A flexibilização no Amazonas deu seus passos. Alguns arriscavam em caminhar ao ar livre. Já tinha o anúncio de que escolas voltariam a ter atividades presenciais. Resolvi, com tudo isso, fazer poemas sobre a ironia da vida. Demoraram três meses para que eu tivesse em torno de 4 poesias que eu gostasse para divulgar. Minha capacidade industrial de fazer poesias se esgotara.

Achei que dezembro de 2020, o primeiro natal que eu passaria sozinha e não na casa de meus primos (uma coisa boa da pandemia), seria o mês em que estaria confidente e em todo vapor para mais poesias. Eu me enganei.

Durante o período em que eu estava 99% confinada no prédio, eu observei que o tempo pandêmico fez a gente mais atento ao que acontecia perto de nossa casa. Em agosto, vi uma cena enquanto fervia um yakissoba de delivery na minha cozinha. Dois jovens andavam de mãos dadas, juntos, quando uma mulher indignada gritou com um deles pela varanda de seu apartamento, que ficava ao lado do meu. Era para um deles subir “já”. Ela estava uma fera. Eu apenas observei, pensando que talvez, por serem dois homens, um deles fosse má influência. Dias depois, eu só veria o outro jovem, só e andando pelo prédio. Nosso prédio possuía piscina própria e academia. Isso fazia circular gente por meio dos espaços livres. Por isso, posso assegurar a vocês, a cena não me incomodou tanto. Eram coisas do cotidiano que eu achava que não deveria me meter.

Em dezembro de 2020, quando eu quis sair para poder fazer musculação na academia do prédio depois de dois anos, fiquei em estado de choque.

– O que você está fazendo aí, rapazinho? – foi a primeira pergunta que escapou dos meus lábios, pois eu vi um jovem com uma mala pronta, máscara e com marcas em seu rosto.

Era o mesmo jovem que estava com o outro homem. O mesmo jovem que foi mandado ir para cima.

– Esperando minha mãe mudar de ideia – o rapaz me disse com um machucado sangrento em seu nariz e algumas pequenas cicatrizes perto de seu queixo e de sua testa – Ela me deixou aqui fora.

Ele não olhou sequer para mim. Isso me deixou meio aliviada, pois pude trancar a porta e esconder a chave em um dos meus bolsos. Mas eu também fiquei agoniada por ele. O prédio funcionava a base de quatro elevadores e cada corredor de cada um dos dezoito andares tinha uma atmosfera sufocante. Eu me lembrei disso por instinto, como eu já tinha passado por um perrengue e ter que pedir ajuda de um chaveiro.

– E você pretende ficar aí até ela mudar de ideia? – eu queria saber.

– Sim, é o jeito – falou ele, quem devia ter mais que 17 anos e menos que a minha idade – Eu não tenho mais onde ficar mesmo, só naqueles abrigos para sem-teto...

– Qual o seu nome?

Ele olhou para mim. Tinha os olhos azuis como safira. Não parecia ser amazonense à primeira vista.

– Bryan – a curiosidade estava em seu olhar.

– Bryan, sou Íris – eu falei – Torço para que sua mãe consiga abrir a porta para você. Se precisar de algo para ajudar no seu ferimento, a vizinha da porta de lá – apontei para a porta no outro lado – é enfermeira, pode te ajudar.

– Moça, minha mãe está fora – disse ele, quem voltou a ter um olhar vago para o horizonte – Mas obrigado pela consideração.

Eu o olhei mais por um momento. Meu coração estava apertando um pouco, condoendo-se pelo rapaz. Pensei bastante na minha mãe, quando viva e respirando, que disse que sabia que eu ia ser uma pessoa maravilhosa. Entretanto, achei que não era da minha conta. Era um desconhecido! Meu pai tinha me ensinado a desconfiar de pessoas que aparecessem do nada. Fui para o elevador e esperei dar no subsolo. Meu coração ainda se achava apertado de compaixão. Fui para a guarita, peguei as coisas para ir à academia e fui malhar por meia hora, mesmo com a cena matutando na minha cabeça.

Uma notícia estava na televisão da academia. Era sobre o abandono de uma criança de 12 anos nas ruas do bairro manauara Jorge Teixeira. Moradores a acharam, cuidaram dela e o conselho tutelar foi acionado. Minha mente se vasculhava no automático a imagem do rapaz vizinho. Meu coração, um coração grande demais para mim (não literalmente, digo), parecia estar se sufocando. Finalmente, a fotografia da minha mãe, a que guardo com carinho na cabeceira da cama, foi visualizada pela minha cabeça.

Suspirei em derrota franca. “Como o universo conspira para que eu faça algumas coisas...”, pensei, quando eu pus os pesos de uma máquina de musculação de volta ao lugar e ao passar um álcool gel que eu tinha no bolso. Eu também fui para um canto, onde estavam posicionados pelo prédio um pano e um espirrador com álcool. Levei cinco minutos para limpar as máquinas, desligar a televisão, desligar o ar-condicionado e trancar a porta da academia.

– Aqui está o que vocês me deram da academia – eu disse para um dos guardas, um rapaz de tez negra, antes que ele assentisse a cabeça e agradecesse – Queria saber de uma coisa.

– O que, moça? – perguntou o guarda.

– Tem um rapaz no corredor do sexto andar – respondi – Ele parece ser filho de uma senhora que mora por lá. Conhecem ele?

O guarda viu o sistema de vídeo. Todo corredor do prédio tinha câmeras e ele conseguiu capturar o momento em que Bryan estava deitado no tapete de onde era seu apartamento. Os olhos do jovem estavam fechados.

– Ele é filho da senhorita Kathleen – contou o outro guarda, um que parecia ser um autêntico manauara pela sua aparência – Não é adequado falarmos sobre a vida íntima dos moradores – vendo que eu continuava o observando, ele parecia ter se sentido pressionado para continuar – ele teve uma briga feia com a mãe.

– Oh – eu fiz, também atenta para a imagem das câmeras de segurança.

Bryan parecia não abrir os olhos. “Será que ele tá bem?”, eu me preocupei. Decidi pegar rápido o elevador e fui ao meu andar. O garoto ainda estava lá, deitado sob o tapete do apartamento, mas parecia estar respirando. Quando me aproximei devagar para ver o seu rosto descoberto (a máscara estava em suas mãos), percebi o quão magro ele era e que seus lábios rosados se mostravam secos. Achei que ele estivesse dormindo, mas, como tivesse ouvido os passos do meu tênis, Bryan abriu pouco a pouco seus olhos azuis.

– Mãe? – perguntou ele, antes de ter seus olhos mais abertos e parecer contemplar o meu rosto – Ah, é você. Íris, né? – Bryan passou a se sentar onde estava – O que você quer que eu faça?

– Precisa fazer nada, menino – por eu estar em um peso razoável, fruto de rigorosa dieta, eu me abaixei e fiquei face a face com ele – Enquanto a sua mãe não vem, você pode ficar comigo em casa... – desconfiança passou nos olhos dele e eu não o culparia por isso, pois eu não o tratei tão amigável assim e ele podia não saber da minha mudança de coração – Posso te dar água.

– Minha mãe chega na semana que vem – riu Bryan, triste, e me deu um meio sorriso – Vai demorar muito tempo.

– Não tem importância – eu falei sem pensar duas vezes, só indo pelo meu coração – Se estiver com sede, melhor vir logo.

Não demorou para que Bryan me acompanhasse até a porta. Eu soube que ele me acompanhava, depois de eu virar pela porta, pelo barulho da mala. Era provável que ele estivesse na porta de onde era seu apartamento por horas. Sufocado, faminto e com sede.

– Não repara a bagunça – eu disse para ele assim que abri a porta do meu apartamento.

– Meu quarto é mais bagunçado que isso – Bryan me relatou tranquilo – Sua casa é bem arrumada.

Eu convidei para que ele se sentasse em uma mesinha que eu tinha na sala. Enquanto isso, eu peguei um copo com água na cozinha. Minha mente me fazia um interrogatório ao mesmo tempo em que eu estava longe dele. “Tá ficando maluca, Íris, e se o menino tiver má índole?”, veio um pensamento. Porém, prevaleceu um pensamento de que “Pelo menos, minha consciência está limpa”. E caminhei até ele.

– Espere aqui o quanto quiser – falei calma para Bryan – Até você conseguir ir de volta para sua casa ou conseguir outro lugar.

Ele pegou o copo de água e tomou um gole.

– Como eu vou saber se você não é uma má pessoa? – Bryan desembuchou, seus olhos me espionando.

Eu ri daquilo, pois, como eu disse:

– Bom, se você duvidasse mesmo disso, não teria tomado a água – e percebi ele um tanto surpreso com a resposta, já que ele abaixou o rosto para a água e fez uma careta.

– Isso tem veneno não, né? – quis saber Bryan.

– Claro que não – ri outra vez, com mais humor.

Eu queria fazer nada com o garoto além de ajudá-lo. O sol aparecia por meio da varanda da sala de estar e eu tive que ir até a varanda para fechar as cortinas e a porta. Quando voltei até a mesinha onde Bryan estava, ele estava encarando alguns quadros presos numa parede.

– Quem são esses? – ele apontou para o quadro de um bebê nos braços de uma mulher de tiara vermelha e de um homem de terno – Eu acho que já vi esse homem antes.

Com uma máscara de tecido no rosto, olhei para o tal quadro com um mix de saudade e alegria.

– São os meus pais – contei, sem desviar os olhos do quadro, e tive que fazer força para uma lágrima não descer – Mamãe morreu quando eu tinha 2 anos. O meu pai morreu ano passado.

– Ele é um cara chamado Adão Salvador, não é? Tá mais jovem na foto – ouvi Bryan me dizer– Ele era um empresário que ia pra umas festas. Algumas vezes eu o via nas colunas sociais daqui da cidade.

– Sim, ele ia para umas festas – eu declarei, já olhando para o rapaz – Ele era convidado a eventos importantes. Eu nunca ia para esses eventos, não sei o porquê. Mas conhecendo papai, devia ter um ótimo motivo.

