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abril 21, 2021

Depois do Amor | Sessão Rajax

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SINOPSE

Uma mulher de meia idade se vê em meio a uma crise no casamento, mas vê em um rapaz mais novo a paixão que há muito tempo não sentia. Enfrentando o preconceito da sociedade devido a diferença de idade, ela vai mostrar que a vida não termina quando você chega aos 50 anos.

 

PERSONAGENS DESTE FILME

CAROLINA - MALU MADER

VICENTE - BRUNO FERRARI

ALBERTO - MARCOS PALMEIRA

REGINA - SELMA EGREI



DEPOIS DO AMOR

Escrito por Gabriel Martins

 


CAROLINA (NARRAÇÃO) - Hoje eu decidi tomar uma decisão que mudará para sempre o rumo da minha vida… vou pedir o divórcio. Há anos meu casamento se acabou, a única coisa em que eu e meu esposo compartilhamos são as brigas. O amor? Ah, ele se acabou. Agora o que eu quero é descobrir o que vem depois do amor

CENA 01 / APARTAMENTO DE CAROLINA E ALBERTO / INTERIOR / SALA / NOITE.

Alberto chega do trabalho. Carolina o espera com as malas feitas. Ele então pergunta:

ALBERTO - Que malas são essas?

CAROLINA - São minhas. Eu decidi que é hora de darmos um tempo.

ALBERTO - Você quer se separar de mim? É isso?

CAROLINA - Ah Alberto, é. É sim. Do jeito que as coisas andam, é o melhor a se fazer.

ALBERTO - Como assim do jeito que as coisas andam, Carolina? Eu não estou lhe entendendo… não há nada de errado com o nosso casamento. Para de querer achar coisa onde não tem.

CAROLINA - Para você de querer tapar o sol com a peneira Alerto. Será que você não vê que o nosso casamento esta desmoronando cada vez mas? Todos os dias a gente briga. Nós não conseguimos nem fazer sequer uma refeição juntos sem brigar. O nosso casamento acabou, e você precisa aceitar isso de uma vez.

ALBERTO – Não. Eu não vou aceitar, porque eu sei que não acabou. Não pode acabar assim… tantos anos juntos jogados fora? E tudo por causa de um desentendimento?

CAROLINA – Não. Não foi um desentendimento, foram vários. Não tenta diminuir o tamanho do problema, Alberto. 

ALBERTO - Tá Carolina. Tá bom… eu posso não ter sido o melhor marido do mundo pra você, mas por favor: Vamos tentar mais uma vez. Não podemos simplesmente nos entregar assim de bandeja.

CAROLINA - Nós já entregamos Alberto, só você que não vê. Eu tentei sim dar um jeito nessa situação. Você pensa que é fácil pra mim abrir mão de tantos anos de história? Não, não é.

ALBERTO - Carolina, vamos tentar novamente. Eu e você, juntos.

CAROLINA – Não. Eu não quero mais. Eu já cheguei no meu limite e vou querer o divórcio Alberto. E para de me fazer tentar mudar de ideia, porque eu não vou voltar atrás.

ALBERTO - Tá bom, se você prefere assim tudo bem. Mas eu prefiro que eu saia. Não é justo você ir.

CAROLINA - Não Alberto. Muito obrigada, mais eu prefiro ir. Eu não conseguiria ficar aqui, sozinha relembrando o passado.

ALBERTO - Tá bom. Obrigado. Mas pensa no que eu te falei. Por favor! Não vamos deixar nosso casamento morrer assim, dessa maneira.

Ela sai.



CENA 02 / CASA DE REGINA / INTERIOR / COZINHA / DIA.

REGINA - Como assim se separar, minha filha? Seu casamento é perfeito. Você tem um marido fiel, uma vida confortável. Eu não entendo… pra que se separar?

CAROLINA - Por favor, né mãe. Você queria o que? Que eu ficasse em um casamento infeliz por causa de

conforto? Eu pedi o divórcio porque meu casamento acabou, caiu na rotina. A única coisa que eu e o Alberto fazíamos era: brigar, brigar e brigar. 

REGINA – Filha… brigas passam. Você tem que dar uma chance a ele.

CAROLINA - E eu não dei? Durante todos esses anos eu fui empurrando meu casamento pela barriga. Eu me sacrificava pensando que aquela situação um dia iria mudar. Mas o que acontecia? Nada! O Alberto não foi sequer capaz de notar que nosso casamento estava cada vez mais afundando.

REGINA - Filha...

CAROLINA - Não mãe. Eu não vou voltar atrás. Agora eu quero aproveitar a minha liberdade, voltar a pintar, a me dedicar ao que eu realmente gosto.

Alguns meses depois... 

CENA 03 / MUSEU DE ARTES DE SÃO PAULO / INTERIOR / DIA.

 

Carolina participa de sua primeira exposição, em um museu. Ela mal sabe que lá vai conhecer Vicente, um jovem rapaz, também pintor que se apaixonará por ela.
Carolina organiza seus quadros. Ela diz para si:

CAROLINA - Será que vão gostar?

Vicente a olha de longe.

VICENTE – Se aproximando - Seus quadros são lindos.

CAROLINA - Obrigada. Fico feliz que tenha gostado.

VICENTE -  Mas nenhum desses quadros é mais lindo que a pintora.

CAROLINA – Sorri - Para hein… assim eu fico sem graça.

VICENTE - Sem graça porque? É a verdade. Agora eu posso saber como se chama a artista?

CAROLINA - Me chamo Carolina Ribeiro. Muito prazer!


VICENTE - Me chamo Vicente Gomes. O prazer é todo meu!

CAROLINA - Então Vicente, você também pinta?

VICENTE – Sim, eu pinto. Faço quadros retratando a arte corporal.

CAROLINA - Sério? Acho tão lindo essa expressão de arte.

VICENTE - Pois é. Mas pena que nem todo mundo pensa assim.

CAROLINA - Pois é, tenho acompanhado a polêmica. Mas um dia esse pessoal vai se dar conta que a arte transforma.

VICENTE - Bom, eu só espero que seja rápido. Mas vem cá: Você vai fazer alguma coisa hoje à noite?

CAROLINA - Pera aí… deixa eu ver se entendi. Você tá me chamando pra sair?

VICENTE – Sim. Porque, algum problema?

CAROLINA – Não. É que… Olha a sua idade e olha a minha. Desculpa, mas não vai rolar.

VICENTE - Eu não acredito. Você tá me dispensando por causa da minha idade? Eu pensei que você fosse mais mente aberta.

CAROLINA - É que eu acabei de sair de uma relação conturbada. Não tenho cabeça pra pensar nisso agora.

VICENTE - Me dá uma chance. Eu não estou dizendo que quero sexo ou qualquer outra coisa com você. Eu quero sair, conversar; só isso. Não é nada demais. vai, me dá uma chance. Deixa de lado esse preconceito bobo. Quem manda na nossas vidas somos nós, não é a sociedade.

CAROLINA - Ah, quer saber… eu vou. É até bom que eu me distraio um pouco.

VICENTE - Isso mesmo, erga essa cabeça. Me passa seu numero pra mim te ligar e marcar tudo.

CAROLINA - Tá bom.

ANOITECE...

CENA 04 / BOATE / INTERIOR / NOITE.

CAROLINA - Quando eu cheguei aqui e vi que era uma balada, eu não acreditei.

VICENTE - Porque?

CAROLINA - Ah, você sabe né… quem frequenta baladas geralmente são jovens, e eu já tô passada da idade de frequentar isso aqui.

VICENTE - Ah para. De novo com esse papo? Você é linda, independente. – Olha nos olhos dela – Você não tem que ter vergonha de nada.

CAROLINA - Eu vou acabar acreditando, hein... Olha lá.

VICENTE – Vem! Vamos dançar!

CAROLINA – Eu vou ficar morrendo de vergonha.

Ele puxa ela para a pista, e os dois dançam.

VICENTE - Sabe? Você fica ainda mais bonita sorrindo.

CAROLINA – Sorri - Você também.

Os dois se aproximam. O clima começa a se esquentar, e fica difícil resistir. Os dois se beijam. Carolina após beijar Vicente sai correndo para a rua. Ele vai atrás.

CENA 05 / RUA / EXTERIOR / NOITE.

VICENTE - Espera!

Ela para:

VICENTE - Porque você fugiu de mim?

CAROLINA - Eu não devia ter te beijado, não é certo.


VICENTE - Porque?


CAROLINA - Olha a minha idade.

Ele interrompe:

VICENTE – Não. Você não vai usar mais uma vez a sua idade como desculpa. Eu já disse: eu te quero do jeito que você é. Não se vitimize. Você é linda, e se você quiser eu quero ser seu.

CAROLINA - Eu também quero. Mas o que os outros vão pensar?

VICENTE - Não importa o que os outros vão pensar. A vida é nossa. Eu não vou abrir mão de viver uma história de amor incrível por causa de comentários de terceiros. Se você realmente me quer, eu te peço: Se entrega a essa paixão. Se entrega que você não vai se arrepender.

Eles se beijam.

VICENTE - Vamos pra minha casa.

CENA 06 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / QUARTO / NOITE.

Carolina e Vicente transam.

Amanhece...

VICENTE – Então… Foi ruim?

CAROLINA - Foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos, faz anos que eu não sei o que é isso. Não foi só sexo, foi algo mais, eu acho que foi amor...

VICENTE - Eu vou preparar um café pra nós.

Um tempo depois...

CAROLINA - Hum, esse café tá uma delícia.

VICENTE - Que bom que gostou.

 

CAROLINA - Olha Vicente, eu quero te perguntar.

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Foi só uma noite? Ou não?

VICENTE - Claro que não, como você pode me perguntar isso? Eu já deixei claro que te quero para mais de uma noite, te quero para todas as noites e dias, pelo resto da minha vida. Isso se você me aceitar, é claro.

CAROLINA - É claro que eu aceito. Me perdoe, é que eu sou mesmo insegura, eu tenho medo de me machucar.

Eles se beijam.

CAROLINA - Eu já vou indo.

VICENTE - Já?

CAROLINA - Eu tenho que ir mesmo, se eu pudesse eu ficava aqui o dia todo.

VICENTE - Vem aqui mais tarde.

CAROLINA - Tá, eu venho!

CENA 07 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / DIA.

Regina conversa com Alberto pelo telefone:

REGINA - Meu querido, eu te peço, não desista da Carolina, Eela não sabe o que fez. A crise logo vai passar, todo casal tem crise, isso é normal, e quando elas passam o casamento retorna muito melhor, você vai ver.

ALBERTO - Eu não sei dona Regina, a Carolina parecia estar muito confiante de que era isso mesmo o que ela queria.

REGINA - É bobagem, isso é coisa da cabeça dela. Fica tranquilo que eu vou dar um jeito de fazer a cabeça dela, você vai ver… logo, logo vocês vão estar juntos.

Ela ouve um barulho no portão, e diz:

 

REGINA - Vou desligar, ela chegou.

Ela desliga o telefone, Carolina entra na casa:

CAROLINA - Bom dia!

REGINA - Bom dia para a senhora também. Mas onde você se meteu? Passou a madrugada toda fora de casa… Filha, você não foi atrás de homem? Me diga que não!

CAROLINA - Ai mãe, mal cheguei e você já me vem com sermão? Eu já sou adulta até demais, a senhora não acha não? Já tenho 50 anos...

REGINA - Não me enrola filha. Diga logo de uma vez!

CAROLINA - Tá bom, eu vou contar. Uma hora ou outra a senhora iria ficar sabendo mesmo…

REGINA – Desembucha.

CAROLINA - Eu conheci um rapaz. Lembra daquela exposição que eu participei no Museu? Então... Naquele dia um rapaz veio puxar papo comigo, a gente foi ficando próximos, e ontem saímos para nos divertir, e acabou rolando.

REGINA - Eu não acredito minha filha. Eu não acredito que você foi capaz de trair o Alberto na primeira oportunidade que apareceu.

CAROLINA - Oi? Trair o Alberto? Eu não tenho mais nada com ele. Como vou trair alguém que nem compromisso eu tenho mais?

REGINA - Como não tem nada? Um casamento de anos não significa mais nada pra você?

CAROLINA - Quantas vezes eu tenho que te dizer que meu casamento acabou? Aceita logo de uma vez! E outra, eu tenho o direito de recomeçar minha vida com quem eu quiser, a hora que eu quiser.

REGINA - Eu já vi que você não vai querer me ouvir.

CAROLINA - Não, eu não vou querer mesmo.
REGINA - Só me diz uma coisa. Você disse que está namorando um rapaz, ele é rapaz mesmo? Ou foi só maneira de dizer?

CAROLINA - Sim, ele é rapaz mesmo. Ele tem 28 anos!

REGINA - Eu não acredito. Que sandice é essa minha filha? Onde já se viu, uma mulher de cinquenta anos como você namorar um rapazote? Você não tem noção do ridículo não, minha filha?

CAROLINA - Eu amo ele!

REGINA - Ama? Você nem sabe o que é amor minha filha, se soubesse não teria se separado do seu marido!

CAROLINA - Eu sei, tanto sei que me separei. Divórcio não significa nada, o amor vem e vai, a senhora que não deve saber o que é amor, não é?

REGINA - Já chega. E se esse rapaz tiver de olho no seu dinheiro?

CAROLINA - Não, ele não está, ele tem dinheiro o suficiente, até mais que eu, eu vi o apartamento dele e sei que é de gente rica.

REGINA - Eu não confio. Eu não consigo acreditar nessa relação.

CAROLINA - Eu também não acreditava. No começo eu tinha medo, achava ridículo uma mulher da minha idade ficar com um rapaz tão novo. Ainda estou me acostumando, mas eu sei que é real, eu vejo a certeza nele, e confio plenamente. A senhora vai ver que é verdade. Eu não vou deixar de viver uma história linda por sua causa ou por causa do Alberto!

REGINA - Meu Deus…

CAROLINA - Eu vou tomar uma ducha.

Regina fica sozinha, ela então liga para Alberto e conta tudo sobre Vicente:

ALBERTO - Um rapaz? Me trocou por um rapaz?

REGINA - Sim, pra você ver...

ALBERTO - Eu vou aí. Vou conversar com a Carolina.

REGINA - Vem meu filho. Pelo amor de Deus, vê se ponha um pouco de juízo na cabeça dela.

CENA 08 / CASA DE REGINA / EXTERIOR / NOITE.

Carolina está de saída, mas Alberto vem em sua direção para falar com ela:

ALBERTO - Carolina!

CAROLINA - O que você está fazendo aqui? 

ALBERTO - Vim conversar com você. Fiquei sabendo que você está se envolvendo com um rapaz. 

CAROLINA - Foi minha mãe quem te contou? Não foi?

ALBERTO - Sim, foi ela.

CAROLINA - Ela não tinha esse direito.

ALBERTO - Sua mãe se preocupa com você, e eu também. Você não vê o perigo que está correndo?

CAROLINA - Oi? Perigo? Você e minha mãe só podem estar de brincadeira mesmo… Eu não estou correndo perigo nenhum, o Vicente é uma pessoa digna, muito responsável. Parem de criar caraminholas na cabeça de vocês e vê se me deixem em paz.

ALBERTO - E você acha mesmo que um rapaz se interessaria por uma mulher mais velha? Ele deve estar de olho em seu dinheiro.

CAROLINA - Para Alberto. Já chega! Ele tem condições de vida muito melhores que a minha, e você sabe que eu não tenho dinheiro algum. Eu nunca trabalhei, sempre me dediquei ao lar, somente agora que estou conseguindo a minha independência financeira. Se seu objetivo era me fazer desistir, você caiu do cavalo. Boa noite!

Ela sai.


CENA 09 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / NOITE.

Carolina conta a Vicente que sua mãe e Alberto querem que ela desista dele:

VICENTE - Eu não acredito. Seu ex marido eu até entendo, ele deve estar abalado com o divórcio. Mas sua mãe? Ela deveria ser a primeira a ficar feliz por você.

CAROLINA – Pois é, pra eles você só está interessado no meu dinheiro. Aliás dinheiro este que nem tenho muito. Você tem condições de vida muito melhores que as minha.

VICENTE - Nem me fale…

CAROLINA - Porque? Algum problema?

VICENTE - Você vai se casar comigo, então eu tenho que te contar.

CAROLINA - Vou?

VICENTE – Ri - É claro que vai!

CAROLINA - Ri - convencido. Mas então, me diga. O que iria dizer?

VICENTE - Essa vida luxuosa que eu tenho não me orgulha muito. Esse apartamento é um dos empreendimentos de meu pai, ele é dono de uma construtora. O meu pai é um criminoso!

CAROLINA - Como assim? Me conte melhor, eu não estou entendendo!

VICENTE - Meu pai é um homem muito influente, sempre teve amigos poderosos e ricos, graças a eles que a empresa da minha família sempre vencia as licitações de obras públicas pelo país afora. E meu pai ajuda esses políticos a superfaturar obras e a desviar dinheiro público. 
CAROLINA - Meu Deus, Vicente, isso é muito grave.

VICENTE - Sim, eu sei que é duro, mas é a verdade. E o pior é que eu sei de tudo isso mas não tenho coragem de ir até a polícia e contar tudo o que sei.

CAROLINA - Eu te entendo, é seu pai.

VICENTE - Sim, mas isso vai contra todos os ideais que eu prego e acredito e, é justamente por isso que eu me afastei de meu pai, eu e ele brigamos, não nos damos bem hoje em dia.

CAROLINA - Meu amor, eu não poderia imaginar que você vive tudo isso.

VICENTE - Eu quero denunciar meu pai.

CAROLINA - Tem certeza?

VICENTE – Tenho.

CAROLINA - Eu vou estar com você, seja forte!

VICENTE – Obrigado.

Um dia depois…

CENA 10 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

Vicente e Carolina chegam da delegacia:

VICENTE - Obrigado por ter ido me acompanhar, foi duro para mim, mas de certa forma sua presença me aliviou.