– Isso significa que você é da alta sociedade? – os olhos de Bryan brilharam em curiosidade – Puxa vida, que massa!

– Não, só era filha dele e de mamãe – respondi séria, não gostando do tom de ser vista como da “alta sociedade”, pois era como se eu fosse distante – Tem uns jornalistas que tentaram entrar em contato comigo no tempo da morte dele, mas eu não gosto de muita atenção.

Minha resposta parecia ter surtido algum efeito nele, já que ele ficou em silêncio por alguns minutos.

– Então você é Íris Salvador – Bryan parecia estar querendo absorver as informações – Como é que você mora sozinha nesse apartamento? Se for do tamanho do meu, é grande. Você podia morar em outra cidade, não acha?

Minha paciência tinha um limite. Aquelas perguntas sobre meu status me lembravam situações na faculdade com as garotas de panelinhas de Letras. “Ah, Íris, podemos ir para o Tropical Hotel? Quero ver o pôr-do-sol”, uma delas teria me perguntado após se aproximar de mim por dois dias. Isso porque ela viu meu pai em um evento lá. Perguntas sobre meu status, vindas de repente, faziam eu me sentir muito tensa. Eram frequentes as pessoas que tentavam se aproximar de mim.

– Eu sei lá, Bryan! – tomei cuidado para não gritar alto com ele – Vamos falar agora da sua situação... A sua mãe só volta semana que vem? Que dia?

– Terça – Bryan me respondeu, meio silencioso – Por que a pergunta? – dado eu não responder, o jovenzinho ficou inquieto e pareceu surtar – Você vai denunciar ela?!

– Eu não tenho essa vontade, pode relaxar. Acho que se alguém tem o direito de fazer isso, é você. Ela é a sua mãe, né? – tive cuidado em não soar grossa, pois me senti meio estressada – Quantos anos você tem?

– 19 anos – contou Bryan.

– E por que a sua mãe te expulsou do apartamento? – eu queria saber.

Um silêncio desconfortável se instalou entre nós dois até ele quebrar o gelo. O garoto passou a ponta da língua no lábio, sem me olhar, e ajeitou suas pernas.

– Minha mãe – relatou Bryan, uma mão na nuca e a outra perto do ferimento no nariz coberto por gazes – ela descobriu que eu não ando indo para a igreja como ela queria. Quando ela me viu com o meu antigo namorado, que também mora no prédio, ela surtou.

Amassei um lábio meu contra o outro. “Era caso de intolerância contra homossexualidade?”, eu me perguntei mentalmente, não querendo ser inadequada na frente dele. Eu até me senti culpada em ter achado que o tal antigo namorado, outro morador do prédio, fosse má influência na época em que eu vi a cena.

– Isso foi em setembro? – interroguei relutante para o rapaz.

– Como sabe que foi em setembro? – Bryan piscou seus olhos umas três vezes.

– Eu vi você passeando com outro garoto do prédio na área comum.

– Ah, sim, foi em setembro sim – eu o vi esboçar um sorrisinho bobo em sua face, antes de voltar com a expressão triste – Mamãe não é bem tolerante comigo querendo namorar com garotos, seja da minha idade ou não... – não quis falar isso com ele, mas senti que ele já namorou homens mais velhos – Ela sabe que já namorei com garotas e quer que eu me case. É o sonho dela, eu me casar com uma mulher e dar netos para ela. Fiquei um tempo querendo realizar esse sonho, mas aí eu me vi infeliz e falei para ela.

– E ela fez isso? – apontei para tanto o ferimento como também para as marcas em seu rosto que pareciam cicatrizes em riscos.

– Boa parte sim – confessou ele – Meu pai biológico morreu quando eu era novo. Era policial, morreu trabalhando com honra. Aí, dois anos depois, minha mãe arranjou um homem mais novo! Esse homem tinha a aparência de um cara bom com dinheiro, mas ele não era flor que se cheire. Ele tinha um fascínio muito louco por mim. Mamãe também mudou. Mamãe me culpava por ele não dar tanta atenção para ela e chegava a me maltratar. Tive que denunciar esse homem para que ele não abusasse mais de mim ou de mamãe. A polícia conseguiu o prender.

– Quando foi a prisão dele? – eu queria saber em um tom bem baixo.

– Foi em novembro – Bryan se encostou mais na cadeira – Graças aos céus ele não foi solto. Se ele fosse solto, eu estaria em apuros.

Silêncio. Pensei nas minhas próximas palavras. O rapaz estava atormentado mais do que eu imaginava, eu precisava ter alguma sensibilidade.

– Ainda bem que ele não está solto, ele parece ser um cara escroto pra caramba. Você poderia estar mesmo em perigo. E você foi jogado pra fora de casa por...? – continuei o interrogatório, com o objetivo de ver como eu ajudaria meu hóspede.

– Muitos motivos – Bryan parecia estar farto das perguntas – Eu cansei de contar.

Decidi não empurrar mais o assunto com ele. Mudei de tema. Falei das minhas condições para que ele estivesse em minha casa. Eu falei que pensava em dar um tempo limite para ele ficar no meu apartamento até terça-feira. Se ele não apresentasse algum trabalho até o prazo limite, eu poderia o convidar para ir para fora de casa. Falei isso para que ele não fosse dependente de mim, já que eu pretendia mantê-lo em casa mesmo se não obtivesse trabalho. Eu não sabia o dia de amanhã, ainda mais em uma pandemia.

Eu o deixei entrar em casa em uma sexta-feira. Na segunda-feira, ele foi sozinho ao Centro de Manaus buscar emprego e voltou com a oferta de um estabelecimento de ele poder ser atendente de padaria de manhã e tarde. O pagamento seria uma merreca, mas podia ajudar.

Eu me acostumei com a presença do garoto pela noite e pela madrugada, mas eu tinha que ver também a mãe dele.  Não consegui ficar sem falar algo pra ela e ver por eu mesma o outro lado. Chegando terça-feira, eu vi a mãe, dona Kathleen, voltar de algum lugar e ir abrindo a porta com trajes finos. Confesso que antes eu fiquei de quinze a quinze minutos vendo o corredor pelo olho mágico para poder presenciar a cena.

– Dona Kathleen? – eu abri a porta para poder falar com ela – Posso falar com a senhora, por favor?

– Oi, quem é você? – de forma elegante e educada, ela me perguntou.

– Sou Íris, Íris Salvador – eu contei – A sua vizinha.

Ela me encarou dos pés à cabeça.

– Disso estou sabendo, menina – declarou a mulher – O que você quer? Para você se manter neste prédio, dinheiro parece não ser.

– Seu filho, o Bryan, está no meu apartamento – respondi – Queria saber se a senhora pretende o acolher de volta a sua residência. Ele está muito triste.

– Pode o ter com você. Fica bem melhor para mim não ter a presença dele – ela se deu de ombros, uma sobrancelha arqueada – Quer dizer que o pestinha continua vivo?

Aquilo me deixou chocada, mas resolvi continuar a abordá-la:

– Por que não vai o acolher? – perguntei e senti preocupação em minha voz – Ele é seu filho, moça! Você não o viu só no corredor? Ele precisa de uma pessoa com quem possa confiar. Eu sou uma estranha, só uma vizinha... Eu não consigo avançar muito no coração dele e conseguir o curar.

– Querida – embora ela me chamasse assim, era visível que ela nem me queria bem ou mal – eu posso ter o gerado, mas não me sinto obrigada a ter Bryan em minha casa quando ele tem mais de 18 anos. Ele pode sobreviver na rua, se ele quiser – ela gesticulou com a mão para um lado, como jogasse uma mosca – Mas eu não sabia que ele se mantinha vivo, ainda mais com uma jovem e inocente moça como você.

– Você é mãe, poxa! – eu falei, por fim, sentindo-me bem emotiva – Deve ter alguma sensibilidade que possa ainda existir em você! Ele me contou coisas que vocês viveram juntos. Você era a melhor amiga dele.

Ela me mostrou um sorriso educado e superficial. Talvez ela nem sempre fosse assim, mas era difícil ver resquícios do que Bryan me contou do passado.

– Querida, eu não tenho tempo para bobagens – foi o que ela disse – Se você insistir demais em reaproximar Bryan de minha pessoa, terei que tomar providências de segurança! Mas eu a alerto de uma coisa. Tenha cuidado em deixar homens estranhos como ele dentro de seu apartamento, como você mora sozinha. Eles podem tomar a sua vida de diversas formas.

Eu admito que me assustei. Senti em minha pele que ela fosse capaz de tudo para permanecer como estava: sem o filho. Eu me perguntei se ela seria capaz de fazer mais algo contra Bryan. E abriu a porta para poder entrar, fechando bruscamente logo em seguida antes de trancar por dentro. Eu me senti bem impotente naquela hora.

Eu senti uma espécie de frieza em suas palavras e isso me chocou. Achei que Dona Kathleen tinha algum sentimento por Bryan. Mas parece que isso tudo sumiu da existência da Terra.

– E foi isso que aconteceu – falei naquela noite para o rapaz, quando ele me notou muito muda (não era comum, falo demais sozinha) na minha mesa de trabalho com as poesias – Bryan, acho tão errado o que ela falou... Afinal, vocês eram próximos...

– A alma de mamãe amargou – foi o que ele falou, vestido do uniforme laranja da padaria e sem me olhar direito – Acho que ela nem me reconhece mais como filho, Íris.

Bryan fez força com os músculos da face para não chorar ali mesmo. Eu percebi isso pela forma como ele inclinou a cabeça e mexia nos lábios. Uma troca de olhares se estendeu. Como ele tivesse vergonha de mostrar isso para mim, ele correu.

– Bryan – eu o observei querer se esconder pelo apartamento e fui atrás dele – Eu estarei com você, até você conseguir andar bem sozinho. Não sou sua mãe, mas posso ser sua amiga, tudo bem?

Na lavanderia, ele saiu de perto da máquina lavadora de roupas e me abraçou de repente. Fazia algum tempo que eu não abraçava alguém, então eu tremi um pouco de surpresa e pela falta de costume. Mas sabendo que talvez ele precisasse só de um ombro amigo para chorar, eu o deixei fazer cair suas lágrimas em mim.

Para nós dois, o contato pelo abraço fez nossos corações se acalmarem.

FIM DA HISTÓRIA CURTA.

 


Encontre

Filme | Conto

 

Criado e Escrito por:

Luciana Fernandes

 

Elenco:

Íris Salvador  (Michelle Olvera)

Thalita (Kayla Maisonet)

Bryan (Josh Richard)

Paulo Cézar (Griffin Gluck)

Dra. Kathleen (Alice Braga)

 

Rajax © 2021



setembro 21, 2021

Encontre | Sinopse

por , em


Escrito por Luciana Fernandes

Um conto original Rajax

 

Uma jovem mulher solitária, Íris, está em um prédio de Manaus. Ela faz observações da vida em meio a quarentena de 2020. Enquanto isso, a garota fica sabendo de uma amiga bastante querida que morreu devido a doença pandêmica. No fim de 2020, a jovem mulher tem diante da porta um jovem homem, Bryan. O rapaz é filho de uma mulher do prédio. Íris desenvolve simpatia por ele.

 

A história curta é contada pelo ponto de vista de uma jovem manauara de 22 anos, a escritora de poemas Íris Salvador. Ela é alguém que se adaptou a ficar sozinha, contando só com uma pessoa, uma amiga chamada Thalita, após a morte de seu pai, que era um cara rico e deixou uma herança para ela. Depois de um acontecimento com Thalita, Íris encontra um rapaz no seu prédio.

 

PERSONAGENS:

 

ÍRIS SALVADOR (Michelle Olvera)

THALITA (Kayla Maisonet)

BRYAN (Josh Richard)

PAULO CÉSAR (Griffin Gluck)

DRA. KATHLEEN (Alice Braga)



abril 21, 2021

Depois do Amor | Sessão Rajax

por , em



SINOPSE

Uma mulher de meia idade se vê em meio a uma crise no casamento, mas vê em um rapaz mais novo a paixão que há muito tempo não sentia. Enfrentando o preconceito da sociedade devido a diferença de idade, ela vai mostrar que a vida não termina quando você chega aos 50 anos.

 

PERSONAGENS DESTE FILME

CAROLINA - MALU MADER

VICENTE - BRUNO FERRARI

ALBERTO - MARCOS PALMEIRA

REGINA - SELMA EGREI



DEPOIS DO AMOR

Escrito por Gabriel Martins

 


CAROLINA (NARRAÇÃO) - Hoje eu decidi tomar uma decisão que mudará para sempre o rumo da minha vida… vou pedir o divórcio. Há anos meu casamento se acabou, a única coisa em que eu e meu esposo compartilhamos são as brigas. O amor? Ah, ele se acabou. Agora o que eu quero é descobrir o que vem depois do amor

CENA 01 / APARTAMENTO DE CAROLINA E ALBERTO / INTERIOR / SALA / NOITE.

Alberto chega do trabalho. Carolina o espera com as malas feitas. Ele então pergunta:

ALBERTO - Que malas são essas?

CAROLINA - São minhas. Eu decidi que é hora de darmos um tempo.

ALBERTO - Você quer se separar de mim? É isso?

CAROLINA - Ah Alberto, é. É sim. Do jeito que as coisas andam, é o melhor a se fazer.

ALBERTO - Como assim do jeito que as coisas andam, Carolina? Eu não estou lhe entendendo… não há nada de errado com o nosso casamento. Para de querer achar coisa onde não tem.

CAROLINA - Para você de querer tapar o sol com a peneira Alerto. Será que você não vê que o nosso casamento esta desmoronando cada vez mas? Todos os dias a gente briga. Nós não conseguimos nem fazer sequer uma refeição juntos sem brigar. O nosso casamento acabou, e você precisa aceitar isso de uma vez.

ALBERTO – Não. Eu não vou aceitar, porque eu sei que não acabou. Não pode acabar assim… tantos anos juntos jogados fora? E tudo por causa de um desentendimento?

CAROLINA – Não. Não foi um desentendimento, foram vários. Não tenta diminuir o tamanho do problema, Alberto. 

ALBERTO - Tá Carolina. Tá bom… eu posso não ter sido o melhor marido do mundo pra você, mas por favor: Vamos tentar mais uma vez. Não podemos simplesmente nos entregar assim de bandeja.

CAROLINA - Nós já entregamos Alberto, só você que não vê. Eu tentei sim dar um jeito nessa situação. Você pensa que é fácil pra mim abrir mão de tantos anos de história? Não, não é.

ALBERTO - Carolina, vamos tentar novamente. Eu e você, juntos.

CAROLINA – Não. Eu não quero mais. Eu já cheguei no meu limite e vou querer o divórcio Alberto. E para de me fazer tentar mudar de ideia, porque eu não vou voltar atrás.

ALBERTO - Tá bom, se você prefere assim tudo bem. Mas eu prefiro que eu saia. Não é justo você ir.

CAROLINA - Não Alberto. Muito obrigada, mais eu prefiro ir. Eu não conseguiria ficar aqui, sozinha relembrando o passado.

ALBERTO - Tá bom. Obrigado. Mas pensa no que eu te falei. Por favor! Não vamos deixar nosso casamento morrer assim, dessa maneira.

Ela sai.



CENA 02 / CASA DE REGINA / INTERIOR / COZINHA / DIA.

REGINA - Como assim se separar, minha filha? Seu casamento é perfeito. Você tem um marido fiel, uma vida confortável. Eu não entendo… pra que se separar?

CAROLINA - Por favor, né mãe. Você queria o que? Que eu ficasse em um casamento infeliz por causa de

conforto? Eu pedi o divórcio porque meu casamento acabou, caiu na rotina. A única coisa que eu e o Alberto fazíamos era: brigar, brigar e brigar. 

REGINA – Filha… brigas passam. Você tem que dar uma chance a ele.

CAROLINA - E eu não dei? Durante todos esses anos eu fui empurrando meu casamento pela barriga. Eu me sacrificava pensando que aquela situação um dia iria mudar. Mas o que acontecia? Nada! O Alberto não foi sequer capaz de notar que nosso casamento estava cada vez mais afundando.

REGINA - Filha...

CAROLINA - Não mãe. Eu não vou voltar atrás. Agora eu quero aproveitar a minha liberdade, voltar a pintar, a me dedicar ao que eu realmente gosto.

Alguns meses depois... 

CENA 03 / MUSEU DE ARTES DE SÃO PAULO / INTERIOR / DIA.

 

Carolina participa de sua primeira exposição, em um museu. Ela mal sabe que lá vai conhecer Vicente, um jovem rapaz, também pintor que se apaixonará por ela.
Carolina organiza seus quadros. Ela diz para si:

CAROLINA - Será que vão gostar?

Vicente a olha de longe.

VICENTE – Se aproximando - Seus quadros são lindos.

CAROLINA - Obrigada. Fico feliz que tenha gostado.

VICENTE -  Mas nenhum desses quadros é mais lindo que a pintora.

CAROLINA – Sorri - Para hein… assim eu fico sem graça.

VICENTE - Sem graça porque? É a verdade. Agora eu posso saber como se chama a artista?

CAROLINA - Me chamo Carolina Ribeiro. Muito prazer!


VICENTE - Me chamo Vicente Gomes. O prazer é todo meu!

CAROLINA - Então Vicente, você também pinta?

VICENTE – Sim, eu pinto. Faço quadros retratando a arte corporal.

CAROLINA - Sério? Acho tão lindo essa expressão de arte.

VICENTE - Pois é. Mas pena que nem todo mundo pensa assim.

CAROLINA - Pois é, tenho acompanhado a polêmica. Mas um dia esse pessoal vai se dar conta que a arte transforma.

VICENTE - Bom, eu só espero que seja rápido. Mas vem cá: Você vai fazer alguma coisa hoje à noite?

CAROLINA - Pera aí… deixa eu ver se entendi. Você tá me chamando pra sair?

VICENTE – Sim. Porque, algum problema?

CAROLINA – Não. É que… Olha a sua idade e olha a minha. Desculpa, mas não vai rolar.

VICENTE - Eu não acredito. Você tá me dispensando por causa da minha idade? Eu pensei que você fosse mais mente aberta.

CAROLINA - É que eu acabei de sair de uma relação conturbada. Não tenho cabeça pra pensar nisso agora.

VICENTE - Me dá uma chance. Eu não estou dizendo que quero sexo ou qualquer outra coisa com você. Eu quero sair, conversar; só isso. Não é nada demais. vai, me dá uma chance. Deixa de lado esse preconceito bobo. Quem manda na nossas vidas somos nós, não é a sociedade.

CAROLINA - Ah, quer saber… eu vou. É até bom que eu me distraio um pouco.

VICENTE - Isso mesmo, erga essa cabeça. Me passa seu numero pra mim te ligar e marcar tudo.

CAROLINA - Tá bom.

ANOITECE...

CENA 04 / BOATE / INTERIOR / NOITE.

CAROLINA - Quando eu cheguei aqui e vi que era uma balada, eu não acreditei.

VICENTE - Porque?

CAROLINA - Ah, você sabe né… quem frequenta baladas geralmente são jovens, e eu já tô passada da idade de frequentar isso aqui.

VICENTE - Ah para. De novo com esse papo? Você é linda, independente. – Olha nos olhos dela – Você não tem que ter vergonha de nada.

CAROLINA - Eu vou acabar acreditando, hein... Olha lá.

VICENTE – Vem! Vamos dançar!

CAROLINA – Eu vou ficar morrendo de vergonha.

Ele puxa ela para a pista, e os dois dançam.

VICENTE - Sabe? Você fica ainda mais bonita sorrindo.

CAROLINA – Sorri - Você também.

Os dois se aproximam. O clima começa a se esquentar, e fica difícil resistir. Os dois se beijam. Carolina após beijar Vicente sai correndo para a rua. Ele vai atrás.

CENA 05 / RUA / EXTERIOR / NOITE.

VICENTE - Espera!