CAROLINA - Imagina, não há o que agradecer.

VICENTE - Só estou com medo da reação dos meus pais quando souberem que eu os denunciei.

CAROLINA - A denúncia é anônima, eles não saberão quem foi.

VICENTE - Eles saberão sim. Há coisas que eu disse lá que só eu sabia.

CAROLINA - Você não tem que ter medo, você tem que ter a consciência de que fez a coisa certa. Quem tem que ter medo e vergonha são eles, eles é que desviaram dinheiro. Você é um rapaz honesto, lindo e íntegro. Saiba que hoje você me encheu de orgulho mais uma vez. 

VICENTE - Agora com suas palavras, sinto-me mais confortável.

CAROLINA - Isso meu amor.

VICENTE - Vem!

CAROLINA - Pra onde?

VICENTE - Para o meu estúdio. Eu quero te pintar!

Ela vai:

CENA 11 / ESTÚDIO DE VICENTE / INTERIOR / DIA.

VICENTE - Tira a roupa!

CAROLINA - Você quer me pintar nua?

VICENTE - Sim, algum problema?

CAROLINA - Nenhum.

VICENTE - Então vem logo!

Ela tira as roupas e posa para ele que a pinta.

CAROLINA - Sabe, muitas pessoas consideram o ato de ficar pelados vulgar… 

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Mas eu acho tão lindo, o nosso corpo é perfeito, é belo.

VICENTE - O nù, o sexo não são nada vulgar. As pessoas é que transformam algo natural em vulgaridade.

CAROLINA - Sim.

VICENTE - Muitas pessoas riem, sentem nojo e até mesmo repudiam o sexo, mas o sexo é a coisa mais linda que existe, o sexo traz à vida, somos todos frutos do sexo. Não deveríamos repudiar algo lindo, vital e que nos dá muito prazer.

CAROLINA - Ah meu amor, as pessoas complicam demais a vida. Com seus pudores, que as vezes não passam de meras máscaras que tampam a verdade, ou com regras religiosas sem fundamento algum.

VICENTE - Mas chega de falar das pessoas. Vamos falar de nós.

CAROLINA - Sim – risos.

Eles se beijam e transam.

Dias depois…

CENA 12 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

CAROLINA - Vicente, lembra que eu aceitei vir morar com você?

VICENTE - Sim.

CAROLINA - Mas antes eu quero que você conheça minha mãe.

VICENTE - Tem certeza meu amor?

CAROLINA - Claro! Você tá com medo?

VICENTE - Sim. Confesso que estou, ainda mas depois de tudo o que você me disse sobre ela não me querer ao seu lado.

CAROLINA - Eu sei, eu te entendo, mas saiba que ela não vai me convencer a te deixar. Eu só quero que vocês se conheçam, e quem sabe possam se entender. Vai, faz isso por mim!

VICENTE - Tá bom, por você eu faço!

CENA 13 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / NOITE.

Carolina entra:
CAROLINA - Mãe, eu vim pegar minhas coisas.

REGINA - Vai mesmo morar com aquele rapaz? Nem mesmo se casou e já vai juntar as escovas de dentes? Sinceramente minha filha...

CAROLINA - Sim, eu vou mãe, e saiba que casamento não é uma coisa que não os interessa por agora. Ele está aqui. Entre Vicente!

Ele entra na casa. Regina fica sem reação:

VICENTE - Boa noite!

REGINA – Tensa - Boa noite!

VICENTE - É um prazer lhe conhecer, sua filha me falou muito de você.

REGINA - Desconfortável - É mesmo? Fico feliz por vocês.

CAROLINA - Amor, vai levando essas caixas para o carro por favor!

VICENTE - Sim.

Ela puxa a mãe para o canto:

CAROLINA - Poxa mãe, a senhora poderia pelo menos disfarçar que não esta desconfortável.

REGINA - Tá bom minha filha, eu vou tentar. Você sabe que eu não fui com a cara desse rapaz, mas por você eu vou tentar.

CAROLINA - Obrigada.

Um tempinho depois…

REGINA - Minha filha, Vicente. Eu queria que vocês viessem almoçar aqui qualquer dia desses.

VICENTE - Tá bem, nós aceitamos.

CAROLINA - Tchau mãe!

REGINA - Vai com Deus minha filha!

CENA 14 / CARRO / INTERIOR / NOITE.

VICENTE - Sua mãe ficou bem desconfortável.

CAROLINA - Pois é. Mas eu acho que desta vez ela entendeu que minha escolha não tem volta.

Amanhece…

CENA 15 / CASA DE REGINA / INTERIOR / SALA / DIA.

Regina recebe Alberto em sua casa:

REGINA - Ah meu filho, ontem a Carolina veio pegar as coisas dela aqui, e o rapaz veio junto.

ALBERTO - É parece que ela esta mesmo decidida a se casar com esse rapaz.

REGINA - Casar? – Risos - Que casar que nada, ela me disse que o casamento não esta nos planos deles. Só querem mesmo é se juntar.

ALBERTO - Sabe dona Regina, eu acho que é melhor eu me afastar da Carolina, ela já disse com todas as letras que não quer mas nada comigo.

REGINA - Desistir? Assim, Tão fácil?

ALBERTO - Dona Regina, eu não posso obrigar a Carolina a me amar.Se ela não me ama e não me quer mas, o que eu posso fazer? Eu não vou obrigar ela a me amar, eu não tenho esse direito. O melhor mesmo é nos separarmos. Agora ela já tem esse rapaz, as coisas ficaram difíceis pra mim. Agora que ela tem um novo amor, ela não voltará a pensar em mim. Eu tenho que aceitar isso, e a senhora também.

REGINA - Eu não consigo, eu não consigo aceitar, não consigo engolir isso.

ALBERTO - Tente, é a felicidade de sua filha que está em jogo. Eu vou dar o divórcio a ela, se ela um dia se arrepender eu estarei a esperando, de braços abertos.

Dias depois…

CENA 16 / APARTAMENTO DE VICENTE / INTERIOR / SALA / NOITE.

CAROLINA - É amanhã, nem acredito!

VICENTE - Amanhã você ficará livre para recomeçar sua vida de vez.

Amanhece…

CENA 17 / CARTÓRIO / INTERIOR / DIA.

Carolina e Alberto assinam o divórcio:

ALBERTO - Bom, agora finalmente você se livrou de mim.

CAROLINA - Não, não diga isso. Eu não quero me livrar de você, eu só queria me separar. Alberto, eu quero muito continuar a ter você em minha vida, só que agora como amigo. Você aceita?


ALBERTO - É claro!

CAROLINA - Me dá um abraço!

Eles se abraçam:

CAROLINA - Obrigada, eu fui muito feliz ao seu lado, eu nunca vou esquecer todos os momentos bons que a gente viveu. Só que agora eu vou começar um novo ciclo na minha vida, mas eu nunca vou te esquecer, e de certa forma eu ainda te amo.

CENA 18 / APARTAMENTO  DE VICENTE / INTERIOR / SALA / DIA.

VICENTE - O que acha de irmos almoçar na casa de sua mãe?

CAROLINA - Ótimo!

VICENTE - Então vamos.

CENA 19 / CASA DE REGINA / INTERIOR / COZINHA / DIA.

 

Eles almoçam:

REGINA - Sabe minha filha, eu fico muito feliz por você, eu vejo que você tá muito feliz, e é isso o que importa. Eu andei conversando com um amigo, e ele me abriu os olhos. Eu tenho que te apoiar acima de tudo.

CAROLINA – Ah mãe, fico tão feliz que a senhora nos entendeu e aceitou nossa relação. Estou muio feliz.

REGINA - E quando a você Vicente, eu duvidei de sua honestidade e de seu amor por minha filha. Mas lhe peço desculpas, eu julguei sem conhecer, disse sem saber, minha filha é mulher, é adulta, sabe ter sua próprias decisões, e ela acertou em cheio. Você é um homem muito valoroso, e fará minha filha feliz, eu tenho certeza. 

VICENTE - Sim dona Regina, que bom que nos entendemos. Isso é o que importa, o que dissemos, ou fizemos no passado, fica no passado.

REGINA - Sim.


Eles se abraçam:

CAROLINA - Vamos indo mãe, queremos passear no Ibirapuera.

REGINA - Vão com Deus!

CENA 20 / PARQUE DO IBIRAPUERA / EXTERIOR / DIA.

Carolina e Vicente caminham pelo parque:

CAROLINA - Sabe, agora as coisas finalmente entraram-se nos eixos.

VICENTE - Pois é.

CAROLINA - Eu estou tão feliz,que nem sei se mereço.

VICENTE - É claro que merece. Você é uma mulher forte, guerreira, batalhadora e linda. É uma mulher de verdade!


CAROLINA - Modéstia à parte, mas eu sou mesmo! -risos.

Eles se beijam!

CAROLINA (NARRAÇÃO) - Agora eu descobri o que vem depois do amor. Vem mais amor, porque ele nunca acaba. Nunca é tarde para amar, não há sexo, cor, e nem idade. O que há é: simplesmente amor.