Ela para:

VICENTE - Porque você fugiu de mim?

CAROLINA - Eu não devia ter te beijado, não é certo.


VICENTE - Porque?


CAROLINA - Olha a minha idade.

Ele interrompe:

VICENTE – Não. Você não vai usar mais uma vez a sua idade como desculpa. Eu já disse: eu te quero do jeito que você é. Não se vitimize. Você é linda, e se você quiser eu quero ser seu.

CAROLINA - Eu também quero. Mas o que os outros vão pensar?

VICENTE - Não importa o que os outros vão pensar. A vida é nossa. Eu não vou abrir mão de viver uma história de amor incrível por causa de comentários de terceiros. Se você realmente me quer, eu te peço: Se entrega a essa paixão. Se entrega que você não vai se arrepender.

Eles se beijam.

VICENTE - Vamos pra minha casa.

CENA 06 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / QUARTO / NOITE.

Carolina e Vicente transam.

Amanhece...

VICENTE – Então… Foi ruim?

CAROLINA - Foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos, faz anos que eu não sei o que é isso. Não foi só sexo, foi algo mais, eu acho que foi amor...

VICENTE - Eu vou preparar um café pra nós.

Um tempo depois...

CAROLINA - Hum, esse café tá uma delícia.

VICENTE - Que bom que gostou.

 

CAROLINA - Olha Vicente, eu quero te perguntar.

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Foi só uma noite? Ou não?

VICENTE - Claro que não, como você pode me perguntar isso? Eu já deixei claro que te quero para mais de uma noite, te quero para todas as noites e dias, pelo resto da minha vida. Isso se você me aceitar, é claro.

CAROLINA - É claro que eu aceito. Me perdoe, é que eu sou mesmo insegura, eu tenho medo de me machucar.

Eles se beijam.

CAROLINA - Eu já vou indo.

VICENTE - Já?

CAROLINA - Eu tenho que ir mesmo, se eu pudesse eu ficava aqui o dia todo.

VICENTE - Vem aqui mais tarde.

CAROLINA - Tá, eu venho!

CENA 07 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / DIA.

Regina conversa com Alberto pelo telefone:

REGINA - Meu querido, eu te peço, não desista da Carolina, Eela não sabe o que fez. A crise logo vai passar, todo casal tem crise, isso é normal, e quando elas passam o casamento retorna muito melhor, você vai ver.

ALBERTO - Eu não sei dona Regina, a Carolina parecia estar muito confiante de que era isso mesmo o que ela queria.

REGINA - É bobagem, isso é coisa da cabeça dela. Fica tranquilo que eu vou dar um jeito de fazer a cabeça dela, você vai ver… logo, logo vocês vão estar juntos.

Ela ouve um barulho no portão, e diz:

 

REGINA - Vou desligar, ela chegou.

Ela desliga o telefone, Carolina entra na casa:

CAROLINA - Bom dia!

REGINA - Bom dia para a senhora também. Mas onde você se meteu? Passou a madrugada toda fora de casa… Filha, você não foi atrás de homem? Me diga que não!

CAROLINA - Ai mãe, mal cheguei e você já me vem com sermão? Eu já sou adulta até demais, a senhora não acha não? Já tenho 50 anos...

REGINA - Não me enrola filha. Diga logo de uma vez!

CAROLINA - Tá bom, eu vou contar. Uma hora ou outra a senhora iria ficar sabendo mesmo…

REGINA – Desembucha.

CAROLINA - Eu conheci um rapaz. Lembra daquela exposição que eu participei no Museu? Então... Naquele dia um rapaz veio puxar papo comigo, a gente foi ficando próximos, e ontem saímos para nos divertir, e acabou rolando.

REGINA - Eu não acredito minha filha. Eu não acredito que você foi capaz de trair o Alberto na primeira oportunidade que apareceu.

CAROLINA - Oi? Trair o Alberto? Eu não tenho mais nada com ele. Como vou trair alguém que nem compromisso eu tenho mais?

REGINA - Como não tem nada? Um casamento de anos não significa mais nada pra você?

CAROLINA - Quantas vezes eu tenho que te dizer que meu casamento acabou? Aceita logo de uma vez! E outra, eu tenho o direito de recomeçar minha vida com quem eu quiser, a hora que eu quiser.

REGINA - Eu já vi que você não vai querer me ouvir.

CAROLINA - Não, eu não vou querer mesmo.
REGINA - Só me diz uma coisa. Você disse que está namorando um rapaz, ele é rapaz mesmo? Ou foi só maneira de dizer?

CAROLINA - Sim, ele é rapaz mesmo. Ele tem 28 anos!

REGINA - Eu não acredito. Que sandice é essa minha filha? Onde já se viu, uma mulher de cinquenta anos como você namorar um rapazote? Você não tem noção do ridículo não, minha filha?

CAROLINA - Eu amo ele!

REGINA - Ama? Você nem sabe o que é amor minha filha, se soubesse não teria se separado do seu marido!

CAROLINA - Eu sei, tanto sei que me separei. Divórcio não significa nada, o amor vem e vai, a senhora que não deve saber o que é amor, não é?

REGINA - Já chega. E se esse rapaz tiver de olho no seu dinheiro?

CAROLINA - Não, ele não está, ele tem dinheiro o suficiente, até mais que eu, eu vi o apartamento dele e sei que é de gente rica.

REGINA - Eu não confio. Eu não consigo acreditar nessa relação.

CAROLINA - Eu também não acreditava. No começo eu tinha medo, achava ridículo uma mulher da minha idade ficar com um rapaz tão novo. Ainda estou me acostumando, mas eu sei que é real, eu vejo a certeza nele, e confio plenamente. A senhora vai ver que é verdade. Eu não vou deixar de viver uma história linda por sua causa ou por causa do Alberto!

REGINA - Meu Deus…

CAROLINA - Eu vou tomar uma ducha.

Regina fica sozinha, ela então liga para Alberto e conta tudo sobre Vicente:

ALBERTO - Um rapaz? Me trocou por um rapaz?

REGINA - Sim, pra você ver...

ALBERTO - Eu vou aí. Vou conversar com a Carolina.

REGINA - Vem meu filho. Pelo amor de Deus, vê se ponha um pouco de juízo na cabeça dela.

CENA 08 / CASA DE REGINA / EXTERIOR / NOITE.

Carolina está de saída, mas Alberto vem em sua direção para falar com ela:

ALBERTO - Carolina!

CAROLINA - O que você está fazendo aqui? 

ALBERTO - Vim conversar com você. Fiquei sabendo que você está se envolvendo com um rapaz. 

CAROLINA - Foi minha mãe quem te contou? Não foi?

ALBERTO - Sim, foi ela.

CAROLINA - Ela não tinha esse direito.

ALBERTO - Sua mãe se preocupa com você, e eu também. Você não vê o perigo que está correndo?

CAROLINA - Oi? Perigo? Você e minha mãe só podem estar de brincadeira mesmo… Eu não estou correndo perigo nenhum, o Vicente é uma pessoa digna, muito responsável. Parem de criar caraminholas na cabeça de vocês e vê se me deixem em paz.

ALBERTO - E você acha mesmo que um rapaz se interessaria por uma mulher mais velha? Ele deve estar de olho em seu dinheiro.

CAROLINA - Para Alberto. Já chega! Ele tem condições de vida muito melhores que a minha, e você sabe que eu não tenho dinheiro algum. Eu nunca trabalhei, sempre me dediquei ao lar, somente agora que estou conseguindo a minha independência financeira. Se seu objetivo era me fazer desistir, você caiu do cavalo. Boa noite!

Ela sai.


CENA 09 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / NOITE.

Carolina conta a Vicente que sua mãe e Alberto querem que ela desista dele:

VICENTE - Eu não acredito. Seu ex marido eu até entendo, ele deve estar abalado com o divórcio. Mas sua mãe? Ela deveria ser a primeira a ficar feliz por você.

CAROLINA – Pois é, pra eles você só está interessado no meu dinheiro. Aliás dinheiro este que nem tenho muito. Você tem condições de vida muito melhores que as minha.

VICENTE - Nem me fale…

CAROLINA - Porque? Algum problema?

VICENTE - Você vai se casar comigo, então eu tenho que te contar.

CAROLINA - Vou?

VICENTE – Ri - É claro que vai!

CAROLINA - Ri - convencido. Mas então, me diga. O que iria dizer?

VICENTE - Essa vida luxuosa que eu tenho não me orgulha muito. Esse apartamento é um dos empreendimentos de meu pai, ele é dono de uma construtora. O meu pai é um criminoso!

CAROLINA - Como assim? Me conte melhor, eu não estou entendendo!

VICENTE - Meu pai é um homem muito influente, sempre teve amigos poderosos e ricos, graças a eles que a empresa da minha família sempre vencia as licitações de obras públicas pelo país afora. E meu pai ajuda esses políticos a superfaturar obras e a desviar dinheiro público. 
CAROLINA - Meu Deus, Vicente, isso é muito grave.

VICENTE - Sim, eu sei que é duro, mas é a verdade. E o pior é que eu sei de tudo isso mas não tenho coragem de ir até a polícia e contar tudo o que sei.

CAROLINA - Eu te entendo, é seu pai.

VICENTE - Sim, mas isso vai contra todos os ideais que eu prego e acredito e, é justamente por isso que eu me afastei de meu pai, eu e ele brigamos, não nos damos bem hoje em dia.

CAROLINA - Meu amor, eu não poderia imaginar que você vive tudo isso.

VICENTE - Eu quero denunciar meu pai.

CAROLINA - Tem certeza?

VICENTE – Tenho.

CAROLINA - Eu vou estar com você, seja forte!

VICENTE – Obrigado.

Um dia depois…

CENA 10 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

Vicente e Carolina chegam da delegacia:

VICENTE - Obrigado por ter ido me acompanhar, foi duro para mim, mas de certa forma sua presença me aliviou.

CAROLINA - Imagina, não há o que agradecer.

VICENTE - Só estou com medo da reação dos meus pais quando souberem que eu os denunciei.