FIM.


abril 14, 2021

Amor em Tempos Modernos | Sessão Rajax

por , em


SINOPSE

Melody Grey, sempre foi uma mulher moderna, porém ligada a velhos costumes. Após ser promovida no trabalho, ela decide escrever sua nova matéria em sua cidade natal, onde cresceu ao lado do seu único e verdadeiro amor de infância, que agora está prestes a se casar. E quando se reencontram, Melody se dá conta de quem sempre o amou e de que ele é o grande amor da sua vida. Mas e agora? Será tarde demais para viver esse amor?

 

AMOR EM TEMPOS MODERNOS

Escrito por Eduardo Moretti

 

“Tempos modernos, belezas de concreto. E o que há de concreto neste mundo moderno? E se o amor que está bem perto for incerto? Tempos modernos, belezas de concreto. Amor Em Tempos Modernos.”

Josyas

*****

Manhattan, Nova York

O sol estava radiante lá fora como de costume entre os altos e belos edifícios da cidade que fica no centro de NY. – Com o amanhecer, grande parte da população já estava nas ruas indo para os seus trabalhos e correndo atrás dos seus sonhos, e com ela não era diferente.

 

Do alto do seu apartamento no oitavo andar, sentada de frente para o seu notebook, ela escrevia todas as manhãs tomando seu café expresso, antes de sua corrida matinal. Redatora-chefe do caderno de relacionamentos da revista “American Woman”; ela havia sido promovida há dois meses e estava adorando sua nova função, que para ela vinha com um precioso bônus: Dar voz a tudo que sentia, pensava e principalmente a tudo que estava dentro do seu coração. Seu único problema tinha um nome: Miranda Miller! A presidente da revista mais vendida do país, que às vezes mais parecia ter uma calculadora no lugar do coração, pois só pensava em números e vendas.

 

“Estresse, correria, falta de tempo! Vivemos num mundo em que tudo gira em torno da modernidade e da tecnologia. Tudo se resolve com um clique. Basta enviar um e-mail, mandar uma mensagem ou até mesmo conversar e resolver todo e qualquer tipo de assunto através das redes sociais, sejam eles profissionais ou pessoais. E com isso nos enganamos cada vez mais achando que estamos ganhando tempo. Eu concordo que, para o mundo dos negócios, pode até ser vantajoso usar todas essas ferramentas, mas e nos relacionamentos interpessoais? Eu vejo pessoas namorando por mensagens e aplicativos, amigos combinando de ir ao cinema, shoppings, restaurantes, porém quando estão juntos de verdade, eles continuam se relacionando mesmo é com o seu smartphone. Uma triste realidade para mim, que sempre valorizei e ainda valorizo o tête-à-tête. Tudo depois da tecnologia ficou mais frio, mecânico e sem graça. E o pior de tudo isso é que ninguém parece se dar conta ou querer mudar esse fato. Relacionamentos são importantes. O olho no olho, os sorrisos, as conversas inteligentes ou descontraídas e informais, nisso sim, que todos deveriam dar valor, e não em aparelhos. O que eu fico só me perguntando é o seguinte: E se tudo isso acabasse um dia? Sei lá, se de repente você acordasse e nada mais de tecnológico ou moderno tivesse lá ou existisse. Para os braços de quem você correria? E você ainda saberia como viver os relacionamentos? Estresse, correria, falta de tempo, amizades desfeitas, amores perdidos... Solidão. Às vezes nós nem percebemos o quanto estamos sozinhos, vivendo nesse mundo cibernético de ilusões. Porque na grande maioria das vezes, não é a falta de tempo o grande pivô de tudo, mas sim a de prioridade. Pois quando se quer de verdade e se está comprometido com a causa, temos tempo para tudo que priorizarmos.”

(Melody Grey)

*****

 

Depois de dar um enter e enviar o seu pensamento do dia para a página da revista na internet, Melody se levantou ainda vestindo uma blusa longa do namorado e, apenas de calcinha e cabelos presos, ela ligou o seu aparelho de som e a canção “Hot N’ Cold” de Katy Perry começou a tocar. – Ela então terminou de tomar o seu café e começou a dançar feito louca. Em seguida, abrindo o seu closet, ela vestiu sua calça de nylon preta e um casaco azul por cima de uma camiseta, já que fazia frio naquela época do ano, e calçou o tênis. Em seguida, ela prendeu os cabelos novamente, desligou o som, pegou o seu smartphone já com os fones de ouvido conectados e saiu batendo a porta.

 

*****

 

E foi correndo pelo Central Park, que ela recebeu uma mensagem do namorado em seu celular. Aos poucos Melody foi diminuindo o ritmo até parar para ler, tirando um dos fones do ouvido.

*Pocketful of Sunshine – Natasha Bedingfield

“Oi... Tudo bem? Olha só, eu não sei como te dizer isso, na verdade eu nunca fui muito bom com as palavras. Então eu resolvi dizer tudo por mensagem mesmo. Eu decidi que não está dando mais pra mim, e tem as suas cobranças também, enfim... Eu estou terminando o nosso namoro. Espero que você entenda e que não fique chateada comigo. Seja feliz, adeus...” Eric.

Melody de início ficou estática, sem reação. – Como ele poderia estar terminando tudo com ela através de uma mensagem de texto? – pensou.

Um senhor que vinha passeando com o seu cachorrinho de encontro a ela, parou para que o bichinho fizesse suas necessidades fisiológicas, e enquanto ele esperava, Melody voltou a si, já surtando.

- Seu cretino idiota! Isso é coisa que se faça? – gritou na direção do velhinho, que se assustou e ficou sem graça.

- Me... Me desculpe senhorita. Mas eu trouxe o sa... sa... quinho e já ia recolher. – disse gaguejando.

Só então Melody se deu conta do show que dera em pleno Central Park cheio de pessoas passando e que olharam torto para ela, por causa do velhinho que não tinha culpa de nada.

- Tudo bem, senhor. Eu é que peço desculpas, a minha bronca foi com outra pessoa e não com o senhor, nem com o seu totó. E muito menos com o... – disse tentando escolher a palavra certa. – O... número dois dele. Então... Tenha um bom dia.

Melody então sem graça deu meia volta e seguiu direto para casa, afinal ela ainda tinha que tomar uma ducha, se trocar e ir para a revista, pois Miranda Miller não tolerava atrasos. – E ela não conseguia parar de pensar em como aquele dia já estava começando mal.

 

*****

 

Na redação da revista American Woman, todos já estavam trabalhando na nova edição. Melody chegou apressada e foi até a mesa de sua melhor amiga Rachel para se atualizar das últimas fofocas.

- Bom dia, Rachel. E aí quais as novidades? - perguntou se sentando em cima da mesa.

- Bom dia pra quem? Só se for pra você. O furacão Miller está prestes a chegar. A mulher já ligou cedo pra minha casa e ordenou que eu agendasse uma reunião para hoje à tarde com toda equipe. E ela estava uma fera no telefone. – disse enquanto digitava as pautas da reunião.

- Que droga! Já vi que hoje definitivamente não é o meu dia. – disse Melody cabisbaixa.

- Nossa, que cara amiga. Aconteceu alguma coisa? Aproveita pra desabafar que a gente ainda tem cinco minutos antes daquele elevador se abrir e o furacão com a sua linda bolsa Louis Vuitton passar por nós.

- É o Eric. Você acredita que ele teve a coragem de terminar tudo comigo através de uma mensagem de texto? Eu não estou acreditando nisso até agora.

Rachel começou a rir descontroladamente, enquanto Melody olhava para ela séria.

- Não. Me desculpe. Mas é que é muito engraçado. – disse rindo. – Justo com você, a mulher que odeia qualquer tipo de comunicação que não seja feita pessoalmente e olho no olho? Essa foi demais, amiga. Tudo bem, eu já entendi a sua cara fechada, eu prometo não rir mais dessa história. O que acha da gente sair hoje à noite pra beber todas? Você está precisando, e confesso que eu também. – sugeriu Rachel.

- Eu não estou a fim, prefiro ficar em casa e beber sozinha. – disse Melody desanimada.

- Você é quem sabe, mas a solidão adora companhia e por isso eu vou beber com você na sua casa, você querendo ou não. Eu levo uma garrafa de tequila.

- Por mim, tudo bem.

- Ah, eu já ia me esquecendo... Chegou uma carta pra você. – disse abrindo a gaveta. – Toma. Será que você é capaz de adivinhar de quem seja? – perguntou sorrindo com ar de mistério, enquanto arqueava sua sobrancelha esquerda.

- Claro. Só pode ser do Toby. – disse entusiasmada e começando a abrir o envelope.

- Sério, eu não sei como vocês dois conseguem em pleno século vinte e um com toda tecnologia a nosso favor, ainda se corresponderem por cartas? Vocês sabem que hoje em dia já existe telefone, internet, e-mail, redes sociais... Eu definitivamente não saberia mais viver sem essas coisas.

- Pois eu sim. Eu e o Toby desde crianças, quando morávamos em Portland, sempre nos correspondemos por carta, mesmo morando um do lado do outro. Era o nosso tipo de conexão sabe? De algum modo nós sabíamos que cada palavra naquele papel tinha sido escrita com amor e verdade. E mesmo depois que eu decidi vir estudar e morar em Manhattan, nós continuamos com esse ritual. É como se, mesmo estando longe, as cartas nos aproximasse, entende? Cartas são especiais. De certa forma a gente escreve querendo estar perto; e quando a pessoa recebe essa carta, a sensação é exatamente essa... De estar sendo abraçada por essa pessoa. E vocês do mundo cibernético que ficaram todos mecânicos e não sabem mais apreciar o valor de um belo gesto?

- Nossa, que profundo. Me deu até sono. – disse bocejando.

Melody então começou a ler a carta com toda atenção e em voz baixa. E não demorou muito para que seus olhos se enchessem de lágrimas.

- O que foi que aconteceu? – perguntou Rachel preocupada. – Melody você está branca. Alguém morreu?

- O Toby vai se casar. – disse surpresa. – Ele está me convidando pro seu casamento. Não dá pra acreditar nisso... O Tobias Sheppard vai se casar. – disse pensativa.

- Sim, e daí? Por que o espanto?

Nesse momento, o boy da revista entrou rápido, avisando a todos:

- Pessoal... Todos a postos. Ela acabou de pegar o elevador e está subindo.

Todos então correram para suas mesas e ajeitaram tudo, começando a trabalhar concentrados. Melody foi para sua sala, enquanto Rachel pegou o café expresso de Miranda na cozinha.

O elevador se abriu, e Miranda Miller entrou séria e de nariz empinado como era de costume. - Vestindo um longo vestido preto, de salto quinze, um casaco de pele por cima, carregando a sua inseparável Louis Vuitton e de óculos escuros, Miranda entrou cheia de pose, enquanto Rachel ia ao seu encontro.

- Bom dia senhora, Miller. Eu já agendei a reunião para hoje às três da tarde e também já preparei as pautas a serem discutidas. Aqui está o seu café.

- Coloque aí em cima da minha mesa... No descanso de copo, não se esqueça. Eu detesto móveis manchados. – disse retirando o casaco e jogando para a secretária, que pegou, dobrou e o colocou no cabide no canto da sala.

- Agora saia. E eu não quero ser interrompida e nem atender ligações hoje. Fui clara? – perguntou intimidadora.

- Foi sim, senhora.

- E por favor, diz pra Melody vir até aqui agora que eu preciso falar com ela urgente.

Rachel foi correndo avisar à amiga que Miranda a estava chamando. - Quando Melody chegou à sala de sua chefe, ela estava sentada de costas para a funcionária em sua cadeira giratória, olhando a bela vista de Manhattan, através da enorme janela de vidro.

- Acha mesmo que eu não posso sentir daqui a sua respiração entrecortada e ofegante de medo, muito menos sentir o cheiro do seu perfume horrivelmente adocicado? – disparou Miranda, se virando para Melody. – Feche a porta e sente-se. Vamos, mulher, time is Money! Eu não tenho tempo para perder.

Melody então fechou a porta e logo em seguida sentou-se de frente para Miranda e já ia abrir a boca, quando foi interrompida.

- Calada. Você não diz nada, até eu dizer que você pode. – disse respirando fundo. – Ok, Miranda Miller, relaxa. Você consegue.

- A American Woman existe há décadas. O seu formato e conteúdo sempre agradou a gregos e troianos. Ela é hoje a revista mais vendida e respeitada do país. O seu site está entre os cinco mais acessados do gênero pelo nosso público alvo e fiel, predominantemente feminino. E tudo isso graças a mim, Miranda Miller. Agora tente adivinhar o meu espanto ao abrir o site hoje pela manhã e me deparar com um post que vai contra tudo o que a revista vende, e pior ainda... Vai contra a opinião de todas as mulheres do planeta. O que você está pretendendo senhorita Grey? Acabar com a minha revista?

- Eu não tenho interesse nenhum em acabar com a revista, fique tranqüila. Eu só estou sendo sincera e me comportando de acordo com o que eu penso e sinto. Depois eu sou uma jornalista, trabalho com a verdade e estaria desrespeitando nossas leitoras e a mim mesma senão houvesse verdade no que eu escrevo, você não acha?

- O que eu acho e o que realmente importa e está em questão aqui, é que a sua conduta ultimamente não tem me agradado nem um pouco, senhorita Grey. O seu comportamento feminista revolucionário e anti-social, pode me trazer sérios problemas futuramente. Mas você sempre foi uma boa jornalista, eu reconheço. Digo até que a melhor que eu já tive em trinta anos de carreira. Mas você não é mais a mesma, mudou, criou asas e vem batendo de frente com a nossa proposta e até mesmo comigo. Mas eu resolvi te dar uma última chance; aliás, uma grande oportunidade e foi por isso que eu a chamei aqui. A edição de Setembro da American Woman trará uma reportagem diferente e especial de capa, e eu escolhi você para fazer a matéria.

- O que? Mas por quê? – disse ainda atônita com a notícia, porém feliz, com a oportunidade. – Desculpa, senhora Miller, é que eu fiquei surpresa com a notícia. Eu sempre quis fazer a matéria de capa da revista. Eu já começo a pensar em mil e um assuntos que eu poderei escolher pra essa capa.

- Pois pode ir parando com essas suas ideias delirantes e geniais por aí... A capa já tem um título; fui eu mesma quem escolheu. Mas não precisa fazer essa cara, que eu acho que tem tudo a ver com você e com o seu post infeliz de hoje cedo no portal.

- E sobre o quê eu irei escrever? – perguntou curiosa.

- Amor Em Tempos Modernos. Não é sobre isso que se resume toda a sua indignação e revolta? Sobre as modernidades e tecnologias do século vinte e um? Pois então. Vamos ver o que mais você tem pra nos dizer sobre esse assunto, e como as nossas leitoras reagirão sobre isso. O fechamento da edição é em duas semanas, e no dia e hora marcados, eu quero todo material em cima da minha mesa. Ah... E eu não irei tolerar atrasos, fui clara?

- Claro. Em duas semanas a matéria estará na sua mesa, eu prometo. Só tem um problema, senhora Miller. O meu amigo de infância vai se casar dentro de alguns dias e eu quero ir ao casamento, que será em Portland.

- Eu não vejo problema nenhum nisso, senhorita Grey. Matérias podem ser escritas em qualquer lugar do mundo e o seu prazo é de duas semanas. Vá para Portland. Só não se esqueça do prazo. Agora por favor, saia e me deixe trabalhar, sim?

- Claro. Eu só queria dizer obrigada pela oportunidade, eu acho.

Melody saiu apressada da sala de Miranda e, quando fechou a porta, teve que se conter para não gritar e pular de alegria. Depois passou toda sorridente e feliz pela mesa de Rachel.

- Mas o que foi que aconteceu? Ninguém nunca saiu tão feliz assim de dentro da sala da megera... Eu exijo um pouco do que você fumou lá agora.

- Mudança de planos, amiga... Hoje nós vamos sair e beber todas! Te vejo ás nove no barzinho de sempre. – disse indo para sua sala toda feliz.

- Melody Grey, volta aqui agora. Eu falei sério quando disse que quero um pouco do que te deixou assim... Melody?

 

*****

 

No outro dia bem cedo, Melody pegou o avião rumo a Portland e na bagagem levou com ela o seu bloco de anotações e o notebook para começar escrever a matéria de capa. – Algumas horas depois, ela finalmente chegava ao seu destino e, ainda no aeroporto, ela viu Toby de longe segurando um papel com o seu nome escrito bem nítido e na cor rosa.

 

*Somewhere Only We Know - Keane

Quando foi chegando mais perto, Toby a reconheceu e abriu os braços para recebê-la. Melody então deixou o carrinho com a sua mala pelo caminho e correu para abraçar o seu melhor amigo que ela já não via há quinze anos. – Os dois se abraçaram bem forte e Toby a pegou no colo, rodopiando com ela todo feliz. Depois os dois ficaram se olhando e tocando seus rostos emocionados por estarem juntos de novo.

- Quanto tempo Melody Grey... Eu quase morri de saudades todos esses anos. – disse emocionado.

- Eu também Tobyas Sheppard. Eu cheguei a pensar que nunca mais fosse te ver de novo. – disse voltando a abraçá-lo.

Toby fez questão que Melody ficasse hospedada no seu apartamento, embora ela tivesse relutado um pouco, mas depois acabou cedendo devido à insistência dele.

- Por favor, entre e fique a vontade Melody. Mi casa es su casa. – disse sorrindo. – E então, o que você achou do meu apê?

- É lindo! – disse olhando tudo em volta. – Ele é espaçoso e arejado, bem decorado também. Você conseguiu um ambiente acolhedor e muito gostoso.

- Obrigado. Você aceita uma água, um café ou suco? Eu também posso te convidar para tomar um café na padaria da esquina. Eles fazem um croissant doce com recheio de doce de leite e cobertura de chocolate que é uma delícia.

- Hummm... E quem resiste à bela combinação entre o doce de leite e o chocolate? Eu fico com a padaria da esquina. Me dá só um minuto, que eu preciso ir ao toalete.