CAROLINA - A denúncia é anônima, eles não saberão quem foi.

VICENTE - Eles saberão sim. Há coisas que eu disse lá que só eu sabia.

CAROLINA - Você não tem que ter medo, você tem que ter a consciência de que fez a coisa certa. Quem tem que ter medo e vergonha são eles, eles é que desviaram dinheiro. Você é um rapaz honesto, lindo e íntegro. Saiba que hoje você me encheu de orgulho mais uma vez. 

VICENTE - Agora com suas palavras, sinto-me mais confortável.

CAROLINA - Isso meu amor.

VICENTE - Vem!

CAROLINA - Pra onde?

VICENTE - Para o meu estúdio. Eu quero te pintar!

Ela vai:

CENA 11 / ESTÚDIO DE VICENTE / INTERIOR / DIA.

VICENTE - Tira a roupa!

CAROLINA - Você quer me pintar nua?

VICENTE - Sim, algum problema?

CAROLINA - Nenhum.

VICENTE - Então vem logo!

Ela tira as roupas e posa para ele que a pinta.

CAROLINA - Sabe, muitas pessoas consideram o ato de ficar pelados vulgar… 

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Mas eu acho tão lindo, o nosso corpo é perfeito, é belo.

VICENTE - O nù, o sexo não são nada vulgar. As pessoas é que transformam algo natural em vulgaridade.

CAROLINA - Sim.

VICENTE - Muitas pessoas riem, sentem nojo e até mesmo repudiam o sexo, mas o sexo é a coisa mais linda que existe, o sexo traz à vida, somos todos frutos do sexo. Não deveríamos repudiar algo lindo, vital e que nos dá muito prazer.

CAROLINA - Ah meu amor, as pessoas complicam demais a vida. Com seus pudores, que as vezes não passam de meras máscaras que tampam a verdade, ou com regras religiosas sem fundamento algum.

VICENTE - Mas chega de falar das pessoas. Vamos falar de nós.

CAROLINA - Sim – risos.

Eles se beijam e transam.

Dias depois…

CENA 12 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

CAROLINA - Vicente, lembra que eu aceitei vir morar com você?

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Mas antes eu quero que você conheça minha mãe.

VICENTE - Tem certeza meu amor?

CAROLINA - Claro! Você tá com medo?

VICENTE - Sim. Confesso que estou, ainda mas depois de tudo o que você me disse sobre ela não me querer ao seu lado.

CAROLINA - Eu sei, eu te entendo, mas saiba que ela não vai me convencer a te deixar. Eu só quero que vocês se conheçam, e quem sabe possam se entender. Vai, faz isso por mim!

VICENTE - Tá bom, por você eu faço!

CENA 13 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / NOITE.

Carolina entra:
CAROLINA - Mãe, eu vim pegar minhas coisas.

REGINA - Vai mesmo morar com aquele rapaz? Nem mesmo se casou e já vai juntar as escovas de dentes? Sinceramente minha filha...

CAROLINA - Sim, eu vou mãe, e saiba que casamento não é uma coisa que não os interessa por agora. Ele está aqui. Entre Vicente!

Ele entra na casa. Regina fica sem reação:

VICENTE - Boa noite!

REGINA – Tensa - Boa noite!

VICENTE - É um prazer lhe conhecer, sua filha me falou muito de você.

REGINA - Desconfortável - É mesmo? Fico feliz por vocês.

CAROLINA - Amor, vai levando essas caixas para o carro por favor!

VICENTE - Sim.

Ela puxa a mãe para o canto:

CAROLINA - Poxa mãe, a senhora poderia pelo menos disfarçar que não esta desconfortável.

REGINA - Tá bom minha filha, eu vou tentar. Você sabe que eu não fui com a cara desse rapaz, mas por você eu vou tentar.

CAROLINA - Obrigada.

Um tempinho depois…

REGINA - Minha filha, Vicente. Eu queria que vocês viessem almoçar aqui qualquer dia desses.

VICENTE - Tá bem, nós aceitamos.

CAROLINA - Tchau mãe!

REGINA - Vai com Deus minha filha!

CENA 14 / CARRO / INTERIOR / NOITE.

VICENTE - Sua mãe ficou bem desconfortável.

CAROLINA - Pois é. Mas eu acho que desta vez ela entendeu que minha escolha não tem volta.

Amanhece…

CENA 15 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / DIA.

Regina recebe Alberto em sua casa:

REGINA - Ah meu filho, ontem a Carolina veio pegar as coisas dela aqui, e o rapaz veio junto.

ALBERTO - É parece que ela esta mesmo decidida a se casar com esse rapaz.

REGINA - Casar? – Risos - Que casar que nada, ela me disse que o casamento não esta nos planos deles. Só querem mesmo é se juntar.

ALBERTO - Sabe dona Regina, eu acho que é melhor eu me afastar da Carolina, ela já disse com todas as letras que não quer mas nada comigo.

REGINA - Desistir? Assim, Tão fácil?

ALBERTO - Dona Regina, eu não posso obrigar a Carolina a me amar.Se ela não me ama e não me quer mas, o que eu posso fazer? Eu não vou obrigar ela a me amar, eu não tenho esse direito. O melhor mesmo é nos separarmos. Agora ela já tem esse rapaz, as coisas ficaram difíceis pra mim. Agora que ela tem um novo amor, ela não voltará a pensar em mim. Eu tenho que aceitar isso, e a senhora também.

REGINA - Eu não consigo, eu não consigo aceitar, não consigo engolir isso.

ALBERTO - Tente, é a felicidade de sua filha que está em jogo. Eu vou dar o divórcio a ela, se ela um dia se arrepender eu estarei a esperando, de braços abertos.

Dias depois…

CENA 16 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / NOITE.

CAROLINA - É amanhã, nem acredito!

VICENTE - Amanhã você ficará livre para recomeçar sua vida de vez.

Amanhece…

CENA 17 / CARTÓRIO / INTERIOR / DIA.

Carolina e Alberto assinam o divórcio:

ALBERTO - Bom, agora finalmente você se livrou de mim.

CAROLINA - Não, não diga isso. Eu não quero me livrar de você, eu só queria me separar. Alberto, eu quero muito continuar a ter você em minha vida, só que agora como amigo. Você aceita?


ALBERTO - É claro!

CAROLINA - Me dá um abraço!

Eles se abraçam:

CAROLINA - Obrigada, eu fui muito feliz ao seu lado, eu nunca vou esquecer todos os momentos bons que a gente viveu. Só que agora eu vou começar um novo ciclo na minha vida, mas eu nunca vou te esquecer, e de certa forma eu ainda te amo.

CENA 18 / APARTAMENTO  DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

VICENTE - O que acha de irmos almoçar na casa de sua mãe?

CAROLINA - Ótimo!

VICENTE - Então vamos.

CENA 19 / CASA DE REGINA / INTERIOR / COZINHA / DIA.

 

Eles almoçam:

REGINA - Sabe minha filha, eu fico muito feliz por você, eu vejo que você tá muito feliz, e é isso o que importa. Eu andei conversando com um amigo, e ele me abriu os olhos. Eu tenho que te apoiar acima de tudo.

CAROLINA – Ah mãe, fico tão feliz que a senhora nos entendeu e aceitou nossa relação. Estou muio feliz.

REGINA - E quando a você Vicente, eu duvidei de sua honestidade e de seu amor por minha filha. Mas lhe peço desculpas, eu julguei sem conhecer, disse sem saber, minha filha é mulher, é adulta, sabe ter sua próprias decisões, e ela acertou em cheio. Você é um homem muito valoroso, e fará minha filha feliz, eu tenho certeza. 

VICENTE - Sim dona Regina, que bom que nos entendemos. Isso é o que importa, o que dissemos, ou fizemos no passado, fica no passado.

REGINA - Sim.


Eles se abraçam:

CAROLINA - Vamos indo mãe, queremos passear no Ibirapuera.

REGINA - Vão com Deus!

CENA 20 / PARQUE DO IBIRAPUERA / EXTERIOR / DIA.

Carolina e Vicente caminham pelo parque:

CAROLINA - Sabe, agora as coisas finalmente entraram-se nos eixos.

VICENTE - Pois é.

CAROLINA - Eu estou tão feliz,que nem sei se mereço.

VICENTE - É claro que merece. Você é uma mulher forte, guerreira, batalhadora e linda. É uma mulher de verdade!


CAROLINA - Modéstia à parte, mas eu sou mesmo! -risos.

Eles se beijam!

CAROLINA (NARRAÇÃO) - Agora eu descobri o que vem depois do amor. Vem mais amor, porque ele nunca acaba. Nunca é tarde para amar, não há sexo, cor, e nem idade. O que há é: simplesmente amor.

FIM.


abril 14, 2021

Amor em Tempos Modernos | Sessão Rajax

por , em


SINOPSE

Melody Grey, sempre foi uma mulher moderna, porém ligada a velhos costumes. Após ser promovida no trabalho, ela decide escrever sua nova matéria em sua cidade natal, onde cresceu ao lado do seu único e verdadeiro amor de infância, que agora está prestes a se casar. E quando se reencontram, Melody se dá conta de quem sempre o amou e de que ele é o grande amor da sua vida. Mas e agora? Será tarde demais para viver esse amor?

 

AMOR EM TEMPOS MODERNOS

Escrito por Eduardo Moretti

 

“Tempos modernos, belezas de concreto. E o que há de concreto neste mundo moderno? E se o amor que está bem perto for incerto? Tempos modernos, belezas de concreto. Amor Em Tempos Modernos.”

Josyas

*****

Manhattan, Nova York

O sol estava radiante lá fora como de costume entre os altos e belos edifícios da cidade que fica no centro de NY. – Com o amanhecer, grande parte da população já estava nas ruas indo para os seus trabalhos e correndo atrás dos seus sonhos, e com ela não era diferente.