- Claro. Vai lá, ele fica no fim do corredor à direita.

Melody se levantou e, ao passar por Toby, ele a segurou pelo braço.

- Você não imagina o quanto eu estou feliz por você estar aqui. Eu não fazia ideia da falta que eu senti de você todos esses anos.

- Nem eu. Tantas lembranças e momentos bons afloraram depois que eu te vi. Você me fez muita falta, gafanhoto. – disse sorrindo.

- Você também me fez muita falta, abelhinha. Eu te amo.

- Eu também te amo. Eu já volto. – disse Melody indo até o banheiro enquanto Toby soltava sua mão bem devagar.

 

*****

 

- É... Eu tenho que admitir, você tinha razão. Esse croissant é magnífico!

- Eu não disse? Eu me lembro até hoje da sua paixão por doces, em especial o chocolate.

- Ai nem me fala, naquela época éramos jovens e tínhamos uma vida inteira pela frente pra se arrepender e fazer tudo sem pensar nas conseqüências. Hoje em dia se eu não me policio, engordo só de olhar pra essas guloseimas. – disse lambendo os dedos.

- Que isso, você não tem com o que se preocupar... Esta magra e linda!

- Obrigada. É muito gentil da sua parte. Bom... Mas me conta, e o seu casamento? – perguntou tímida enquanto desviava o seu olhar do dele. – Eu quase não acreditei quando recebi a sua carta me contando que ia se casar. Qual o nome dela, como ela é? Eu quero saber tudo.

- Calma... Você vai conhecê-la, não se preocupe. Mas por enquanto eu ainda não vou falar dela, eu estou matando as saudades de uma pessoa que sempre foi muito importante na minha vida. – disse enigmático.

- Nossa! Quanto mistério... Mas tudo bem, porque eu também estou matando saudades de um grande amigo. Nossa! Olha em volta... Desde que nós chegamos está um silêncio total, e deve ter o quê? Mais ou menos umas trinta pessoas aqui? Repara que ninguém conversa entre si, apenas o necessário. Estão todos ocupados com os seus smartphones. Com certeza atualizando os seus status ou postando fotos nas redes sociais.

- Nem me fala, eu não sei como as pessoas ainda conseguem se relacionar com tanta frieza assim. E o pior é que elas vão se tornando cada vez mais solitárias e reféns do próprio vício. Toda essa tecnologia é útil, nos ajuda no dia a dia na comunicação, mas o problema está no mau uso que se faz dela. Um bom papo, olho no olho, abraços bem apertados, pegar na mão de quem se ama. – disse pegando na mão dela. – Tudo isso é essencial, necessário, mas infelizmente todo calor humano foi substituído por mensagens e emojis.

- Pois é exatamente o que eu penso. Felizes somos nós que até ainda nos correspondemos através de cartas. – disse Melody sorrindo. – Você sabe que eu tenho uma amiga em Manhattan, a Rachel, e ela ri da nossa cara por causa desse nosso comportamento. Ela diz que nós ficamos parados no tempo.

- Bom, pelo menos nesse tempo ainda existe amor, sentimentos e verdade. Hoje em dia eu já não vejo tanto isso nesse exército de robôs frios comandados por uma máquina. Elas facilitam a vida é verdade, mas atrapalham os relacionamentos, afasta as pessoas. O que acha de darmos um passeio pelo parque?

- Eu estou a sua disposição. – disse sorrindo.

 

*****

 

Naquele dia, Melody e Toby passearam e conversaram bastante, relembrando a infância e adolescência deles com um misto de saudade e tristeza, porém agora a felicidade era completa por estarem juntos novamente.

Três dias se passaram entre passeios, sessão de filmes dos anos oitenta e noventa, muita pipoca, sorvete, chocolate e risos, muito risos. – Melody começou a escrever sua matéria para a American Woman, baseada em casais e nos seus comportamentos afetivos que ela reparava nas ruas, nos bares, parques e restaurantes. Mas ela ainda não havia conhecido a futura esposa de Toby. Afinal, esse era o principal motivo que a trouxera até Portland, lugar onde ela havia passado ao lado dele os melhores anos de sua vida.

- E então... É hoje que finalmente conhecerei a futura senhora Sheppard? Eu estou começando a desconfiar de que ela não existe, já faz três dias que eu cheguei aqui e nada dela. Assim eu vou achar que ela é uma noiva imaginária, igual ao seu amigo de infância também imaginário que você criou aos cinco anos de idade, lembra?

- Claro. E eu me lembro também que ele não durou nem uma semana, já que você, com muito ciúmes dele, ameaçou romper nossos laços de amizade para sempre. – comentou rindo. – Ai, ai... Bons tempos aqueles.

- Nem me fala... Às vezes eu fico olhando para nossas fotos numa espécie de sessão nostalgia, sabe? Eu abro a caixa e as esparramo pela cama e fico horas ali, olhando cada uma delas e me lembrando com detalhes daqueles dias imortalizados por um clique. Mas agora, chega de enrolação. Vamos logo conhecer sua noiva.

- Claro, eu já tirei o carro é só a gente descer. – disse inquieto.

- O que foi? Você está diferente esses dias, um pouco esquisito até, eu diria. Tem algo que você queira me contar? Você sabe que pode confiar em mim, né?

- Claro. E você também sabe que pode confiar em mim de olhos fechados né? – Melody meneou a cabeça afirmando. Então ele pegou uma venda e colocou sobre os olhos dela. – Então confia em mim e vem comigo.

- Mas pra quê tudo isso? Você sabe que eu fico ansiosa nessas situações, Toby.

- Vai ser rápido. Eu quero te levar num lugar. Você disse que confiava em mim.

Toby a guiou até o carro, colocou uma música e juntos eles seguiram rumo ao desconhecido, apenas para Melody que segurava a mão ansiosa dele o tempo todo .

*This Never Happened Before – Paul MacCartney

*****

Toby estacionou o carro no Washington Park. – Ele ajudou Melody a descer e depois a conduziu até um lindo jardim de frente para um rio.

- Nós já chegamos? – perguntou Melody curiosa.

- Já sim. Vem, senta aqui. – Toby ajudou Melody a se sentar e depois retirou a venda dos olhos dela, que ficou surpresa ao ver que estava diante de um dos seus lugares favoritos em Portland.

- Eu não acredito! – disse emocionada. – É o Washington Park! Como eu senti falta desse lugar tão especial pra mim. Muito obrigada por me trazer aqui, Toby.

- Não precisa me agradecer... Esse lugar também é muito especial para mim. Ele só perdeu toda sua graça e beleza depois que você foi embora. Mas especialmente hoje, eu me sinto como se tivesse voltando no tempo.

- Porque você me trouxe até aqui? E que caixa é essa que você está segurando?

- Eu te trouxe até aqui para que você conhecesse melhor a minha futura esposa...

- E onde ela está? – perguntou olhando tudo em volta.

- Tenha só mais um pouquinho de paciência que logo você irá conhecê-la. – disse sorrindo e depois abriu a caixa. – Reconhece? Essas são todas as cartas que você me escreveu desde que foi embora. Eu nunca parei pra contar, mas com certeza deve ter umas três mil cartas aqui.

- Uaauuuu! Eu não acredito que você guardou todas! Eu me sinto até envergonhada diante desse seu gesto. Eu também guardei, mas só algumas. As que mexeram mais comigo, me fizeram rir, chorar, sentir saudades... Deve ter coisas aí de quando eu tinha apenas dezesseis anos e já vivia todos os dramas de se mudar contra a minha vontade para uma cidade grande.

- Você é linda, Melody. Sempre foi linda por dentro e por fora, além de única e especial. Você não tem que sentir vergonha de quem é, nem de expor os seus sentimentos, pois todos eles formaram a mulher maravilhosa que você é hoje. E pela qual eu me descobri completamente apaixonado desde sempre... Desde que eu te conheci. Mas que só fui perceber isso no último ano, depois de passar por várias desilusões amorosas e não me encontrar em nenhuma delas. – confessou tímido.

- O quê? Que brincadeira é essa, Toby? Para com isso. Nós somos melhores amigos. – disse sorrindo. – Ó, meu Deus! Você está falando sério...? Eu nem sei o que dizer.

- Esses anos todos em que nós ficamos longe, meu amor, só serviram pra me fazer ver o quanto eu era e ainda sou apaixonado por você. Eu te amo, Melody Grey. E não existe noiva nenhuma, nem casamento, pelo menos por enquanto. Essa foi a maneira que eu encontrei de te trazer até aqui e confessar tudo o que eu sinto por ti. Eu poderia ter amado qualquer outra pessoa, uma que fosse menos complicada, menos indecisa, e que estivesse disposta a estar comigo o tempo todo. Mas o meu coração escolheu você. E por alguma razão que eu desconheço, ele não quer e não vai abrir mão disso. – disse decidido e emocionado.