 

Do alto do seu apartamento no oitavo andar, sentada de frente para o seu notebook, ela escrevia todas as manhãs tomando seu café expresso, antes de sua corrida matinal. Redatora-chefe do caderno de relacionamentos da revista “American Woman”; ela havia sido promovida há dois meses e estava adorando sua nova função, que para ela vinha com um precioso bônus: Dar voz a tudo que sentia, pensava e principalmente a tudo que estava dentro do seu coração. Seu único problema tinha um nome: Miranda Miller! A presidente da revista mais vendida do país, que às vezes mais parecia ter uma calculadora no lugar do coração, pois só pensava em números e vendas.

 

“Estresse, correria, falta de tempo! Vivemos num mundo em que tudo gira em torno da modernidade e da tecnologia. Tudo se resolve com um clique. Basta enviar um e-mail, mandar uma mensagem ou até mesmo conversar e resolver todo e qualquer tipo de assunto através das redes sociais, sejam eles profissionais ou pessoais. E com isso nos enganamos cada vez mais achando que estamos ganhando tempo. Eu concordo que, para o mundo dos negócios, pode até ser vantajoso usar todas essas ferramentas, mas e nos relacionamentos interpessoais? Eu vejo pessoas namorando por mensagens e aplicativos, amigos combinando de ir ao cinema, shoppings, restaurantes, porém quando estão juntos de verdade, eles continuam se relacionando mesmo é com o seu smartphone. Uma triste realidade para mim, que sempre valorizei e ainda valorizo o tête-à-tête. Tudo depois da tecnologia ficou mais frio, mecânico e sem graça. E o pior de tudo isso é que ninguém parece se dar conta ou querer mudar esse fato. Relacionamentos são importantes. O olho no olho, os sorrisos, as conversas inteligentes ou descontraídas e informais, nisso sim, que todos deveriam dar valor, e não em aparelhos. O que eu fico só me perguntando é o seguinte: E se tudo isso acabasse um dia? Sei lá, se de repente você acordasse e nada mais de tecnológico ou moderno tivesse lá ou existisse. Para os braços de quem você correria? E você ainda saberia como viver os relacionamentos? Estresse, correria, falta de tempo, amizades desfeitas, amores perdidos... Solidão. Às vezes nós nem percebemos o quanto estamos sozinhos, vivendo nesse mundo cibernético de ilusões. Porque na grande maioria das vezes, não é a falta de tempo o grande pivô de tudo, mas sim a de prioridade. Pois quando se quer de verdade e se está comprometido com a causa, temos tempo para tudo que priorizarmos.”

(Melody Grey)

*****

 

Depois de dar um enter e enviar o seu pensamento do dia para a página da revista na internet, Melody se levantou ainda vestindo uma blusa longa do namorado e, apenas de calcinha e cabelos presos, ela ligou o seu aparelho de som e a canção “Hot N’ Cold” de Katy Perry começou a tocar. – Ela então terminou de tomar o seu café e começou a dançar feito louca. Em seguida, abrindo o seu closet, ela vestiu sua calça de nylon preta e um casaco azul por cima de uma camiseta, já que fazia frio naquela época do ano, e calçou o tênis. Em seguida, ela prendeu os cabelos novamente, desligou o som, pegou o seu smartphone já com os fones de ouvido conectados e saiu batendo a porta.

 

*****

 

E foi correndo pelo Central Park, que ela recebeu uma mensagem do namorado em seu celular. Aos poucos Melody foi diminuindo o ritmo até parar para ler, tirando um dos fones do ouvido.

*Pocketful of Sunshine – Natasha Bedingfield

“Oi... Tudo bem? Olha só, eu não sei como te dizer isso, na verdade eu nunca fui muito bom com as palavras. Então eu resolvi dizer tudo por mensagem mesmo. Eu decidi que não está dando mais pra mim, e tem as suas cobranças também, enfim... Eu estou terminando o nosso namoro. Espero que você entenda e que não fique chateada comigo. Seja feliz, adeus...” Eric.

Melody de início ficou estática, sem reação. – Como ele poderia estar terminando tudo com ela através de uma mensagem de texto? – pensou.

Um senhor que vinha passeando com o seu cachorrinho de encontro a ela, parou para que o bichinho fizesse suas necessidades fisiológicas, e enquanto ele esperava, Melody voltou a si, já surtando.

- Seu cretino idiota! Isso é coisa que se faça? – gritou na direção do velhinho, que se assustou e ficou sem graça.

- Me... Me desculpe senhorita. Mas eu trouxe o sa... sa... quinho e já ia recolher. – disse gaguejando.

Só então Melody se deu conta do show que dera em pleno Central Park cheio de pessoas passando e que olharam torto para ela, por causa do velhinho que não tinha culpa de nada.

- Tudo bem, senhor. Eu é que peço desculpas, a minha bronca foi com outra pessoa e não com o senhor, nem com o seu totó. E muito menos com o... – disse tentando escolher a palavra certa. – O... número dois dele. Então... Tenha um bom dia.

Melody então sem graça deu meia volta e seguiu direto para casa, afinal ela ainda tinha que tomar uma ducha, se trocar e ir para a revista, pois Miranda Miller não tolerava atrasos. – E ela não conseguia parar de pensar em como aquele dia já estava começando mal.

 

*****

 

Na redação da revista American Woman, todos já estavam trabalhando na nova edição. Melody chegou apressada e foi até a mesa de sua melhor amiga Rachel para se atualizar das últimas fofocas.

- Bom dia, Rachel. E aí quais as novidades? - perguntou se sentando em cima da mesa.

- Bom dia pra quem? Só se for pra você. O furacão Miller está prestes a chegar. A mulher já ligou cedo pra minha casa e ordenou que eu agendasse uma reunião para hoje à tarde com toda equipe. E ela estava uma fera no telefone. – disse enquanto digitava as pautas da reunião.

- Que droga! Já vi que hoje definitivamente não é o meu dia. – disse Melody cabisbaixa.

- Nossa, que cara amiga. Aconteceu alguma coisa? Aproveita pra desabafar que a gente ainda tem cinco minutos antes daquele elevador se abrir e o furacão com a sua linda bolsa Louis Vuitton passar por nós.

- É o Eric. Você acredita que ele teve a coragem de terminar tudo comigo através de uma mensagem de texto? Eu não estou acreditando nisso até agora.

Rachel começou a rir descontroladamente, enquanto Melody olhava para ela séria.

- Não. Me desculpe. Mas é que é muito engraçado. – disse rindo. – Justo com você, a mulher que odeia qualquer tipo de comunicação que não seja feita pessoalmente e olho no olho? Essa foi demais, amiga. Tudo bem, eu já entendi a sua cara fechada, eu prometo não rir mais dessa história. O que acha da gente sair hoje à noite pra beber todas? Você está precisando, e confesso que eu também. – sugeriu Rachel.

- Eu não estou a fim, prefiro ficar em casa e beber sozinha. – disse Melody desanimada.

- Você é quem sabe, mas a solidão adora companhia e por isso eu vou beber com você na sua casa, você querendo ou não. Eu levo uma garrafa de tequila.

- Por mim, tudo bem.

- Ah, eu já ia me esquecendo... Chegou uma carta pra você. – disse abrindo a gaveta. – Toma. Será que você é capaz de adivinhar de quem seja? – perguntou sorrindo com ar de mistério, enquanto arqueava sua sobrancelha esquerda.

- Claro. Só pode ser do Toby. – disse entusiasmada e começando a abrir o envelope.

- Sério, eu não sei como vocês dois conseguem em pleno século vinte e um com toda tecnologia a nosso favor, ainda se corresponderem por cartas? Vocês sabem que hoje em dia já existe telefone, internet, e-mail, redes sociais... Eu definitivamente não saberia mais viver sem essas coisas.

- Pois eu sim. Eu e o Toby desde crianças, quando morávamos em Portland, sempre nos correspondemos por carta, mesmo morando um do lado do outro. Era o nosso tipo de conexão sabe? De algum modo nós sabíamos que cada palavra naquele papel tinha sido escrita com amor e verdade. E mesmo depois que eu decidi vir estudar e morar em Manhattan, nós continuamos com esse ritual. É como se, mesmo estando longe, as cartas nos aproximasse, entende? Cartas são especiais. De certa forma a gente escreve querendo estar perto; e quando a pessoa recebe essa carta, a sensação é exatamente essa... De estar sendo abraçada por essa pessoa. E vocês do mundo cibernético que ficaram todos mecânicos e não sabem mais apreciar o valor de um belo gesto?

- Nossa, que profundo. Me deu até sono. – disse bocejando.

Melody então começou a ler a carta com toda atenção e em voz baixa. E não demorou muito para que seus olhos se enchessem de lágrimas.

- O que foi que aconteceu? – perguntou Rachel preocupada. – Melody você está branca. Alguém morreu?

- O Toby vai se casar. – disse surpresa. – Ele está me convidando pro seu casamento. Não dá pra acreditar nisso... O Tobias Sheppard vai se casar. – disse pensativa.

- Sim, e daí? Por que o espanto?

Nesse momento, o boy da revista entrou rápido, avisando a todos:

- Pessoal... Todos a postos. Ela acabou de pegar o elevador e está subindo.

Todos então correram para suas mesas e ajeitaram tudo, começando a trabalhar concentrados. Melody foi para sua sala, enquanto Rachel pegou o café expresso de Miranda na cozinha.

O elevador se abriu, e Miranda Miller entrou séria e de nariz empinado como era de costume. - Vestindo um longo vestido preto, de salto quinze, um casaco de pele por cima, carregando a sua inseparável Louis Vuitton e de óculos escuros, Miranda entrou cheia de pose, enquanto Rachel ia ao seu encontro.

- Bom dia senhora, Miller. Eu já agendei a reunião para hoje às três da tarde e também já preparei as pautas a serem discutidas. Aqui está o seu café.

- Coloque aí em cima da minha mesa... No descanso de copo, não se esqueça. Eu detesto móveis manchados. – disse retirando o casaco e jogando para a secretária, que pegou, dobrou e o colocou no cabide no canto da sala.

- Agora saia. E eu não quero ser interrompida e nem atender ligações hoje. Fui clara? – perguntou intimidadora.

- Foi sim, senhora.

- E por favor, diz pra Melody vir até aqui agora que eu preciso falar com ela urgente.

Rachel foi correndo avisar à amiga que Miranda a estava chamando. - Quando Melody chegou à sala de sua chefe, ela estava sentada de costas para a funcionária em sua cadeira giratória, olhando a bela vista de Manhattan, através da enorme janela de vidro.

- Acha mesmo que eu não posso sentir daqui a sua respiração entrecortada e ofegante de medo, muito menos sentir o cheiro do seu perfume horrivelmente adocicado? – disparou Miranda, se virando para Melody. – Feche a porta e sente-se. Vamos, mulher, time is Money! Eu não tenho tempo para perder.

Melody então fechou a porta e logo em seguida sentou-se de frente para Miranda e já ia abrir a boca, quando foi interrompida.

- Calada. Você não diz nada, até eu dizer que você pode. – disse respirando fundo. – Ok, Miranda Miller, relaxa. Você consegue.

- A American Woman existe há décadas. O seu formato e conteúdo sempre agradou a gregos e troianos. Ela é hoje a revista mais vendida e respeitada do país. O seu site está entre os cinco mais acessados do gênero pelo nosso público alvo e fiel, predominantemente feminino. E tudo isso graças a mim, Miranda Miller. Agora tente adivinhar o meu espanto ao abrir o site hoje pela manhã e me deparar com um post que vai contra tudo o que a revista vende, e pior ainda... Vai contra a opinião de todas as mulheres do planeta. O que você está pretendendo senhorita Grey? Acabar com a minha revista?

- Eu não tenho interesse nenhum em acabar com a revista, fique tranqüila. Eu só estou sendo sincera e me comportando de acordo com o que eu penso e sinto. Depois eu sou uma jornalista, trabalho com a verdade e estaria desrespeitando nossas leitoras e a mim mesma senão houvesse verdade no que eu escrevo, você não acha?

- O que eu acho e o que realmente importa e está em questão aqui, é que a sua conduta ultimamente não tem me agradado nem um pouco, senhorita Grey. O seu comportamento feminista revolucionário e anti-social, pode me trazer sérios problemas futuramente. Mas você sempre foi uma boa jornalista, eu reconheço. Digo até que a melhor que eu já tive em trinta anos de carreira. Mas você não é mais a mesma, mudou, criou asas e vem batendo de frente com a nossa proposta e até mesmo comigo. Mas eu resolvi te dar uma última chance; aliás, uma grande oportunidade e foi por isso que eu a chamei aqui. A edição de Setembro da American Woman trará uma reportagem diferente e especial de capa, e eu escolhi você para fazer a matéria.

- O que? Mas por quê? – disse ainda atônita com a notícia, porém feliz, com a oportunidade. – Desculpa, senhora Miller, é que eu fiquei surpresa com a notícia. Eu sempre quis fazer a matéria de capa da revista. Eu já começo a pensar em mil e um assuntos que eu poderei escolher pra essa capa.

- Pois pode ir parando com essas suas ideias delirantes e geniais por aí... A capa já tem um título; fui eu mesma quem escolheu. Mas não precisa fazer essa cara, que eu acho que tem tudo a ver com você e com o seu post infeliz de hoje cedo no portal.

- E sobre o quê eu irei escrever? – perguntou curiosa.

- Amor Em Tempos Modernos. Não é sobre isso que se resume toda a sua indignação e revolta? Sobre as modernidades e tecnologias do século vinte e um? Pois então. Vamos ver o que mais você tem pra nos dizer sobre esse assunto, e como as nossas leitoras reagirão sobre isso. O fechamento da edição é em duas semanas, e no dia e hora marcados, eu quero todo material em cima da minha mesa. Ah... E eu não irei tolerar atrasos, fui clara?

- Claro. Em duas semanas a matéria estará na sua mesa, eu prometo. Só tem um problema, senhora Miller. O meu amigo de infância vai se casar dentro de alguns dias e eu quero ir ao casamento, que será em Portland.

- Eu não vejo problema nenhum nisso, senhorita Grey. Matérias podem ser escritas em qualquer lugar do mundo e o seu prazo é de duas semanas. Vá para Portland. Só não se esqueça do prazo. Agora por favor, saia e me deixe trabalhar, sim?

- Claro. Eu só queria dizer obrigada pela oportunidade, eu acho.

Melody saiu apressada da sala de Miranda e, quando fechou a porta, teve que se conter para não gritar e pular de alegria. Depois passou toda sorridente e feliz pela mesa de Rachel.

- Mas o que foi que aconteceu? Ninguém nunca saiu tão feliz assim de dentro da sala da megera... Eu exijo um pouco do que você fumou lá agora.

- Mudança de planos, amiga... Hoje nós vamos sair e beber todas! Te vejo ás nove no barzinho de sempre. – disse indo para sua sala toda feliz.

- Melody Grey, volta aqui agora. Eu falei sério quando disse que quero um pouco do que te deixou assim... Melody?

 

*****

 

No outro dia bem cedo, Melody pegou o avião rumo a Portland e na bagagem levou com ela o seu bloco de anotações e o notebook para começar escrever a matéria de capa. – Algumas horas depois, ela finalmente chegava ao seu destino e, ainda no aeroporto, ela viu Toby de longe segurando um papel com o seu nome escrito bem nítido e na cor rosa.

 

*Somewhere Only We Know - Keane

Quando foi chegando mais perto, Toby a reconheceu e abriu os braços para recebê-la. Melody então deixou o carrinho com a sua mala pelo caminho e correu para abraçar o seu melhor amigo que ela já não via há quinze anos. – Os dois se abraçaram bem forte e Toby a pegou no colo, rodopiando com ela todo feliz. Depois os dois ficaram se olhando e tocando seus rostos emocionados por estarem juntos de novo.

- Quanto tempo Melody Grey... Eu quase morri de saudades todos esses anos. – disse emocionado.

- Eu também Tobyas Sheppard. Eu cheguei a pensar que nunca mais fosse te ver de novo. – disse voltando a abraçá-lo.

Toby fez questão que Melody ficasse hospedada no seu apartamento, embora ela tivesse relutado um pouco, mas depois acabou cedendo devido à insistência dele.

- Por favor, entre e fique a vontade Melody. Mi casa es su casa. – disse sorrindo. – E então, o que você achou do meu apê?

- É lindo! – disse olhando tudo em volta. – Ele é espaçoso e arejado, bem decorado também. Você conseguiu um ambiente acolhedor e muito gostoso.

- Obrigado. Você aceita uma água, um café ou suco? Eu também posso te convidar para tomar um café na padaria da esquina. Eles fazem um croissant doce com recheio de doce de leite e cobertura de chocolate que é uma delícia.

- Hummm... E quem resiste à bela combinação entre o doce de leite e o chocolate? Eu fico com a padaria da esquina. Me dá só um minuto, que eu preciso ir ao toalete.

- Claro. Vai lá, ele fica no fim do corredor à direita.

Melody se levantou e, ao passar por Toby, ele a segurou pelo braço.

- Você não imagina o quanto eu estou feliz por você estar aqui. Eu não fazia ideia da falta que eu senti de você todos esses anos.

- Nem eu. Tantas lembranças e momentos bons afloraram depois que eu te vi. Você me fez muita falta, gafanhoto. – disse sorrindo.

- Você também me fez muita falta, abelhinha. Eu te amo.

- Eu também te amo. Eu já volto. – disse Melody indo até o banheiro enquanto Toby soltava sua mão bem devagar.

 

*****

 

- É... Eu tenho que admitir, você tinha razão. Esse croissant é magnífico!

- Eu não disse? Eu me lembro até hoje da sua paixão por doces, em especial o chocolate.

- Ai nem me fala, naquela época éramos jovens e tínhamos uma vida inteira pela frente pra se arrepender e fazer tudo sem pensar nas conseqüências. Hoje em dia se eu não me policio, engordo só de olhar pra essas guloseimas. – disse lambendo os dedos.

- Que isso, você não tem com o que se preocupar... Esta magra e linda!

- Obrigada. É muito gentil da sua parte. Bom... Mas me conta, e o seu casamento? – perguntou tímida enquanto desviava o seu olhar do dele. – Eu quase não acreditei quando recebi a sua carta me contando que ia se casar. Qual o nome dela, como ela é? Eu quero saber tudo.

- Calma... Você vai conhecê-la, não se preocupe. Mas por enquanto eu ainda não vou falar dela, eu estou matando as saudades de uma pessoa que sempre foi muito importante na minha vida. – disse enigmático.

- Nossa! Quanto mistério... Mas tudo bem, porque eu também estou matando saudades de um grande amigo. Nossa! Olha em volta... Desde que nós chegamos está um silêncio total, e deve ter o quê? Mais ou menos umas trinta pessoas aqui? Repara que ninguém conversa entre si, apenas o necessário. Estão todos ocupados com os seus smartphones. Com certeza atualizando os seus status ou postando fotos nas redes sociais.

- Nem me fala, eu não sei como as pessoas ainda conseguem se relacionar com tanta frieza assim. E o pior é que elas vão se tornando cada vez mais solitárias e reféns do próprio vício. Toda essa tecnologia é útil, nos ajuda no dia a dia na comunicação, mas o problema está no mau uso que se faz dela. Um bom papo, olho no olho, abraços bem apertados, pegar na mão de quem se ama. – disse pegando na mão dela. – Tudo isso é essencial, necessário, mas infelizmente todo calor humano foi substituído por mensagens e emojis.

- Pois é exatamente o que eu penso. Felizes somos nós que até ainda nos correspondemos através de cartas. – disse Melody sorrindo. – Você sabe que eu tenho uma amiga em Manhattan, a Rachel, e ela ri da nossa cara por causa desse nosso comportamento. Ela diz que nós ficamos parados no tempo.

- Bom, pelo menos nesse tempo ainda existe amor, sentimentos e verdade. Hoje em dia eu já não vejo tanto isso nesse exército de robôs frios comandados por uma máquina. Elas facilitam a vida é verdade, mas atrapalham os relacionamentos, afasta as pessoas. O que acha de darmos um passeio pelo parque?