- Eu não estou acreditando nisso, Toby. Eu cheguei a sentir ciúmes de você quando eu li na carta que você ia se casar. A vontade que eu tive foi de estrangular a sua noiva antes mesmo de conhecê-la. – confessou entre risos e lágrimas. – Que loucura... E só agora eu estou entendendo o porquê desse sentimento egoísta e mesquinho que eu tive. Tudo agora faz sentido pra mim também, meu amor.

- Que bom, porque nesse exato momento... Eu tenho a honra de te apresentar, a minha noiva. A mulher com quem eu vou me casar, e ela é você Melody. Sempre foi você...

Melody chorou de emoção e alegria; então Toby se ajoelhou diante dela.

- Melody Grey, você aceita se casar comigo? – perguntou abrindo uma caixinha e tirando de dentro uma aliança.

- É tudo o que eu mais quero no mundo, Tobias Sheppard. Ser sua mulher. – disse feliz e estendendo-lhe a mão. – Eu aceito.

* Try – Macy Gray

Eles então trocaram alianças felizes e emocionados, enquanto Toby a tomou nos braços e a beijou calorosamente. – Depois eles começaram a brincar e correr um atrás do outro pelo parque, como faziam nos tempos de juventude... Até caírem cansados sobre o gramado e voltarem a se beijar apaixonadamente.

 

*****

 

Manhattan, Nova York – American Woman Magazine

 

Dois dias depois…

Melody entrou na Revista feliz e segura de si. Depois de cumprimentar a amiga rapidamente, ela foi direto pra sala de Miranda Miller, entrando sem bater.

- Mas quem mandou entrar... sem bater, Melody? – disse surpresa. – Eu esperava vê-la só daqui a alguns dias. O que houve?

- Como vai, Miranda? Apesar de você não ter perguntado como sempre, eu estou ótima, obrigada. A matéria já ficou pronta e está maravilhosa. Mas você vai poder conferi-la melhor no meu blog. Eu decidi criar um e postei como a minha primeira matéria... E se não se importa, eu roubei o seu título, pois achei maravilhoso e tem tudo a ver comigo.

- Eu não estou entendendo. Do que você está falando, senhorita Grey? – perguntou confusa.

- O que eu estou querendo dizer, é que, a partir de hoje, eu seguirei carreira solo. Eu estou muito mais confiante e sei que tenho talento pra isso. Toma. – disse jogando um envelope em cima da mesa dela. – Essa é a minha carta de demissão, senhora Miller. E anote o meu nome, pois a senhora ainda vai ouvir falar muito dele. Até qualquer dia.

Melody saiu confiante, deixando Miranda de queixo caído e, pela primeira vez, sem palavras, e se mordendo de raiva.

Já do lado de fora, Toby a esperava no carro e, depois de um longo beijo apaixonado, eles seguiram rumo ao apartamento novo, onde eles tinham muito que fazer. Mas ser feliz com certeza estava no topo de suas listas.

 

*****

 

“Desencontros de amor existem, e a tecnologia no mundo moderno de hoje em dia só prova isso. Muitas vezes as pessoas dizem coisas que não queriam dizer, porque mal prestam atenção no que estão escrevendo, ou no caso digitando. As palavras nunca bastaram e agora só através de meios digitais, muito menos. É preciso ver, tocar, sentir e principalmente olhar no olho, ainda que não se diga absolutamente nada, pois o olhar fala mais que mil palavras, e feliz daquele que ainda sabe interpretar os olhares de quem se ama. As pessoas acham que têm o poder nas mãos ao ignorar, deletar ou bloquear uma pessoa na ilusão de que se tem alguma coisa, quando na verdade nunca se teve de fato. E nós continuamos fugindo da parte legal, e facilitando a parte ruim que não necessariamente precisa ser, que são os diálogos e as famosas “Drs”, nos ajudando a compreender muito mais um ao outro, e na grande maioria das vezes, resolvendo as nossas diferenças.

A vida não está e nunca estará só nas palavras, por isso tudo ficou menos de verdade, menos crível. A palavra é muito pouco, quando além delas, o corpo, a cabeça, as mãos, o coração e os lábios também falam; mas é preciso ver, estar de frente, pra poder fazer todas essas leituras. Há muito mais para que as pessoas se compreendam, se acertem e se apaixonem de verdade, porque viver só vale mesmo a pena pelos sentimentos. Pois na vida, poucas coisas são tão aleatórias quanto o amor. “E mesmo sabendo que ele é um jogo de azar, nós ainda insistimos em jogar os dados.”

*****

Melody Grey

 

março 17, 2021

Marjorie | Sessão Rajax

por , em


 

Marjorie

Escrito por Luciana Fernandes

 

Em um dia não tão belo, eu e Marjorie ficamos perto da miséria. Não o suficiente para chegar lá, mas a passos bem perigosos de não ter uma casa ou o que comer.

 

— Vamos morar nessa casa vazia? — ela me perguntou quando entramos em um terreno no bairro Cidade Nova de Manaus.

 

— Bom, tivemos que vender uma boa parte das nossas coisas — eu defendi a ideia de morarmos ali — Não é tão confortável como o nosso antigo apartamento na Ponta Negra, mas…

 

— É que eu fico com receio de ter que andar nessa casa — disse Marjorie — Me dá calafrios ela.

 

Eu me lembrei do meu pai. Meu pai sempre me dizia, quando mais novo, que eu deveria muitas vezes fazer as vontades da minha esposa. Pensei bem nessa questão, tentando ir na lógica da coisa, ainda mais sendo um professor de matemática para adolescentes. Marjorie já estava fazendo muitas das minhas vontades desde que nós nos casamos. E olha que éramos jovens.

 

— Você pode se apoiar em mim, minha querida — tentei ser o mais romântico possível quando estendi minha mão para ela — Assim, não terá o que temer.

Marjorie me encarou com seus olhos castanhos pequenos. E, então, gargalhou.

 

— Isso não faz muito o seu estilo, bobo! — sua mão delicada tocou a minha, apesar de sua fala.

 

Desse jeitinho, nós fomos até o nosso quarto. Eu fiz o possível para que fosse agradável para nós dois. Tinha uma lâmpada apenas no teto, um móvel para poder pôr um relógio-despertador e algumas anotações para a aula da segunda, o dia seguinte. Possuía um aromatizante, um de lavanda que ela adorava, e também alguns porta-retratos nossos no chão. E no meio de tudo isso, nossas malas com nossas roupas e coisas e também um colchão solitário.

 

— O que achou? — perguntei dela.

 

Ela deu um de seus sorrisos adoráveis e comentou comigo:

 

— É, dá pra viver…

 

Demorou seis horas para que a noite viesse na cidade de Manaus.

 

— Querido, você não vai dormir? — perguntou Marjorie enquanto eu estava com meu celular ligado, falando com alguns colegas professores e corrigindo algumas provas.

 

— Daqui uma hora… — eu disse para ela.

 

— Você vai ficar com os olhos fundos desse jeito… — Marjorie insistiu, preocupada — Não será nada legal para sua imagem.

 

Eu a olhei. Marjorie era uma mulher pequena, mas de força sem igual. Ela queria que eu desse certo na minha carreira, que eu fizesse sucesso. Não para Marjorie se mostrar: ela já era uma ex-socialite, que abandonou a antiga vida para viver de um novo sonho, ser dona de casa. Marjorie queria ser mãe, Marjorie queria um bom esposo e Marjorie queria ter a própria vida. Foram mudanças que ela teve após muitas reflexões durante o tempo do nosso namoro. Marjorie queria mesmo provar para seus pais, gente bastante rica, que seu marido era um bom homem.

 

Refletindo em Marjorie e em seus olhos que eu tive o impulso de a beijar. E eu o fiz.

 

— Vá dormir, mulher, que ainda está cedo.

 

Marjorie me lançou um sorriso fraco e se acomodou no colchão. Voltou o rosto para o outro lado e fechou os olhos.

 

Eu passei a trabalhar nas provas. Haviam raciocínios brilhantes, medianos, criativos e os que poderiam melhorar. Eu gostava bastante dos meus estudantes e por isso eu fazia de tudo para não ser o Mister Simpatia. Existiam estudantes que me odiavam por eu pegar pesado. Mas era um modo que eu demonstrava que eu me preocupava.

 

Tive que fazer uma pausa para ir ao banheiro. O banheiro ficava no segundo andar. Vestido de um par de meias e meu pijama, eu fui até lá com os passos com o cuidado de uma pena. Embora eu tivesse cuidado, o chão de madeira fazia seus gemidos a cada passada. Eu me perguntei mentalmente se eu havia engordado e quantos quilos.

 

Na volta, notei que Marjorie estava sentada no colchão. Ela estava se abraçando.

 

— O que houve, Marjorie? — eu perguntei, ajeitando os meus óculos.

 

— Essa casa faz muito ruído — respondeu ela — Parece que há peças na minha cabeça.

 

— Deve ser pela casa querer que você feche os olhos — eu brinquei, embora não sorrisse.

 

Ela riu.

 

— Deve ser — voltou a ficar deitada, mas não fechou ainda os olhos — Vou tentar dormir de novo. Dessa vez, vê se não me assusta de novo!