- Eu estou a sua disposição. – disse sorrindo.

 

*****

 

Naquele dia, Melody e Toby passearam e conversaram bastante, relembrando a infância e adolescência deles com um misto de saudade e tristeza, porém agora a felicidade era completa por estarem juntos novamente.

Três dias se passaram entre passeios, sessão de filmes dos anos oitenta e noventa, muita pipoca, sorvete, chocolate e risos, muito risos. – Melody começou a escrever sua matéria para a American Woman, baseada em casais e nos seus comportamentos afetivos que ela reparava nas ruas, nos bares, parques e restaurantes. Mas ela ainda não havia conhecido a futura esposa de Toby. Afinal, esse era o principal motivo que a trouxera até Portland, lugar onde ela havia passado ao lado dele os melhores anos de sua vida.

- E então... É hoje que finalmente conhecerei a futura senhora Sheppard? Eu estou começando a desconfiar de que ela não existe, já faz três dias que eu cheguei aqui e nada dela. Assim eu vou achar que ela é uma noiva imaginária, igual ao seu amigo de infância também imaginário que você criou aos cinco anos de idade, lembra?

- Claro. E eu me lembro também que ele não durou nem uma semana, já que você, com muito ciúmes dele, ameaçou romper nossos laços de amizade para sempre. – comentou rindo. – Ai, ai... Bons tempos aqueles.

- Nem me fala... Às vezes eu fico olhando para nossas fotos numa espécie de sessão nostalgia, sabe? Eu abro a caixa e as esparramo pela cama e fico horas ali, olhando cada uma delas e me lembrando com detalhes daqueles dias imortalizados por um clique. Mas agora, chega de enrolação. Vamos logo conhecer sua noiva.

- Claro, eu já tirei o carro é só a gente descer. – disse inquieto.

- O que foi? Você está diferente esses dias, um pouco esquisito até, eu diria. Tem algo que você queira me contar? Você sabe que pode confiar em mim, né?

- Claro. E você também sabe que pode confiar em mim de olhos fechados né? – Melody meneou a cabeça afirmando. Então ele pegou uma venda e colocou sobre os olhos dela. – Então confia em mim e vem comigo.

- Mas pra quê tudo isso? Você sabe que eu fico ansiosa nessas situações, Toby.

- Vai ser rápido. Eu quero te levar num lugar. Você disse que confiava em mim.

Toby a guiou até o carro, colocou uma música e juntos eles seguiram rumo ao desconhecido, apenas para Melody que segurava a mão ansiosa dele o tempo todo .

*This Never Happened Before – Paul MacCartney

*****

Toby estacionou o carro no Washington Park. – Ele ajudou Melody a descer e depois a conduziu até um lindo jardim de frente para um rio.

- Nós já chegamos? – perguntou Melody curiosa.

- Já sim. Vem, senta aqui. – Toby ajudou Melody a se sentar e depois retirou a venda dos olhos dela, que ficou surpresa ao ver que estava diante de um dos seus lugares favoritos em Portland.

- Eu não acredito! – disse emocionada. – É o Washington Park! Como eu senti falta desse lugar tão especial pra mim. Muito obrigada por me trazer aqui, Toby.

- Não precisa me agradecer... Esse lugar também é muito especial para mim. Ele só perdeu toda sua graça e beleza depois que você foi embora. Mas especialmente hoje, eu me sinto como se tivesse voltando no tempo.

- Porque você me trouxe até aqui? E que caixa é essa que você está segurando?

- Eu te trouxe até aqui para que você conhecesse melhor a minha futura esposa...

- E onde ela está? – perguntou olhando tudo em volta.

- Tenha só mais um pouquinho de paciência que logo você irá conhecê-la. – disse sorrindo e depois abriu a caixa. – Reconhece? Essas são todas as cartas que você me escreveu desde que foi embora. Eu nunca parei pra contar, mas com certeza deve ter umas três mil cartas aqui.

- Uaauuuu! Eu não acredito que você guardou todas! Eu me sinto até envergonhada diante desse seu gesto. Eu também guardei, mas só algumas. As que mexeram mais comigo, me fizeram rir, chorar, sentir saudades... Deve ter coisas aí de quando eu tinha apenas dezesseis anos e já vivia todos os dramas de se mudar contra a minha vontade para uma cidade grande.

- Você é linda, Melody. Sempre foi linda por dentro e por fora, além de única e especial. Você não tem que sentir vergonha de quem é, nem de expor os seus sentimentos, pois todos eles formaram a mulher maravilhosa que você é hoje. E pela qual eu me descobri completamente apaixonado desde sempre... Desde que eu te conheci. Mas que só fui perceber isso no último ano, depois de passar por várias desilusões amorosas e não me encontrar em nenhuma delas. – confessou tímido.

- O quê? Que brincadeira é essa, Toby? Para com isso. Nós somos melhores amigos. – disse sorrindo. – Ó, meu Deus! Você está falando sério...? Eu nem sei o que dizer.

- Esses anos todos em que nós ficamos longe, meu amor, só serviram pra me fazer ver o quanto eu era e ainda sou apaixonado por você. Eu te amo, Melody Grey. E não existe noiva nenhuma, nem casamento, pelo menos por enquanto. Essa foi a maneira que eu encontrei de te trazer até aqui e confessar tudo o que eu sinto por ti. Eu poderia ter amado qualquer outra pessoa, uma que fosse menos complicada, menos indecisa, e que estivesse disposta a estar comigo o tempo todo. Mas o meu coração escolheu você. E por alguma razão que eu desconheço, ele não quer e não vai abrir mão disso. – disse decidido e emocionado.

- Eu não estou acreditando nisso, Toby. Eu cheguei a sentir ciúmes de você quando eu li na carta que você ia se casar. A vontade que eu tive foi de estrangular a sua noiva antes mesmo de conhecê-la. – confessou entre risos e lágrimas. – Que loucura... E só agora eu estou entendendo o porquê desse sentimento egoísta e mesquinho que eu tive. Tudo agora faz sentido pra mim também, meu amor.

- Que bom, porque nesse exato momento... Eu tenho a honra de te apresentar, a minha noiva. A mulher com quem eu vou me casar, e ela é você Melody. Sempre foi você...

Melody chorou de emoção e alegria; então Toby se ajoelhou diante dela.

- Melody Grey, você aceita se casar comigo? – perguntou abrindo uma caixinha e tirando de dentro uma aliança.

- É tudo o que eu mais quero no mundo, Tobias Sheppard. Ser sua mulher. – disse feliz e estendendo-lhe a mão. – Eu aceito.

* Try – Macy Gray

Eles então trocaram alianças felizes e emocionados, enquanto Toby a tomou nos braços e a beijou calorosamente. – Depois eles começaram a brincar e correr um atrás do outro pelo parque, como faziam nos tempos de juventude... Até caírem cansados sobre o gramado e voltarem a se beijar apaixonadamente.

 

*****

 

Manhattan, Nova York – American Woman Magazine

 

Dois dias depois…

Melody entrou na Revista feliz e segura de si. Depois de cumprimentar a amiga rapidamente, ela foi direto pra sala de Miranda Miller, entrando sem bater.

- Mas quem mandou entrar... sem bater, Melody? – disse surpresa. – Eu esperava vê-la só daqui a alguns dias. O que houve?

- Como vai, Miranda? Apesar de você não ter perguntado como sempre, eu estou ótima, obrigada. A matéria já ficou pronta e está maravilhosa. Mas você vai poder conferi-la melhor no meu blog. Eu decidi criar um e postei como a minha primeira matéria... E se não se importa, eu roubei o seu título, pois achei maravilhoso e tem tudo a ver comigo.

- Eu não estou entendendo. Do que você está falando, senhorita Grey? – perguntou confusa.

- O que eu estou querendo dizer, é que, a partir de hoje, eu seguirei carreira solo. Eu estou muito mais confiante e sei que tenho talento pra isso. Toma. – disse jogando um envelope em cima da mesa dela. – Essa é a minha carta de demissão, senhora Miller. E anote o meu nome, pois a senhora ainda vai ouvir falar muito dele. Até qualquer dia.

Melody saiu confiante, deixando Miranda de queixo caído e, pela primeira vez, sem palavras, e se mordendo de raiva.

Já do lado de fora, Toby a esperava no carro e, depois de um longo beijo apaixonado, eles seguiram rumo ao apartamento novo, onde eles tinham muito que fazer. Mas ser feliz com certeza estava no topo de suas listas.

 

*****

 

“Desencontros de amor existem, e a tecnologia no mundo moderno de hoje em dia só prova isso. Muitas vezes as pessoas dizem coisas que não queriam dizer, porque mal prestam atenção no que estão escrevendo, ou no caso digitando. As palavras nunca bastaram e agora só através de meios digitais, muito menos. É preciso ver, tocar, sentir e principalmente olhar no olho, ainda que não se diga absolutamente nada, pois o olhar fala mais que mil palavras, e feliz daquele que ainda sabe interpretar os olhares de quem se ama. As pessoas acham que têm o poder nas mãos ao ignorar, deletar ou bloquear uma pessoa na ilusão de que se tem alguma coisa, quando na verdade nunca se teve de fato. E nós continuamos fugindo da parte legal, e facilitando a parte ruim que não necessariamente precisa ser, que são os diálogos e as famosas “Drs”, nos ajudando a compreender muito mais um ao outro, e na grande maioria das vezes, resolvendo as nossas diferenças.

A vida não está e nunca estará só nas palavras, por isso tudo ficou menos de verdade, menos crível. A palavra é muito pouco, quando além delas, o corpo, a cabeça, as mãos, o coração e os lábios também falam; mas é preciso ver, estar de frente, pra poder fazer todas essas leituras. Há muito mais para que as pessoas se compreendam, se acertem e se apaixonem de verdade, porque viver só vale mesmo a pena pelos sentimentos. Pois na vida, poucas coisas são tão aleatórias quanto o amor. “E mesmo sabendo que ele é um jogo de azar, nós ainda insistimos em jogar os dados.”

*****

Melody Grey

 

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