 

Ficamos na casa por meses e meses, até se tornar um ano. No primeiro ano, Marjorie me confessou que sentia estranheza consigo mesma. Eu perguntei o motivo e ela me revelou “Algumas vezes, sinto que minha cabeça não está bem”. Passei a me preocupar. A família de Marjorie possuía um histórico de psiquiatras e internos de hospital psiquiátrico. Eu já presenciei o segundo caso e não me fez nenhuma impressão agradável a ideia de que Marjorie viesse a ser “mais um deles”. Eu estava juntando minhas economias de aulas extras para vestibulares. O objetivo inicial era comprar um carro, como nós dois costumávamos usar ônibus ou uber para nossos afazeres. Eu passei a usar esse dinheiro para pagar consultas com um dos melhores psiquiatras de Manaus.

 

Mesmo assim, não foi possível evitar que pequenos acidentes vasculares cerebrais acontecessem em Marjorie. Foi tarde demais, já que ela passou a perder memórias, mudar a personalidade para a de uma criança e não fazer coisas que pessoas normais tem a habilidade de fazer.

 

— Oi, Marjorie, minha querida! — eu disse em uma época que a cama era mais confortável.

 

Ela estava penteando os longos cabelos loiros tingidos quando me perguntou:

 

— Quem é você?

 

— Quem sou eu? — eu falei — Eu sou seu marido!

 

— Marido… — e ela fez força com os olhos, como lembrasse com muita dificuldade de algo — Ah, marido — os olhos dela tinham um brilho do passado, mesmo que por um instante.

 

Mas ela não sabia mais qual era meu nome. Só sabia que possuía um marido. Era só.

 

— Eu peço demissão — foi o que eu decidi depois desse episódio, indo para cada escola que eu lecionava.

 

Uma de minhas colegas disse:

 

— Por quê você não vai mais ensinar, Rafael? — quis saber a outra professora.

 

— Marjorie não lembra mais meu nome — respondi, uma das mãos em punho — E tenho que prestar mais atenção nela.

 

Não era culpa minha, eu sabia na superfície. Mas no fundo do fundo, eu me culpei por não ter precavido antes a situação. Eu havia feito de tudo e, no final, nada parecia ter adiantado.

 

Ver ela em estado infantil novamente, tão frágil, estava me matando. Marjorie passou a enxergar coisas que não existiam. Eu não tive outra escolha, pois sozinho ou com a ajuda de meu único familiar vivo não adiantava. Resolvi chamar a família de Marjorie.

 

E eles vieram.

 

— Minha filha — disse o empresário, pai dela — não lembra mais das pessoas?

 

— Ela apenas lembra de algumas — respondi — Isso porque eu tenho a lembrar sempre quando posso.

 

— Posso providenciar uma cuidadora para ela — o pai dela disse — Eu não tenho tempo. Tampouco a mãe dela tem condições para cuidar dela.

 

— Ela não pode, sei lá, ajudar? — eu queria saber — Ela é mãe, afinal.

 

— A mãe de Marjorie não pode andar desde que teve um acidente em São  Paulo — revelou o homem, sério.

 

— Oh — eu fiz.

 

— Mas posso assegurar videochamadas entre vocês três — prosseguiu o pai de Marjorie — Você, Marjorie e ela. É certo que a mãe de Marjorie irá gostar de falar com a filha mais vezes.

 

Alguns primos de Marjorie instalaram casas no nosso bairro, Cidade Nova, para poderem vigiar também a prima mais de perto. Eu os conhecia pela infância. Eles não gostavam de mim, mas a amavam, como sempre. Eu não me preocupava se me odiassem, eu só queria ajuda, eu só queria que ela vivesse bem e por mais anos.

 

— Marjorie, querida… — em uma das videochamadas, a mãe de Marjorie estava com lágrimas nos olhos.

 

— Quem é? — quis saber Marjorie, quase desinteressada.

 

— Sua mãe — respondi com paciência.

 

— Ah, mamãe! — disse ela, de repente alegre como uma criança.

 

— Ela está muito bem — a mãe de Marjorie elogiou, pois sempre gostou de mim como amigo de sua única filha — Esses vestidos dela… Não sei onde você os arranja. Combinam muito com minha filhota fofa.

 

— Eu os arranjei com uma costureira do bairro — eu disse para a mulher, observando pelo canto de meus olhos azuis a cuidadora conversar baixinho com Marjorie — Achei por bem ela vestir vestidos. Ela amava vestidos.

A mãe de Marjorie fechou os olhos, inspirou o ar e afirmou com segurança:

 

— Sim — confidenciou — Ela gostava muito de vestidos, eu via.

 

— O que aconteceu? — eu inquiri da cuidadora, pois Marjorie estava investindo muito em conversar com ela.

 

— Marjorie disse — a cuidadora, quem se chamava Sandra, contou — que tem uma vozinha na cabeça dela que disse que ela tem que segurar a língua.

 

— Bom — eu acariciei o rosto da minha mulher — diga para essa voz que eu sinto falta de nossas conversas.

 

Marjorie, com certeza instintivamente, sorriu. Estava acostumada naquele dia com a minha presença.

 

Chegou o Natal do segundo ano. O segundo ano naquela casa, a casa de madeira. Ficamos de ir para a casa do pai de Marjorie, onde se reuniria a sua família. Havia quem gostasse dela, havia quem disfarçasse que gostava dela apenas para ter a simpatia do pai e havia quem não gostasse abertamente da mulher-criança. Da casa, foram soltados fogos de artifício. Marjorie ficou encantada com eles e passou a lacrimar sozinha.

 

— Marjorie? — eu a questionei.

 

— Rafael — ela não me respondeu, mas falou.

 

— Rafael é meu nome — eu apontei para meu peito, esperançoso.

 

— Rafael —  ela voltou a falar, algumas lágrimas caindo de seus olhos — Eu não lembro quem é esse Rafael…

 

Minha teoria era que ela se lembrou, mesmo que por um breve instante, de nossa infância. Nas festas juninas, costumávamos contar sobre nossas paqueras na Ponta Negra, lá na casa do seu pai, e ver os fogos de artifícios juntos. Para completar esses dias, também fazíamos barquinhos de papel em poças de água e passávamos a observar os barcos afundarem. Marjorie costumava brincar que os barquinhos de papel ofício eram como se fossem a vida. Um tempo, de pé, vivos. Outro tempo, caídos, sem vida.

 

Uma lágrima saiu de um dos meus olhos ao pensar na possibilidade de Marjorie morta.

 

— Isso dói — eu sussurrei para mim mesmo.

 

Demoraram três duros anos para que Marjorie fosse embora. Em seu funeral, vi o seu rosto no caixão. Ela estava com um sorriso desalinhado e feliz. Em seu descanso eterno, creia eu. Nesse dia, chorei demais de saudade. Acho que chorei talvez mais do que seus pais ou do que seus primos, como ela havia morrido em casa. Em meus braços. Era um sacrifício viver depois disso.


Com a morte de Marjorie, não havia o que me segurasse para não trabalhar. Recomecei o meu trabalho como professor de Matemática em escolas públicas. Não namorei. Não me casei de novo. Muitas vezes, não trabalhei muito bem, já que às vezes eu tinha a sensação de ter um abraço de Marjorie ou de ouvir um grito seu como se ela estivesse me observando em estágio de criança.


“Marjorie… Marjorie… Você não foi embora por eu ainda querer o seu amor?”, uma vez me peguei pensando depois de conversar com uma psicóloga simpática, “Me deixe embora logo, por favor”. E lágrimas invisíveis escorreram de mim aos 57 anos. “Eu não demorarei a ir embora”.

 

Em uma noite de Natal, como aquele tempo da vaga lembrança dela dos fogos de artifício e do meu nome, eu estava deitado na mesma casa de madeira da Cidade Nova. Eu possuía 58 anos. Desta vez, a velha casa estava reformada, mas tinha o mesmo ar assombrador de antes. A igreja mais próxima tinha cânticos belíssimos e não possuía instrumentos tocando. Era apenas a voz me guiando pela noite adentro.

 

Eu vi de relance alguém sair da porta. Era Marjorie, com o mesmo vestido azul que vestiu quando foi enterrada. Desta vez, ela parecia estar bem consciente. Um sorriso travesso brotou de seus lábios. Eu abri a minha boca para falar, mas ela fez menção para eu ficar em silêncio. E ela desapareceu.


Eu não senti mais vontade naquele momento. A minha vontade era fraca. Meu corpo estava fraco. Minha alma estava fraca. “Espere, Marjorie”, eu pensei antes de dar meu último suspiro, “Vejo você já já”.

 

E eu fui encontrado morto por um vizinho, quem estranhou que eu não saí de casa por três dias. Não havia parentes que pudessem chorar por mim, apenas meus ex-colegas de trabalho e meus estudantes. Eu era um barquinho de papel caído, assim como foi Marjorie.

 

FIM.



Marjorie

Sessão Rajax | Filme 1

 

Criado e Escrito por:

Luciana Fernandes

 

Elenco:

Marjorie – Juliana Paiva

Rafael – Rodrigo Simas

Mãe de Marjorie

Pai de Marjorie

 

Rajax © 2021



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